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Com sobrecarga de atividades e mudanças repentinas diante da pandemia do novo coronavírus (covid-19), a atividade docente está entre as mais sujeitas a quadros de ansiedade, estresse e até depressão.

“Essas angústias dos professores são maiores por ser um profissional que lida com crianças e adolescentes no meio da pandemia”, avalia a jornalista Cinthia Rodrigues, uma das fundadoras do “Quero na Escola”, que criou o “Apoio Emocional”, projeto voltado à classe de educadores que indica psicólogos e psicoterapeutas voluntários para apoio virtual.

Muitas escolas não estavam preparadas para as mudanças, mas tiveram de se ajustar rapidamente aos métodos do ensino remoto. “A carga horária de trabalho está aumentada, de uma hora pra outra, diversos professores tiveram que aprender a dar aula online, utilizando ferramentas diferentes”, aponta o fundador da Ong Gaia+, Eduardo Pacífico. A organização disponibiliza material de apoio a esse processo de adaptação por meio do programa “Fique Bem”.

No áudio, a psicóloga Deise Ruiz, também ouvida pelo Instituto Claro, analisa que a melhor maneira de lidar com situações que estejam gerando problemas emocionais é manifestar o que está sentindo. “É preciso falar sobre isso com os pais, falar com a direção, com os alunos também; compartilhar as dificuldades em cada um desses meios proporciona para o professor um sentimento de acolhimento, que faz diferença”, aconselha.

Crédito da imagem: Kiwis – iStock

Ver transcrição do áudio

Música “Nº2 Remembering Her”, de Esther Abrami de fundo

Deise Ruiz:
O que será que essa geração que passou por essa pandemia vai produzir? Será que eles vão ter um olhar um pouco mais empático? E quem está sendo responsável por isso diretamente são os professores! Sou Deise Ruiz, atuo com saúde mental, com atendimento psicológico ou com reabilitação cognitiva.

Cinthia Rodrigues:
Essas angústias dos professores são maiores por ser um profissional que lida com crianças e adolescentes no meio da pandemia. Sou Cinthia Rodrigues, uma das fundadoras do Quero na Escola.

Eduardo Pacífico:
Eu acho até desonesto como sociedade a gente jogar todo esse peso, essa carga no ombro dos professores, sem dar esse apoio, sem dar todo o suporte que a gente deveria. Eu sou Eduardo Pacífico, fundador e diretor da Ong Gaia+.

Vinheta: “Instituto Claro – Educação”

Música instrumental, de Reynaldo Bessa, de fundo

Marcelo Abud:
Sintomas de ansiedade, estresse e até depressão têm sido identificados na população em geral, diante da pandemia. No entanto, para algumas categorias profissionais, as implicações na saúde mental atingem graus mais preocupantes. Cinthia Rodrigues, do Apoio Emocional, projeto voltado à classe de educadores que indica psicólogos e psicoterapeutas voluntários para atendimento virtual, cita alguns dos motivos que têm gerado angústia entre docentes.

Cinthia Rodrigues:
Os educadores têm com essas crianças, com esses adolescentes, um vínculo que era diário. A gente ouviu depoimentos de professores que falaram “a rotina passou a ser procurar os alunos”. E, ao mesmo tempo, eles sabem que esses alunos têm muitas vulnerabilidades, têm problemas, às vezes, em casa, passam por dificuldades. Então, tem uma carga emotiva de estar preocupado e, por outro lado, quando eles recebem alguma coisa desses alunos, por serem o adulto que esses alunos têm o contato, não necessariamente o professor está preparado para lidar. Então, por exemplo, se um aluno reclama que está com depressão; se um aluno fala “não tenho mais forças para acordar”, dificilmente o professor sabe como lidar.

Eduardo Pacífico:
O profissional professor já é uma das profissões que tem mais burnout, que tem mais estresse e isso só se acentuou e só se agravou durante esta pandemia. A carga horária de trabalho está aumentada. De uma hora pra outra, diversos professores tiveram que aprender a dar aula online, utilizando ferramentas diferentes, tendo que dar aula por WhatsApp. Os alunos, às vezes, não têm horário pra responder WhatsApp, responde o dia inteiro.

Deise Ruiz:
Tem alguns professores que estão sendo, assim, tão demandados do uso do WhatsApp… Um exemplo, que aquela notificação do WhatsApp – aquele “sonzinho” que a gente escuta, acarreta sintomas fisiológicos de estresse: taquicardia, sudorese, dificuldade para respirar. E isso em um grau maior e recorrente, a pessoa já está manifestando os sintomas de um estresse mais patológico mesmo.

Música: “Offline” (Marcelo Segreto), com Filarmônica de Pasargada
“Já não sei o que que existe, o que que é ilusão / A pessoa, o pixel, o mouse, a sua mão”

Marcelo Abud:
Pelo site do “Fique Bem”, o Gaia+ disponibiliza material de apoio que busca auxiliar emocionalmente os profissionais da educação. Eduardo Pacífico cita como os temas foram escolhidos.

Eduardo Pacífico:
A gente fez um questionário muito simples com duas perguntas: a primeira pergunta era “professor, qual é a sua maior preocupação hoje?”, e a segunda era “professor, qual é a sua maior preocupação quando voltarem as aulas?”. A gente teve quase 700 respostas de professores da rede pública de ensino pelo Brasil e as respostas foram muito convergentes: as grandes preocupações são com o próprio autocuidado e equilíbrio emocional e mental; questões de ansiedade, dormindo mal, se alimentando mal, não conseguindo se concentrar; e as preocupações com “quando eu voltar, como é que eu vou identificar isso nos meus alunos?; “como é que eu vou conseguir acolhê-los, como é que eu vou conseguir dar esse suporte?”, se muitas vezes o próprio professor não tem esse suporte? É isso que a gente tem visto e tem tentado trabalhar pra apoiar os professores.

Marcelo Abud:
Deise Ruiz tem atuado como voluntária do “Quero na Escola”, no projeto “Apoio Emocional”.

Deise Ruiz:
O professor, ele é uma pessoa como a gente: tem família, casa para cuidar. Com essa pandemia o tempo de trabalho do professor é praticamente 24 horas por dia. Porque, Antigamente, ele tinha aquele horário de entrada e saída, tinham as reuniões pedagógicas, a preparação para a aula, mas ele tinha, ainda, uma certa rotina em que ele conseguia separar esses papéis de profissional professor, pai ou mãe, esposo ou esposa… Conseguia manter essa rotina com algumas atividades de lazer ou atividades que mais se identificava e que agora, nesse momento, não. É uma angústia, culpa, de uma certa invasão de privacidade. Tem que organizar uma parte da casa sem tantos ‘barulhos’, intrusões aí, mas assim: e se não tiver esse cantinho?

Marcelo Abud: A psicóloga cita outras questões que têm sido apontadas pelos educadores.

Deise Ruiz: Tem a dificuldade do acesso à internet, a dificuldade de, às vezes, o profissional ter um notebook ou um computador que possa fazer uso. E isso causa também no professor um certo constrangimento por ele, às vezes, falar “olha, não consigo dar aula nesse método ou usando ‘plataforma x’” por falta de conhecimento; falta de uma instrução prévia: todo mundo foi pego de surpresa. Então, para o professor fica esse sentimento: “eu não estou dando conta, eu não estou passando o que eu preciso”. E, às vezes, na sala de aula, isso não aconteceria de uma forma tão marcada como agora.

Uma fala bem recorrente é: “como fazer essa separação dos papéis?; “como se fazer entender também pelos familiares?”. Muitas vezes também o filho está vendo a mãe sendo professora 24 horas, mas a mãe não consegue acompanhar esse filho nas suas aulas online.

Música: “Colo de mãe” (DK 47)
“Fazer a janta enxugando as lágrima / Pegar o salário e fazer mágica / Sem deixar a peteca cair / Ser contra todos, ser contra tudo / Ter que enfrentar de frente o mundo / Ser mãe é viver sem ter o botão de desistir”

Marcelo Abud:
E o que professoras e professores podem fazer para lidar melhor com as emoções diante de tantas mudanças?

Deise Ruiz:
Não se cobrar tanto, ele ser generoso com ele mesmo! Reconhecer que a gente tem os nossos percalços, as nossas limitações… é preciso falar sobre isso com os pais, falar com a direção, com os alunos também; compartilhar as dificuldades, em cada um desses meios, proporciona também para o professor um sentimento de “opa, não estou sozinho!”, “estou sendo ouvido”… Então, é um sentimento de acolhimento que já faz, assim, uma baita diferença.

Eduardo Pacífico:
“Tempo de Pausa” foi um tema que gerou muito debate positivo, que é “você já tirou um tempinho só para você hoje?”. “Você pode, você deve. E isso é importante pra sua saúde física, mental e emocional e até pra seu contato com seus alunos”.

Áudio do vídeo “Tempo de Pausa” do Programa Fique Bem (com música relaxante de fundo) Locução feminina:
Escolha um local para deitar ou sentar, respire profundamente por três vezes.

Deise Ruiz:
E que se ele achar que não está dando conta ou que está muito difícil, pedir ajuda. E que ok sentir que precisa de ajuda e que tem profissionais aí se voluntariando para fazer esses atendimentos; que estamos juntos nesse momento e que a gente precisa realmente de um olhar mais carinhoso para os professores. A gente precisa cuidar de quem cuida da nossa educação!

Música instrumental, de Reynaldo Bessa, de fundo

Marcelo Abud:
Os programas de auxílio emocional são necessários para docentes lidarem com as constantes adaptações que o cenário da educação tem trazido.

Com apoio de produção de Daniel Grecco, Marcelo Abud para o Instituto Claro.

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