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O disco “Sobrevivendo no Inferno”, lançado em 1997 pelo grupo Racionais MC’s, integra a lista de leitura para o vestibular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Junto com a novidade, a obra está sendo lançada em livro, em que cada letra de música ganha o patamar de um capítulo. “O álbum é uma aula de história, política, racismo e luta por direitos”, afirma o DJ KL Jay, um dos integrantes do Racionais MC’s, em depoimento para o Instituto Claro.

Essa ideia é corroborada pelo professor de música do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo (USP), Walter Garcia da Silveira Junior, ouvido neste podcast. Para ele, o material representa um “momento de alta elaboração estética da experiência de se viver numa periferia de São Paulo ao final do século 20”.

O pesquisador afirma ser muito importante estudar essa obra, porque ela recria como já era o convívio com a violência estrutural da sociedade brasileira, principalmente nas grandes cidades. “Não se trata de uma tese de sociologia. É arte. E, enquanto tal, desperta sensações e sentimentos, mas reflexão também. Por isso, Racionais MC’s é um nome muito adequado ao grupo”.

Edi Rock, outro integrante da banda, respondeu por e-mail sobre a importância que tem a escolha do disco como leitura obrigatória de um dos vestibulares mais importantes do país: “O Racionais sempre falou em seus discursos sobre informação e revolução das mentes, informação e diversão por meio da música. Se há algo mais que revolucionário é estar vivo pra ver essa mudança acontecer e, além disso, fazer parte realmente do que era um sonho como o de Martin Luther King”.

“A luta continua, é uma luta diária contra as covardias e atrocidades que ainda oprimem os negros e a sociedade brasileira. Fazer parte da história não quer dizer que vencemos, mas sim que a música pode também ser referência para aquele que ainda não encontrou o rumo a ser caminhado em meio à selva de pedra e suas violações impunes contra a vida”, acrescenta ele.

O pano de fundo das letras, para o professor, são as consequências de um pensamento neoliberal que impera no início dos anos 1990, no Brasil, e traz efeitos sobretudo para a população negra e em situação de vulnerabilidade social. “Essas pessoas conviviam com o desemprego, a precarização do trabalho e com uma sensação geral de que as chacinas e a violência se multiplicavam em São Paulo.”

No áudio, além de citar a importância da obra, Garcia faz uma análise dos recursos de linguagem utilizados para reforçar aspectos das letras, como, por exemplo, a escolha do estilo épico de narrativa. “Você tem um narrador que constrói suas histórias, seus relatos na intersecção entre sua própria experiência, que é a experiência do rapper, e a experiência da sua coletividade. Não custa dizer que Mano Brown nunca foi preso e teve autoridade pra cantar ‘Diário de um detento’ justamente por essa intersecção”, conclui.

Link:
Confira uma playlist com todas as faixas de “Sobrevivendo no Inferno”, no canal do grupo no Youtube.

Créditos:
Os trechos de músicas utilizados na edição do podcast são extraídos do disco “Sobrevivendo no Inferno”, dos Racionais MC’s.

Veja também:
Plano de aula Sobrevivendo no inferno (1997) – Racionais MC’s

Atualizada em 21/3/2019 às 10h36.

Crédito da imagem: Klaus Mitteldorf/livro “Sobrevivendo no Inferno”

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