A caminhada do privilégio (privilege walk) é uma atividade que convida os participantes a se deslocarem com base em diferentes situações relacionadas às suas experiências de vida. Dispostos lado a lado em uma mesma linha, eles avançam ou recuam conforme se enquadram em cada uma das afirmações apresentadas, criando, ao longo da dinâmica, posições distintas entre os participantes. A proposta permite visualizar como fatores como raça e etnia, condição socioeconômica, gênero, orientação sexual e deficiência podem influenciar as oportunidades e as condições vivenciadas por cada pessoa.

Na educação básica, a atividade pode ser proposta nas aulas de sociologia ou educação física visando a uma formação cidadã, como aponta a cientista social e professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ) Adriana Ribeiro de Macedo.

Ela integrou um grupo de professores que realizou a atividade com alunos do segundo ano do ensino médio convencional e técnico.

“Privilégios são circunstâncias da vida que acabam colocando uma pessoa em posição de vantagem em relação a outras. A caminhada do privilégio foi uma estratégia de aproximação ao debate da desigualdade social na escola. Foram investigadas a autopercepção da posição social dos estudantes e a atividade como forma de tratar de desigualdade social e dialogar com teorias do reconhecimento, incluindo questões relacionadas às identidades”, pontua.

Vivência concreta

Na primeira etapa, os participantes indicaram, em uma régua de 10 cm, a posição que ocupariam em uma atividade de comparação de trajetórias de vida, considerando o acesso a bens, serviços e direitos. Também responderam à Escala de Comparação Social (ECS), que avalia a percepção da própria posição social por meio de 11 pares de características, classificadas em uma escala de 1 a 10, do polo mais desfavorável ao mais favorável.

A segunda etapa foi a realização da caminhada. Em uma das atividades, os professores retiraram o nome “privilégio” e pediram que os próprios alunos nomeassem a caminhada.

Segundo ela, os alunos que ficaram na frente perceberam que eram mais respeitados enquanto seres humanos e tinham algumas de suas necessidades básicas e de seus direitos garantidos. “Porém, não entenderam isso como um privilégio, mas como algo que todos devem ter: a dignidade humana básica respeitada”, justifica.

Na hora das questões, que foram lidas e projetadas, os professores optaram por perguntas mais amplas, por exemplo, relacionadas à segurança.

“Por exemplo, perguntamos: ‘Você se sente seguro quando caminha na rua, perto de um agente de segurança, né?’. Isso porque as questões de gênero, orientação sexual, raça e outras iriam aparecer relacionadas a esta maior”, descreve.

Ao final da atividade, foi realizada uma roda de conversa em que a pergunta central foi: “O que você pensou, sentiu ou percebeu enquanto realizava a caminhada?”.

“Um dos elementos sempre destacados pelos estudantes é a magnitude. Eles sabiam que existia desigualdade, mas não achavam que ela era tão grande. A diferença de posicionamento dos corpos no ambiente surpreende”, compartilha a professora.

“Um segundo ponto é que a experiência com o próprio corpo dá concretude e reforça o aprendizado, materializando coisas que eles ouvem e debatem de maneira abstrata e nunca pessoal. Uma aluna falou: ‘A gente estuda racismo com estatística, e com a atividade entendi que não é sobre os outros, é sobre mim’”.

Como fazer?

Peça aos participantes que se posicionem lado a lado, formando uma linha central, e deem as mãos aos colegas que estiverem ao lado. Explique que eles deverão manter as mãos dadas durante a atividade, sempre que possível, mas poderão soltá-las caso não consigam mais manter o contato.

Em seguida, apresente uma série de afirmações sobre diferentes condições, experiências e realidades sociais. Oriente os participantes a observar cada afirmação e verificar se ela corresponde à própria trajetória de vida.

Quando a afirmação corresponder à sua experiência, o participante deverá seguir o comando indicado: dar um passo para frente ou um passo para trás. Quando a afirmação não corresponder à sua realidade, deverá permanecer no mesmo lugar, sem se movimentar.

Perguntas:

  1. Se seus pais trabalharam à noite, nos finais de semana ou em dois empregos para sustentar a família, dê um passo para trás.
  2. Se você consegue andar pelo mundo sem sentir medo de assédio sexual, dê um passo para a frente.
  3. Se você consegue demonstrar afeto pelo seu companheiro ou companheira em público sem sentir medo de ridicularização ou violência, dê um passo para a frente.
  4. Se você tem sua liberdade de ir e vir ou de trabalhar restringida por ter alguma doença ou deficiência mental ou física, dê um passo para trás.
  5. Se você veio de um ambiente familiar que apoiava suas escolhas, dê um passo para a frente.
  6. Se você alguma vez já teve que mudar seu sotaque, seu gestual, seu modo de falar ou de se mover para ganhar credibilidade, dê um passo para trás.
  7. Se você já teve vergonha das suas roupas ou da sua casa enquanto crescia, dê um passo para trás.
  8. Se você pode cometer erros sem que ninguém atribua seu comportamento ao seu gênero ou à sua raça, dê um passo para a frente.
  9. Se você pode se casar legalmente com a pessoa que ama, dê um passo para a frente.
  10. Se você percebe que teve acesso adequado a alimentos saudáveis enquanto crescia, dê um passo para a frente.
  11. Se você já achou que seria contratado em um trabalho graças às suas habilidades e qualificações, dê um passo para a frente.
  12. Se você nunca pensaria duas vezes antes de chamar a polícia quando algum problema acontecesse, dê um passo para a frente.
  13. Se você pode consultar um médico sempre que precisa, dê um passo para a frente.
  14. Se você alguma vez já foi a única pessoa do seu gênero, raça, status social ou orientação sexual em uma sala de aula ou em um local de trabalho, dê um passo para trás.
  15. Se você precisou de uma bolsa para custear seus estudos, dê um passo para trás.
  16. Se você teve que trabalhar durante os anos de estudo, dê um passo para trás.
  17. Se você se sente confortável andando sozinho até sua casa, dê um passo para a frente.
  18. Se você alguma vez já viajou para fora do país, dê um passo para a frente.
  19. Se você já se sentiu depreciado ao ver seu grupo racial, sua orientação sexual, seu gênero, sua religião ou sua deficiência ser representado de maneira inadequada na mídia, dê um passo para trás.
  20. Se você tinha confiança de que seus pais poderiam lhe dar apoio financeiro caso passasse por dificuldades, dê um passo para a frente.
  21. Se você já sofreu bullying ou foi alvo de alguma piada baseada em algo que não podia mudar, dê um passo para trás.
  22. Se você tinha mais de 50 livros na casa onde cresceu, dê um passo para a frente.
  23. Se você estudou a cultura ou a história dos seus ancestrais na escola fundamental, dê um passo para a frente.
  24. Se seus pais ou responsáveis frequentaram a faculdade, dê um passo para a frente.
  25. Se você já fez uma viagem em família, dê um passo para a frente.
  26. Se você pode comprar roupas novas ou ir a um jantar quando quiser, dê um passo para a frente.
  27. Se você já conseguiu um emprego por ser amigo ou familiar de alguém, dê um passo para a frente.
  28. Se algum dos seus pais já esteve desempregado, não por opção, dê um passo para trás.
  29. Se você já se sentiu desconfortável com uma piada, palavra ou frase relacionada à sua raça, gênero, aparência, religião ou orientação sexual, mas se sentiu inseguro para confrontar a situação, dê um passo para trás.
  30. Se você teve acesso a um ensino de boa qualidade durante toda a infância e adolescência, dê um passo para a frente.
  31. Se onde você cresceu havia teatros e museus próximos à sua residência, dê um passo para a frente.
  32. Se você nunca foi ao cinema, dê um passo para trás.
  33. Se você nunca frequentou teatros ou museus, dê um passo para trás.
  34. Se você morou em um local onde o transporte público dificultava seu acesso aos lugares que desejava frequentar, dê um passo para trás.
  35. Se você pode andar com a roupa que escolher sem ser importunado, dê um passo para a frente.
  36. Se você já foi responsabilizado por ter sofrido algum ato de violência, dê um passo para trás.
  37. Se você já se sentiu inseguro dentro da sua própria casa, dê um passo para trás.
  38. Se você ficou sem comer ou sem ir à escola por falta de dinheiro, dê um passo para trás.
  39. Se na sua casa havia uma pessoa contratada para cuidar das tarefas domésticas, dê um passo para a frente.
  40. Se você já se viu obrigado a abandonar os estudos, dê um passo para trás.
  41. Se você nunca sentiu desconforto ao falar sobre o que pensa, sua crença, seu gênero, sua raça, sua orientação sexual ou sua condição social, dê um passo para a frente.
  42. Se você já foi submetido a tortura ou a algum tratamento desumano ou degradante, dê um passo para trás.
  43. Se você já se sentiu constrangido por ter sua intimidade exposta, dê um passo para trás.
  44. Se você já teve medo de perder sua casa, dê um passo para trás.
  45. Se você já teve um cômodo da casa só para você, dê um passo para a frente.
  46. Quando você era criança, se seus pais ou responsáveis deixaram você sozinho em casa, sem a supervisão de um adulto, por necessidade, dê um passo para trás.
  47. Se as pessoas já se afastaram de você por medo ou se você já foi seguido por seguranças particulares em estabelecimentos comerciais, dê um passo para trás.
  48. Se seu pai participou ativamente da sua criação, dê um passo para a frente.
  49. Se você já sofreu com o abuso de álcool ou de outras drogas em sua família, dê um passo para trás.
  50. Se você teve uma infância segura e confortável, dê um passo para a frente.

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Violência contra a mulher: como trabalhar o tema em sociologia

Confira 13 dicas para um ensino de sociologia decolonial

Crédito da imagem: A-Digit – Getty Images

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