“É extremamente penoso para um aluno errar questão fácil, por que o desconto na nota é bem grande”, aponta o especialista em avaliações pedagógicas, Hugo Harada, sobre o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), previsto para os dias 26 e 27 de outubro. Em entrevista ao NET Educação, ele explica como funciona a correção da prova, baseada na Teoria da Resposta ao Item (TRI).

Chega a 86% o número de estudantes que entendem mais ou menos ou não entendem como funciona a pontuação final do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). A informação é da pesquisa divulgada pelo Ibope no final de julho, e feita pelo painel Conectaí, com 1.953 usuários que navegaram no site do Guia do Estudante, entre 4 e 9 de junho. Apenas 14% entendem muito bem a correção.
A pesquisa mostrou também que 23% dos estudantes desconfiam do sistema de correção do exame, 20% não confiam nem desconfiam e pouco mais da metade, 58%, afirmam confiar nas correções. Já para Harada, a apuração da prova é “extremamente confiável, feita por cálculos matemáticos. É muito difícil manipular isso. Mas a redação tem discrepância entre notas que acabam gerando polêmicas, pois depende dos professores, há subjetividade”, diz.
NET Educação – O que é a Teoria da Resposta ao Item?
Hugo Harada – A TRI é um instrumento de avaliação que vem resolver justamente um problema da teoria clássica de testes: aplicar a mesma prova para diferentes grupos e obter notas que não são comparáveis. Com a TRI, é possível comparar dados de diferentes localidades, e resultados do ano passado com desse ano. Não é fácil aplicar a mesma prova para todos e obter resultados coerentes.
NET Educação – Como ela é usada no Enem?
Harada – A TRI é antiga, mas o movimento de uso no Brasil é novo. Hoje, é utilizada, por exemplo, no Saresp e na Prova Brasil. No Enem, é utilizada desde quando o exame foi concebido, em 1998. As pessoas pensam que é aplicada na redação, mas é só nas provas objetivas. A redação ainda depende da avaliação subjetiva dos professores que corrigem.
NET Educação – É possível fazer uma analogia para entender melhor a TRI?
Harada – Uma das características da TRI é que ela evita o aluno ser recompensado por “chutar” uma questão. O que isso quer dizer? A nota é maior para as respostas consistentes. Por exemplo: se o estudante acertou as respostas difíceis, provavelmente será capaz de acertar as fáceis. Se ocorrer o contrário, quer dizer que ele chutou.
Assim, uma analogia seria se um candidato consegue nadar 500 metros em uma prova de natação e ao testar se ele também nada 100 metros, ele não conseguir, então detectamos um problema. Esse tipo de consistência que a prova mede.
NET Educação – Outra característica é não te rum padrão sobre as notas mínimas e máximas.
Harada – Isso. Na teoria clássica do item, a nota mínima é zero e máxima 10. Mas no Enem, o conjunto de questões do candidato define o quanto de zero a mil consegue ser avaliado, não existe um número padrão. Os valores máximos e mínimos de cada prova dependerão das características dos itens selecionados. [No Enem, somente a prova de redação tem os valores pré-estabelecidos].
Voltando para a analogia da natação, se você está medindo que uma pessoa tem a capacidade de nadar 100 metros, pode ver se ela consegue nadar 120 ou 150, mas não consegue dizer se ela consegue nadar 70 ou se nem sabe nadar. Então, se a dificuldade da questão mais difícil for 800, ou que alguém nada 800 metros, não consegue inferir se ele consegue nadar 900 ou mil.
NET Educação – Mesmo que um estudante acerte o mesmo número de questões que outro estudante, não garante que eles tenham a mesma pontuação?
Harada – Sim. Justamente a TRI enxerga essa consistência. Podem-se acertar muitas questões, mas se estiver acertando muitas difíceis e errando todas as fáceis, você é severamente penalizado. O que notamos? É extremamente penoso para um aluno errar questão fácil, por que o desconto na nota é bem grande. Eu sempre faço o Enem todo ano e já errei na marcação do meu cartão. Quando acabei não acertando questões nitidamente fáceis, a nota final foi severamente afetada. Minha recomendação quando falo da TRI: questão fácil é proibido errar.
NET Educação – Como é composta a nota final do Enem hoje? O aluno, sozinho, consegue calcular quanto tirou?
Harada – A nota do Enem hoje tem cinco notas. Quatro áreas diferentes e a redação. O que a TRI revela? Uma nota separada para cada uma das áreas, e o que é importante é que essas notas não são comparáveis. Não se pode comparar quantos metros o candidato corre com o quanto ele nada. Nenhum dos dados conversam entre si, mas geralmente se quer tirar a média de tudo isso e está errado. Não é possível calcular sozinho.
NET Educação – Apesar das polêmicas, no ano passado sobre as redações, o sistema de correção é confiável, em sua opinião?
Harada – Em relação ao Enem é extremamente confiável, é algo impessoal, feito por cálculos matemáticos, o que torna muito difícil manipular isso. Mas a redação tem discrepância entre notas que acabam gerando polêmicas, pois depende dos professores, há subjetividade. Cria-se um critério e o que é ótimo para um, pode ser muito ruim para outro. Não tem muito como fugir. Agora, o MEC adotou a política de os alunos terem acesso às redações e, com certeza, candidatos participantes vão questionar.
NET Educação – O que está em jogo na avaliação do Enem? Decoreba, atualidades, raciocínio?
Harada – O Enem foi concebido de maneira diferente. De 1998 a 2008 contava mais as habilidades, se o aluno entendia um sistema numérico, se conseguia interpretar um texto, tirar dados de um gráfico e tabela, por isso era considerado uma prova básica e simples. A partir de 2010, passou a cruzar com o conteúdo da escola. Tenta usar a mesma habilidade para diferentes matérias: química, biologia e matemática. A parte do decoreba tem ganhado mais importância.
Primeiro, o aluno tem que aprender a ler, interpretar o texto. Também, deve saber sobre atualidade, além de gastar muito do seu tempo em matemática básica, que é aquela que aprendemos até o 9º ano do ensino fundamental. Gramática não cai mais, bem como ensinos avançados dos 2º e 3º anos do ensino médio tendem a não cair.
NET Educação – Uma boa redação supera a importância das questões?
Harada – Isso depende muito, porque como falei, o candidato recebe cinco notas. E se o processo é feito pelo Sisu [Sistema de Seleção Unificada], apenas vemos a média. Dependendo da faculdade, pode dar peso maior para prova de matemática e física. Se for de humanas, pode dar nota maior para linguagem. Agora, a redação é importante, por quê? Se for conversar com alunos de escolas boas, todos eles acham a prova do Enem fácil, porque as escolas deles trabalham muito as habilidades. Assim, o grande diferencial pode ser a redação.
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