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Disponível em versão digital para download gratuito, o livro “Roça é vida” é resultado de um empenho coletivo proposto pelo Grupo de Trabalho da Roça. Ele tem como objetivo demonstrar a importância do sistema agrícola tradicional quilombola.  A publicação está disponível desde agosto.

“É um sistema que abrange várias coisas que a gente tem dentro do território quilombola, que é a nossa vida em si, como alimentação saudável e a preservação do meio ambiente”, afirma um dos autores do livro e agricultor tradicional do quilombo de Ivoporunduva, Laudessandro Marinho da Silva, ouvido no podcast.

As ilustrações do livro são de Amanda Nainá e Vanderlei Ribeiro (Crédito: reprodução)

Estruturada para ser trabalhada com crianças nos primeiros anos do ensino fundamental, a obra utiliza personagens abstratos.  A Tradição, a Fartura, a Experiência, o Êxodo, a Continuação, o Território, a Luta, a Resistência e a Esperança são alguns exemplos. As escolhas não são por acaso.

“Começa com nomes femininos: a Tradição, a Experiência e a Fartura. É uma composição da importância da mulher quilombola no território. São personagens intergeracionais e a Fartura é a grande narradora do livro, justamente para contrapor essa ideia de miserabilidade, que às vezes as pessoas têm em relação aos territórios quilombolas”, defende a doutora em educação, professora e escritora, Viviane Marinho Luiz, que também está neste podcast.

As ilustrações do livro são de Amanda Nainá e Vanderlei Ribeiro (Crédito: reprodução)

“Os conhecimentos quilombolas revelam uma visão de mundo voltada para o social e em consonância com a garantia de direitos tanto para seu grupo social como para a própria natureza que dele faz parte”, escreve o grupo de autores na apresentação do livro.

Transcrição do Áudio

Música “Cantiga de caminho” (domínio público), com “A Quatro Vozes”, de fundo.

Laudessandro Marinho da Silva:

Esse livro é uma ferramenta de luta para que a gente possa vencer a opressão.

Viviane Marinho Luiz:

Porque as crianças das comunidades rurais perdem quando uma professora fala assim ‘se você não estudar, você vai ficar na roça’. Então o livro faz esse equilíbrio de narrativas, dizendo que a roça é conhecimento.

Laudessandro Marinho da Silva:

Meu nome é Laudessandro, do quilombo de Ivaporunduva, agricultor tradicional.

Viviane Marinho Luiz:

Viviane, professora e escritora.

Vinheta “Livro Aberto – obras e autores que fazem história”

Música de Reynaldo Bessa, instrumental, fica de fundo.

Marcelo Abud

Os conhecimentos quilombolas revelam uma visão de mundo voltada para o social. Nessa cultura, a garantia de direitos é uma luta tanto para o grupo como para a própria natureza. Para transmitir essa consciência aos mais jovens, quilombolas do Vale do Ribeira publicaram o livro “Roça é vida”. Laudessandro Marinho da Silva e Viviane Marinho Luiz, que integram o grupo de autores, resumem o objetivo da obra.

Laudessandro Marinho da Silva:

Garantir que nossos netos, nossos filhos, futuramente reconheçam também que esse sistema ainda existe, que é um sistema que abrange várias coisas que a gente tem dentro do território quilombola, que é a nossa vida em si: alimentação saudável, a preservação do meio ambiente …

Viviane Marinho Luiz:

Meus alunos de primeiro ao terceiro ano quando eles se veem nesse livro, eles veem um sistema de conhecimentos: das benzedeiras, das ervas medicinais que seus avós, que as suas mães têm; e esses conhecimentos precisam ser visibilizados não só para as  crianças rurais – detentoras desse conhecimento – mas, também, para as crianças da cidade.

Som de página de livro sendo virada

Laudessandro Marinho da Silva:

Quilombos: aquelas comunidades que não foram reconhecidas, mas que se organizaram antes da Lei Áurea resistindo à escravidão.

Viviane Marinho Luiz:

Quilombola é aquele que é nascido e criado no quilombo e que resiste, né, contra a expropriação de sua terra.

Música: “Adupé Obaluaê” (Zé Manoel)

Na minha dança

O que me causa dor, vira poeira

Adupé meu pai! Atotô!

Som de página de livro sendo virada

Marcelo Abud:

Ao lado de Viviane e Laudessandro, há outros dois autores que assinam o livro.

Viviane Marinho Luiz:

A Márcia Cristina Américo, pós-doutora em educação, reside no quilombo São Pedro; e o Luiz Marcos de França Dias é mestre em educação quilombola, professor na primeira escola quilombola do estado de São Paulo, que é a Maria Antônia Chules Princesa. Então, pra nós, também é uma referência, né, enquanto professores que estão no território e trabalhando a educação dentro do território quilombola. Não posso esquecer dos ilustradores, porque o livro tem essa composição também de valorização da representatividade que se dá através da imagem. São Amanda Nainá dos Santos, conhecida por nós enquanto Nainá; e o Vanderlei Ribeiro, que é o Deco. Os dois são artistas plásticos. A Amanda Nainá tem um trabalho voltado para a questão da aquarela e também com a arquitetura da terra. E o Deco também é artista plástico aqui da região do Vale do Ribeira e tem um trabalho voltado com a arte a partir dos elementos do território.

Som de página de livro sendo virada

Marcelo Abud:

Viviane explica que elementos presentes no dia a dia das comunidades quilombolas do

Vale do Ribeira são usados para dar nome às personagens do livro.

Viviane Marinho Luiz:

Começa com nomes femininos, né, Tradição, a Experiência e a Fartura. É uma composição da importância da mulher quilombola no território. São personagens intergeracionais e a Fartura é a grande narradora do livro justamente pra contrapor essa ideia de miserabilidade, que às vezes as pessoas têm uma ideia equivocada dos territórios quilombolas. É a fartura não só no aspecto da soberania alimentar, mas também a fartura no aspecto de um sistema de conhecimentos. E a Fartura, então, enquanto narradora, é fruto da Experiência e a Experiência é gerada da Tradição. Então a Tradição remete à nossa reivindicação da ancestralidade africana dentro dessa ideia também de equilíbrio de narrativas da nossa matriz africana.

Marcelo Abud:

Viviane explica que elementos presentes no dia a dia das comunidades quilombola do Vale do Ribeira são usados para dar nome às personagens do livro.

Viviane Marinho Luiz:

Então a Fartura ela tem como comadre, a Comadre Luta e a Fatura também tem como compadre, o Compadre Território. A Comadre Luta e o Compadre Território tiveram a Resistência. Então esses nomes, né, eles nos dizem respeito àquilo que existe dentro do território. E a Fartura, por sua vez, ela tem como filha a Continuação e também tem como filho o Êxodo. E a Continuação ela simboliza a manutenção da vida no Território, porque no momento específico, né, na década de 80, na década de 90, a Fartura tem então a Continuação, que se manteve no território, mas também tem como filho o Êxodo, que sinaliza pra nós, né, uma denúncia do acirramento de criminalização do modo tradicional de fazer a roça.

Música: “O Cio da terra” (Milton Nascimento e Chico Buarque), com Milton Nascimento

Afagar a terra

Conhecer os desejos da terra

Cio da terra, a propícia estação

E fecundar o chão

Viviane Marinho Luiz:

O Êxodo e a Resistência, no final do livro, fazem nascer a Esperança. É a esperança no sentido do verbo esperançar. Não é uma esperança de braços cruzados. Porque dentro do Território tem luta, tem Continuação, tem Resistência. Então essa Esperança ela simboliza a esperança que se movimenta e o próprio reconhecimento do sistema agrícola tradicional quilombola é esse movimento de todos esses personagens que trazem a potência de vida no território.  Cada nome foi pensado mostrando os elementos de Resistência, mas também os elementos de denúncia, principalmente, na figura do personagem Êxodo.

Som de página de livro sendo virada

Marcelo Abud:

Laudessandro comenta um trecho que dá sentido ao nome do livro “Roça é vida”.

Laudessandro Marinho da Silva:

A gente escolheu uma parte do livro, uma questão muito simbólica pra gente, né, quando a gente faz a relação com a natureza falando do sistema agrícola tradicional quilombola. A gente entende que o ambiente também é gente; que a terra nos da vida, ne, a natureza também tem vida; os animais têm vida; o rio tem vida. Então nesse sentido que a gente traz que o ser humano, nós precisamos deste ambiente com vida!

Por isso que a gente traz aqui essa leitura desse texto do pousio, que na verdade o que representa o pousio? Que a terra precisa descansar também quando ela se sente cansada.

Som de página de livro sendo virada

Viviane Marinho Luiz:

— Pousio?

— Sim, nós quilombolas temos a prática de trabalhar a terra, manejá-la, cultivá-la, mas também deixamos a terra descansar, porque assim como as pessoas, a terra é viva e precisa de um tempo de descanso. É isso que nós chamamos de pousio.

Som de página de livro sendo virada

Viviane Marinho Luiz:

Então, a gente escolheu esse trecho por entender a importância do descanso e do pousio e que a terra nos ensine essa pedagogia de que a tente tem que dar um tempo pra nossa saúde mental, a nossa saúde espiritual, a nossa saúde física …

Laudessandro Marinho da Silva:

Porque a gente sem saúde, a gente não faz nada. A gente não pensa em fazer roça para desmatar em larga escala, mas sim para preservar o meio ambiente. E plantar as alimentações que a gente necessita, né, que o alimento, pra nós, é a vida.

Música “Jongo do Quilombo São José da Serra” fica de fundo

Marcelo Abud:

“Roça é Vida” retrata a importância do Sistema Agrícola Tradicional Quilombola, reconhecido, em 2018, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como patrimônio imaterial do Brasil. O livro está disponível para ser baixado gratuitamente. Você encontra o link no texto que acompanha esse áudio.

Com apoio de produção de Daniel Grecco, Marcelo Abud para o Livro Aberto, do Instituto Claro.

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