A literatura pode contribuir para ampliar as referências dos estudantes sobre pessoas negras e suas experiências na sociedade. A presença de diferentes personagens e perspectivas negras ajuda a questionar representações marcadas por estereótipos e a abordar as experiências dessa população para além de narrativas centradas na escravização e no racismo.
No ambiente escolar, a seleção de obras literárias ainda favorece discussões sobre identidade, ancestralidade, memória, pertencimento, território, cultura, resistência e liberdade – abordagem que está em consonância com a Lei nº 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira na educação básica.
“As crianças e os jovens precisam de boas referências sobre o que significa ser uma pessoa negra em nossa sociedade. E a literatura é um ótimo caminho. É a partir de boas histórias, nas quais pessoas negras ocupam diferentes lugares e papéis, representadas em toda a sua pluralidade fenotípica, que os estudantes podem se inspirar e relacionar sua própria imagem com as narrativas apresentadas”, afirma a pedagoga e formadora de professores Karina Spalla da Silva Chagas.
A leitura compartilhada dos livros pode ser utilizada como ponto de partida para conversas e reflexões em sala de aula. “O professor pode abrir espaço para que os estudantes comentem e reflitam sobre as personagens, suas histórias, relações e diferentes formas de viver. É nesse processo de leitura, conversa e reflexão que a literatura pode se tornar uma ferramenta para uma educação antirracista”, complementa.
Confira, a seguir, dez livros que podem apoiar o trabalho com literatura negra e educação para as relações étnico-raciais:

Menino Benjamim
Otávio Júnior, Yellowfante, 2022
A obra apresenta, em tom lúdico e circense, a trajetória de Benjamim de Oliveira, primeiro palhaço negro do Brasil e um dos criadores do circo-teatro no país. A narrativa busca aproximar as crianças da história e do legado de um artista negro, incentivando a pesquisa sobre sua vida e sua contribuição para as artes cênicas brasileiras.

O Chefão lá do morro
Otávio Júnior, Yellowfante, 2020
Em versos e com linguagem poética, a obra apresenta uma história ambientada no universo das comunidades, questionando a visão simplificada que opõe mocinhos e bandidos. A narrativa aborda temas como desigualdade, violência, infância, esperança e a complexidade das experiências vividas nas periferias brasileiras.

Kieza, uma princesa quilombola: uma aventura sobre coragem, raízes africanas e a luta pela liberdade
Marcos Cajé, ÓGBÁ, Callis, 2025
A história acompanha Kieza, uma menina que nasce escravizada e se torna liderança na resistência de um quilombo. Com elementos de aventura, a obra aborda ancestralidade africana, coragem, resistência e luta pela liberdade, valorizando a história e a identidade das comunidades quilombolas.

Gosto de África: histórias de lá e daqui
Joel Rufino dos Santos, Global Editora, 2005
O livro reúne sete histórias inspiradas em lendas, mitos e tradições da cultura negra, conectando diferentes tempos e lugares, da África ao Brasil. As narrativas permitem conhecer referências culturais africanas e afro-brasileiras e podem estimular reflexões sobre ancestralidade, diversidade cultural e diferentes formas de compreender o presente.

Cinderela do rio
Mafuane Oliveira, Peirópolis, 2024
A obra recria o conto de Cinderela em um contexto brasileiro, apresentando Mariazinha, uma menina separada da mãe e submetida desde cedo a condições análogas à escravidão. Ao incorporar paisagens nordestinas, cultura popular e referências africanas, a narrativa aborda desigualdade social, trabalho e infância a partir de uma perspectiva brasileira.

Mesma nova história
Everson Bertucci e Mafuane Oliveira, Peirópolis, 2021
A narrativa acompanha a convivência entre uma senhora que está perdendo a memória e um menino envolvido com jogos eletrônicos. Construída a partir da colaboração entre diferentes linguagens e da tradição das histórias orais, a obra aborda os encontros entre gerações, a memória e as transformações de uma história ao ser contada e recontada.

Zanzibar, a ilha assombrada
Rogério Andrade Barbosa, Cortez, 2012
A aventura acompanha o pequeno Suleiman em busca do irmão desaparecido em Zanzibar. Para encontrá-lo, o menino precisa enfrentar criaturas assustadoras do imaginário local, como mortos-vivos, fantasmas marinhos e o Popobawa, em uma narrativa que combina aventura, fantasia e referências culturais africanas.

Chupim
Itamar Vieira Junior, Baião, 2024
Primeiro livro de Itamar Vieira Junior voltado às infâncias, a obra acompanha Julim em seu primeiro dia nos campos de arroz, onde trabalhadores plantam e colhem enquanto as crianças espantam os pássaros chupins. Entre realidade e sonho, a narrativa apresenta o universo do trabalho no campo a partir das perspectivas infantil e adulta e aborda relações sociais e desigualdades.

Raízes do amanhã: 8 contos afrofuturistas
Waldson Souza (org.), Gutenberg, 2021
A coletânea reúne oito contos afrofuturistas e afro-brasileiros que imaginam diferentes futuros para a população negra. As histórias combinam ficção científica, fantasia e questões sociais para abordar temas como liberdade, resistência, tecnologia, identidade, memória e possibilidades de futuro, valorizando o protagonismo de personagens negros.

Abayomi: o reluzir dos encontros preciosos
Lívia Sant’Anna Vaz, Chiara Ramos, Yellowfante, 2024
A narrativa acompanha sete irmãs de um clã de guerreiras ashantis diante de uma missão que exige união e cooperação. Inspirada na filosofia Ubuntu — segundo a qual a existência individual está ligada à coletividade —, a obra aborda ancestralidade, sabedoria e solidariedade, aproximando leitores de diferentes idades de referências culturais africanas.
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