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O conto “O Espelho” foi publicado no jornal Gazeta de Notícias em setembro de 1882 e, posteriormente, passou a integrar a coletânea “Papéis Avulsos”. Nela, Machado de Assis faz, pela primeira vez, uma experiência com narrativas curtas em tom mais realista. “Ele utiliza uma perspectiva mais crítica, irônica e pessimista, iniciada com ‘Memórias Póstumas de Brás Cubas’, um ano antes”, avalia o professor de literatura do Cursinho da Poli, Cláudio Caus, entrevistado nesta edição do podcast “Livro Aberto”.

Claudio Caus diante de ilustração de Dorinho Bastos, na biblioteca da Eca, na USP (crédito: Marcelo Abud)

 

O contexto da época era de profunda transformação no Brasil. No início da década de 1880, o movimento abolicionista ganhava força e o país também se encaminhava para o fim da monarquia. Segundo Caus, “o conto, além de expressar a universalidade característica dos realistas, também tem como pano de fundo este contexto histórico-cultural brasileiro”.

O objeto destacado desde o título faz referência a um espelho que remonta à época de Dom João VI. Embora imponente, com moldura em ouro e madrepérola, já é uma estrutura corroída, desgastada pelo tempo. “É como se o autor quisesse mostrar que a sociedade brasileira, principalmente a elite, ainda se apegava a uma tradição, um certo conservadorismo.”

Segundo o professor, a narrativa é uma espécie de conto de tese, em que a ideia é elaborada, dissertada, e algumas perspectivas são apresentadas a respeito dela. No texto, quatro ou cinco cavalheiros debatem questões cientificistas, ligadas à filosofia positivista, determinista, evolucionista, entre outras que estavam em evidência. João Jacobina, personagem central de “O Espelho”, num primeiro momento hesita em participar dessa discussão.

“Ele evita, porque acredita que a discussão acaba gerando mal entendido, indisposição, então ele prefere se abster”, ressalta Caus. No entanto, ele aceita falar, desde não haja réplica nem opinião contrária à sua exposição.

A conversa envereda por uma experiência concreta relatada por Jacobina ao grupo e envolve a natureza da alma humana. Ele basicamente defende a teoria que o ser humano tem duas almas, não uma. “O Machado, que era sabidamente ateu, como normalmente são esses cientificistas, já levanta uma dúvida em relação à nossa cultura que é bastante católica, judaico-cristã e que defende a existência de uma alma apenas.”

“Ele conta que, quando tinha 25 anos, era de família humilde, pobre e acabou conseguindo o cargo de alferes, uma espécie de oficial. Isso despertou a admiração de boa parte dos amigos e da família, que até doaram para ele a farda, mas, ao mesmo tempo, também a inveja de outros”. Ao analisar o discurso do protagonista, de acordo com o professor, fica claro que ele se perde em uma vida de aparência e a imagem no espelho reflete a alma externa, não o que realmente é, mas o que deseja que as pessoas vejam nele.

Para Caus, essa imagem abre a possibilidade de um link com o que acontece hoje, em especial, nas redes sociais. “Crianças e jovens estão expostos a um bombardeio de fotos, de lugares, de pessoas, em imagens e posts devidamente filtrados, selecionados. Isso faz com que eles acreditem que não são perfeitos como essas pessoas e nem têm uma vida tão interessante, sem parar pra pensar que ninguém vive literalmente aquilo, eles apenas mostram o que acham que a sociedade quer deles ou como eles querem ser aceitos”, finaliza.

Link:
O conto “O Espelho”, de Machado de Assis, pode ser encontrado na coletânea “Papéis Avulsos”. 

Créditos:
“Sampa” (Caetano Veloso); “Cinco Companheiros”, (Pixinguinha, Benedito Lacerda); “Além do espelho” (João Nogueira); “Índios” (Renato Russo), com Pitty; e “Capítu” (Luiz Tatit), com Zélia Duncan. A música de fundo é composta por Reynaldo Bessa. 

Transcrição do áudio

Ao som de dedilhados suaves de violão, ouvimos o professor Cláudio Caus com pensamentos sobre o conto “O Espelho”, de Machado de Assis:

Cláudio Caus:
Em outras obras, como Brás Cubas, o Machado faz uma referência ao ser humano como uma espécie de medalha, que enquanto mostra uma faceta, esconde a outra. Então tem os dois lados, só que um sempre escondido a tal ponto que a pessoa com o tempo nem sabe mais quem ela é.

Ela não enxerga mais aquele lado interno de tanto que ela quer ser aceita pela sociedade e se anula pra ser aquilo que os outros pensam. Isso adquire um contorno psicanalítico nesse conto, que é de fato bem pioneiro.

Vinheta: “Livro Aberto – obras e autores que fazem história”

Trilha de fundo

Marcelo Abud:
O conto “O Espelho”, de Machado de Assis, foi publicado em 1882. Parte da coletânea “Papéis Avulsos”, nele, o autor se vale de uma narrativa curta para destilar seu realismo repleto de crítica, ironia e pessimismo.

Neste Livro Aberto, o professor de literatura, Claudio Caus, nos leva a refletir sobre “O Espelho”, de Machado de Assis.

Cláudio Caus:
Há no título uma referência a um espelho, que no caso é um artefato que remonta à época de Dom João VI, inclusive. Um espelho que, embora seja imponente, com uma moldura rica em ouro, madrepérola, mas já é uma estrutura parcialmente corroída, desgastada pelo tempo, como se ele quisesse mostrar que a sociedade brasileira ainda se apegava às aparências da época do reinado de Dom João VI.

Música: “Sampa” (Caetano Veloso)
“Chamei de mau gosto o que vi / De mau gosto, mau gosto / É que Narciso acha feio / O que não é espelho”

Cláudio Caus:
Essa decadência e a relação da presença daquele espelho da época de Dom João VI, quer dizer, uma sociedade que ainda se pega a títulos nobiliárquicos, a todas aquelas mesuras, gestos e ostentação da época dessa nobreza já em declínio e, ao mesmo, tempo também tem esse aspecto universal e mais transcendental, que é essa tentativa de entender, ontologicamente, o ser humano.

Marcelo Abud:
Caus contextualiza o cenário histórico e social em que Machado de Assis escreveu o conto.

Cláudio Caus:
Então, esse é um momento em que o Brasil tá se encaminhando para transformações profundas. A gente está no início da década de 1880, mas o Machado, provavelmente, contextualizou 10, talvez 20 anos antes, então você tem aí o auge da segunda revolução industrial, do cientificismo, da Belle Epoque, em que os jovens, principalmente acadêmicos, no ambiente da universidade, debatiam essas questões cientificistas, questões ligadas à filosofia positivista, determinista, evolucionista, entre outras. Então, havia de tudo aí desde teorias mais concretas até umas “brisas”, como o pessoal diz, mais abstratas. Nesse contexto que essas personagens estão debatendo.

Música de fundo: “Cinco Companheiros”, de Pixinguinha

Marcelo Abud:
Em “O Espelho”, quatro ou cinco cavalheiros estão em um ambiente sombrio para debater questões que não são capazes de alterar os espíritos. Entre eles, no entanto, João Jacobina, com cerca de 50 anos de idade, mostra-se avesso a discussões.

Cláudio Caus:
Diante da insistência dele de permanecer calado, os outros começam a provocá-lo: “Não, nós queremos saber a sua opinião”. E aí ele diz que evita, porque a discussão acaba gerando mal entendido, uma indisposição, então, ele prefere se abster. Mas que, se de fato quisessem ouvir o que ele tem a dizer, então ele diria, só que sem réplica alguma, ele não aceitaria uma opinião contrária, uma contestação da sua versão.

E, aí, ele basicamente defende a teoria de que o ser humano tem duas almas, não uma. O Machado, que era sabidamente ateu, inclusive, como normalmente são esses cientificistas, ele já levanta uma dúvida com relação à nossa cultura que é bastante católica, judaico-cristã e que defende a existência de uma alma apenas.

Música: “Além do espelho” (João Nogueira)
“Quando eu olho meu olho além do espelho / Tem alguém que me olha e não sou eu”

Cláudio Caus:
E diante da incredulidade dos outros, que participavam daquela reunião, ele explicou “olha, nós temos uma alma que é interna, que olha de dentro para fora, e uma alma que é externa, que olha de fora para dentro” e que ambas compõem o todo, como se fossem duas metades de uma laranja. Machado faz muito isso, de utilizar alguns elementos concretos pra tentar explicar essas questões mais abstratas, mais transcendentais.

Marcelo Abud:
Jacobina fala sobre a alma interna, que resultaria da personalidade que desenvolvemos por meio das nossas experiências, e da alma externa, que é a social, como as pessoas nos veem. Para isso, lança mão de uma teoria que aprendera com uma experiência vivida por ele mesmo na juventude.

Cláudio Caus:
Quando ele tinha 25 anos, ele era muito de família humilde, pobre e acabou conseguindo o cargo de alferes, que seria um oficial, mais ou menos hoje como um tenente, segundo-tenente, algo assim. Isso despertou a admiração de grande parte dos amigos, da família, que até doaram pra ele a farda. Mas, ao mesmo tempo, também a inveja de alguns amigos e alguns poucos parentes…

A partir daí, a vida dele muda completamente, ele passa a ser tratado de uma forma distinta. Ele não é mais o Joãozinho, agora ele é o alferes. Alferes pra lá, alferes pra cá, o tempo inteiro. Então, ele começa a ficar com o ego bastante inflado por isso. A ponto de – e aí é que entra essa teoria das duas almas – de perder um pouco da sua interioridade, em detrimento dessa pressão exercida pelo meio, pela sociedade, em reforçar essa exterioridade. Isso é constante em grande parte das obras do Machado de Assis, de uma sociedade que valoriza mais a aparência do que a essência, mais o ter do que o ser.

Marcelo Abud:
Quando está de passagem pelo sítio de uma de suas tias, Jacobina recebe dela um espelho para levar ao quarto e poder se admirar.

Cláudio Caus:
Tinha um espelho antigo, da época do Dom João VI, que enfeitava a sala. Era uma residência bastante humilde, então o espelho, mesmo já bastante envelhecido, se destacava na sua imponência, e ela manda levar o espelho para o quarto dele, não chega a dar o espelho para ele, mas enquanto ele estivesse ali, “o espelho fica com você, pra você se ver, pra você se admirar”. E ele vai se acostumando com aquilo.

Marcelo Abud:
Ainda que desgastado, o espelho pode representar a aristocracia de outros tempos, com sua pompa, luxo e títulos. Mesmo que o objeto não seja original, o que importa – em uma sociedade de aparências – é a tradição.

Segundo Caus, décadas antes da psicanálise, Machado já observava a influência que os outros exercem na construção da dualidade do ser.

Cláudio Caus:
Quando ele publica o conto, Freud estava engatinhando  nas suas teorias ainda, que ainda não estavam bem formuladas, como iriam se tornar no final do século XIX e começo do século XX. Mas há um momento interessante no livro que é quando o Jacobina tá sozinho já, até já sem escravos, sem nada na fazenda, em que ele dorme e sonha. E quando ele sonha, consegue se enxergar como ele é por dentro, ele consegue ter acesso a essa alma interna dele. É como se ali no desligado da sociedade, ele conseguisse se encontrar. Tem uma coisa da psicanálise que pra você entender melhor quem você é, nesta busca do inconsciente, olhando pra dentro, mas a partir do momento em que ele acorda, em algum momento, não tem como continuar dormindo, aí ele não consegue se enxergar mais, porque o tempo todo ele está pensando nisso, na expectativa de que continue sendo visto, que era até muito mais interessante para ele, como as pessoas viam.

Música: “Índios” (Renato Russo), com Pitty
“Nos deram espelhos / E vimos um mundo doente / Tentei chorar e não consegui”

Som de página de livro sendo virada

Cláudio Caus:
Depois de um tempo sem ter coragem de se ver no espelho, ele resolve fazer isso e acaba não se vendo. Ele vê apenas uma espécie de mancha, de borrão, algo meio diáfano. E aí, depois de um tempo tentando se enxergar sem sucesso, ele tem a ideia de colocar a farda e aí ele conseguia se ver.

Som de página de livro sendo virada

Cláudio Caus:
“Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e… não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior. Ei-la recolhida no espelho.

(…)

Tudo volta ao que era antes do sono. Assim foi comigo. Olhava para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava, sorria, e o vidro exprimia tudo. Não era mais um autômato, era um ente animado. Daí em diante, fui outro. Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes…”

Som de página de livro sendo virada

Cláudio Caus:
Então, o Machado brincando, portanto, com essa anulação de uma sociedade em que a gente se preocupa mais com a opinião pública, com o que os outros pensam da gente, como os outros veem a gente, do que em a gente ser quem a gente é, se expressar de maneira autêntica e procurar se fazer aceito por aquilo que a gente, de fato, é por dentro.

Música: “Capítu” (Luiz Tatit), com Zélia Duncan
“De um lado vem você com seu jeitinho / Hábil, hábil, hábil / E pronto! / Me conquista com seu dom / De outro esse seu site petulante / WWW / Ponto / Poderosa ponto com”

Cláudio Caus:
E há a possibilidade até de um link, essa palavra é precisa, com o que acontece hoje, com as redes sociais, principalmente. Crianças e jovens expostas aí a um bombardeio de fotos, de lugares, de pessoas, de comida devidamente filtrados, que faz com que essas pessoas acreditem que aquela é a vida… “nossa, eu não sou desse jeito, perfeito como essas pessoas, não tenho uma vida interessante como a dessas pessoas…”. Sem saber que essas pessoas também, ou sem parar pra pensar, que essas pessoas não vivem literalmente aquilo, elas apenas mostram aquilo que elas acham que é o que a sociedade quer delas, quer ver nelas ou como elas querem ser aceitas. E isto flerta com várias questões que permeiam a sociedade desde a antiguidade. Há uma referência ao mito de Narciso, inclusive, do sujeito que se perde no seu próprio ego, na sua própria aparência…

Trilha de fundo

Marcelo Abud:
Para o professor Claudio Caus, o espelho de Machado de Assis pode ser comparado à sociedade atual, em que se publicam muitas fotos em busca da aprovação dos outros e que, por outro lado, não dá tanto valor a textos mais profundos quando expostos em redes sociais.

Com apoio de produção de Daniel Grecco, Marcelo Abud para o Livro Aberto, do Instituto Claro.

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