O tema educação ambiental leva Nídia Nacib Pontuschka de encontro à década de 60, época em que cursava Geografia na USP. A educadora relembra como os trabalhos de campo que integravam o currículo do curso contribuíram para suas primeiras percepções sobre o meio ambiente. “Embora as questões do meio fossem tratadas sob uma ótica muito mais geográfica do que ambiental, era impossível não se ater a questões que já saltavam aos olhos, como solos degradados, rios entulhados e poluição”.

Segundo Nídia, no entanto, as questões ambientais passaram a ganhar foco somente a partir das décadas de 70 e 80 com o surgimento de grupos de ambientalistas e ONGs direcionadas à causa; e obtiveram espaço ainda maior nos anos 90 com a menção dos problemas ambientais pela mídia – condição determinante, na visão da educadora, para que o tema adentrasse o mundo escolar. “Com isso, jovens e crianças começaram a criar questionamentos sobre o tema e levá-los para dentro da sala de aula”.

Embora o novo cenário tenha despertado uma conscientização mais aguçada para com o tema, as escolas, muitas vezes, ainda demonstram abordagens incipientes, como explica Nídia. “Vemos em disciplinas como biologia, ciências e geografia explanações sobre desmatamento, poluição, mas ainda de maneira isolada”.

Em entrevista ao NET Educação, a educadora reforça: “queiram ou não as escolas têm que abordar o tema educação ambiental com profundidade e pluralidade entre as diversas áreas de conhecimento.”

NET Educação – Como o conceito de Educação Ambiental chegou à esfera da Educação?
A partir da década de 70, as questões ambientais começaram a ganhar foco devido à gravidade do que vinha acontecendo; pela Europa e Estados Unidos, por exemplo, grupos contestavam contra problemas de naturezas ambientais, como o vazamento de urânio. No Brasil, a questão ganhou espaço aos poucos, sobretudo na década de 80, com o surgimento de grupos de ambientalistas e ONGs direcionadas à causa. Nessa época, já se viam manifestações de alguns temas no currículo escolar, mas ainda de maneira isolada. Por mais que as escolas contemplassem temas como desmatamento e poluição, as abordagens eram incipientes se comparadas ao desdobramento das questões ambientais. A partir dos anos 90, no entanto, o tema ganha mais destaque na mídia e, com isso, temos uma porta de entrada no universo escolar. É que crianças e jovens passam a trazer questionamentos para dentro da sala de aula com mais frequência e, ainda que de maneira informal, tal postura passou a exigir dos professores e também das instituições escolares uma aproximação maior com as questões ambientais.

NET Educação – De que maneira a abordagem sobre educação ambiental pode se articular ao currículo formal escolar?
Em primeiro lugar, torna-se importante destacar que o ambiente como um todo ou os estudos ambientais localizados só podem ser compreendidos em profundidade, se houver, por parte dos estudiosos – sejam eles professores do ensino fundamental, médio ou superior – uma atitude interdisciplinar diante dos problemas. A interdisciplinaridade deve ser um princípio básico comungado por todos aqueles que se propõem a conhecer um objeto. Para tanto, isso exige que cada professor coloque à disposição do ensino o que as disciplinas podem oferecer – individualmente – em termos de conhecimento, socializando os métodos de abordagens desenvolvidos em cada área específica.  Em segundo lugar, é preciso que haja consciência por parte dos educadores  que qualquer movimento sobre a superfície terrestre, seja humano ou não, tem repercussões em diferentes intensidades, e não apenas no local em que o problema é constatado; e que os homens, assim como todos os demais seres vivos, são parte integrante do ambiente. Portanto, se um dos elementos sofre alteração, todos os demais são desarticulados. Por exemplo, um derramamento de óleo no mar, afeta não só os seres humanos, como a fauna e a flora, ou seja, é um fato de grande impacto sobre a vida na Terra; se você constrói uma casa, interfere ao impermeabilizar o solo; imaginemos ainda o quanto se gasta de recursos na construção de torres de apartamentos, tão comuns nas grandes capitais e nas cidades médias.

Todas essas discussões podem acontecer em meio aos conteúdos estabelecidos nos Parâmetros Curriculares Nacionais, desde que em abordagens transversais, onde cada professor problematize as situações e os alunos façam as articulações necessárias. Outra sugestão é promover a interlocução dos professores acerca de um tema vivenciado pela própria comunidade escolar de maneira que se construa uma pesquisa e métodos de ensino de maneira integrada.

A escolha do objeto de discussão, sua problematização, a busca de informações, a sistematização e a produção cultural do aluno (texto, painel, vídeo, ensaio fotográfico…)  contribuem para o aumento da consciência e para a tentativa de buscar soluções, seja para a escola, seja para outras instituições ou mesmo para a cidade em que se localiza a escola.

Todas as disciplinas escolares, sem exceção, podem oferecer seus saberes para o aumento da consciência de manter a vida em nosso Planeta.

NET Educação – Como formar professores para trabalhar com educação ambiental?
A melhor formação que se pode dar ao professor é na própria escola. Nas instituições escolares temos pessoas formadas em todas as disciplinas, o que significa um acúmulo de conhecimento muito grande. No entanto, falta a socialização de tais conhecimentos entre os professores. As escolas têm potencial para desenvolver abordagens interdisciplinares, o que falta é coordenação para que cada docente saiba, por exemplo, como contribuir com os demais a partir de sua expertise.

NET Educação – Como você avalia o posicionamento escolar em relação à conscientização individual dos alunos para a questão ambiental? Assuntos como redução, reutilização e reciclagem fazem parte das abordagens escolares?
Os Três Erres tem sido amplamente divulgados pelos livros didáticos, por cartilhas distribuídas pelas instituições e projetos preocupados com o Ambiente. Seria problemático avaliar as escolas segundo esse enfoque em decorrência da ausência de pesquisa abrangente com esse foco. No entanto, não basta apresentar os Três Erres, a escola precisa vivenciá-los dentro de seus muros. O contato com os pais é importante para que, em casa, pais e filhos se conscientizem da necessidade de reduzir o consumo, de reutilizar mais de uma vez os materiais, entregando-os aos catadores “de porta a porta” que realizam boa separação e os encaminham para uma reciclagem qualificada. Há várias técnicas para permitir a reflexão sobre os Três Erres na escola e que constitui ponto de partida para que os alunos levem essas práticas vivenciadas para casa. A interlocução entre a escola e a comunidade de pais é essencial no processo educativo e, neste caso, urgente para que o comportamento e as atitudes sejam conscientes e integrem o cotidiano de cada um.

NET Educação – Qual (is) a(s) metodologia(s) mais interessante (s) para se trabalhar a educação ambiental?
Primeiramente, é preciso conversar com os alunos a respeito. Os alunos do Ensino Fundamental I, por exemplo, ouvem muito os professores; então vejo uma ótima oportunidade para que se trabalhem as ações individuais: a importância de fechar uma torneira, de apagar uma luz etc. A partir do Ensino Fundamental II, os alunos já possuem maior capacidade cognitiva, condição que os permite não só uma mudança de comportamento, como estabelecer relação entre as atitudes individuais (microestruturais) com as de natureza mais complexas (macroestruturais). Não basta falar de valores e sim de vida, pois essas atitudes estão no cotidiano das pessoas. Justamente por isso não sou a favor de disciplinas isoladas; a abordagem não tem que ser feita só pela matéria de ciências ou de geografia. É preciso criar projetos socioambientais a partir de uma conjunção de forças. Quando isso é feito, a escola passa a ter maior valor agregado na formação, pois deixa de apenas reproduzir o que está nos livros e passa a envolver a comunidade escolar no processo de aprendizado.

NET Educação – Na sua opinião, a sensibilização para a questão ambiental deve extrapolar os muros da escola? Como isso deve ser feito?
 Tem que extrapolar sim. Muitas escolas acabam se posicionando de maneira opressora em relação a esses momentos por ficarem presas a um currículo escolar que tem de ser seguido. No entanto, peguemos como exemplo a questão do lixo. Será que as pessoas sabem o que ocorre com ele depois que é coletado nas residências?

É preciso aproximar tais questões dos alunos. Conheci escolas em Guarulhos que chegaram a convidar catadores de recicláveis para conversar com as turmas. Essa é uma atitude que estimula o processo de educação, uma vez que os alunos podem aprender em contato com a prática. Porém, embora tais práticas já apareçam em algumas escolas, sabemos que estamos em meio a um processo lento, que requer a mudança de valores de gestores, coordenadores e demais responsáveis pelas instituições escolares. As escolas têm que lutar para que os alunos não se tornem pessimistas diante à causa do meio ambiente.

 

NET Educação – Para liderar as atividades de sensibilização, os professores precisam contar com alguma formação específica?
Eu conheço alguns projetos de formação desenvolvidos por universidades. A questão é que não temos como garantir de que o que foi estudado alcance as escolas efetivamente. Por isso, sou a favor dos trabalhos no interior das instituições escolares e, de preferência, apoiados por políticas públicas.

 

LEITURAS COMPLEMENTARES:

BAEDER, A.M. Educação Ambiental e Mobilização Social: Formação de Catadores na Grande São Paulo. São Paulo: 2009. 238 p. Tese (Doutorado em Educação) . Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo.

BIGOTTO, A.C. Educação Ambiental e o desenvolvimento de atividades de ensino na escola pública. São Paulo: 2008. 132 p.. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo.

GOETTEMS, A.A. Problemas Ambientais Urbanos: desafios e possibilidades para a escola pública. São Paulo: 2006. 160 p. Mestrado (Geografia Humana) Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

LUTFI, E. Rua e Escola: compassos. In: PONTUSCHKA,N.N. (Org.) Ousadia no Diálogo: Interdisciplinaridade na Escola Pública. São Paulo: Loyola, 2001. p. 143- 185

PEREIRA, R.I. O sentido da paisagem e a paisagem consentida: projetos participativos na produção do espaço livre público. São Paulo: 2006. 203 p.Doutorado (Paisagem e Ambiente) Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.

PONTUSCHKA, N.N. A Formação Pedagógica do Professor de Geografia e as Práticas Interdisciplinares. São Paulo: 1994. 280 p. Doutorado (Educação) Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo.

______; (Org.) PAGANELLI, T. I. CACETE, N.H. Para Ensinar e Aprender Geografia. 3ed. São Paulo: Cortez, 2009.

Sobre o autor:
Mestre em Geografia e Doutora em Educação, atua principalmente nas áreas temáticas de Geografia, Formação do Professor, Estudo do Meio, História da Disciplina Geografia e Educação Ambiental.

Veja mais

6 links para levar o tema do genocídio indígena para a sala de aula

Talvez Você Também Goste

Notícias

Como ensinar história por meio da Copa do Mundo: 5 fontes essenciais

Registros do torneio de futebol ajudam a analisar contextos políticos, sociais e culturais dentro e fora do Brasil

há 3 dias
Notícias

Copa do Mundo na escola: 3 livros para trabalhar o tema com os alunos

Obras trazem fatos históricos, curiosidades e análises sociais ligadas ao maior torneio de futebol do planeta

há 5 dias
Notícias

Como identificar e prevenir a violência infantil: 5 leituras para professores

Publicações combinam base teórica, orientações práticas e experiências aplicadas com sucesso no país

há 1 mês
Notícias

A escola e o combate à violência contra a mulher: 6 recursos pedagógicos

Alinhada à LDB, lista inclui sequências didáticas, atividades e vídeos para trabalhar o tema com estudantes

há 2 meses

Receba NossasNovidades

Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Receba NossasNovidades

Assine gratuitamente a nossa newsletter e receba todas as novidades sobre os projetos e ações do Instituto Claro.