O Transtorno do Processamento Auditivo Central (TPAC) é uma condição em que a criança ouve os sons, mas tem dificuldade para o cérebro interpretar o que está ouvindo.

Ou seja, o problema não está necessariamente na capacidade de ouvir, mas no processamento das informações sonoras pelo sistema nervoso central.

“O processamento auditivo central é justamente esse conjunto de habilidades que usamos para interpretar as informações que chegam pela audição. É ele que nos permite, por exemplo, localizar de onde vem um som, diferenciar sons parecidos ou compreender alguém falando mesmo quando há outras pessoas conversando ao redor”, explica a presidente da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia, Ingrid Gielow.

“Hã?”

Docente de língua portuguesa, Magnólia Rego explica que os sinais podem ser percebidos na rotina de sala de aula. “Por exemplo, quando o aluno, frequentemente, possui facilidade em compreender orientações escritas, mas não tem o mesmo desempenho diante da mesma informação dada apenas oralmente.”

“A criança geralmente pede repetição — ‘hã?’, ‘o quê?’ —, demora mais para responder, confunde sons, tem dificuldade para acompanhar instruções verbais ou apresenta desempenho muito pior quando há ruído ou várias pessoas falando ao mesmo tempo”, acrescenta Gielow.

“Ao longo do tempo, isso pode repercutir na compreensão, na leitura, na escrita, na ortografia, na aquisição de vocabulário e até na disposição da criança para participar das atividades”, complementa.

Como funciona a avaliação?

O fonoaudiólogo Francisco Roberto de Sousa explica que o diagnóstico deve ser realizado por fonoaudiólogos e médicos otorrinolaringologistas, a partir da história clínica e escolar, da avaliação audiológica, do desempenho nos testes de processamento auditivo e das dificuldades presentes no cotidiano, entre outros aspectos.

Para o professor, vale observar em quais condições a dificuldade aparece. “Perceber que o desempenho da criança muda conforme as condições de escuta — por exemplo, em ambientes silenciosos ou ruidosos — é uma informação muito útil para fornecer ao fonoaudiólogo”, lembra Gielow.

Além disso, nenhum desses sinais isoladamente permite afirmar que a criança tem TPAC, já que eles também podem aparecer em alterações de linguagem, atenção, aprendizagem ou em outros transtornos do neurodesenvolvimento.

“A identificação deve ser baseada na observação sistemática, e não em um único comportamento”, orienta o fonoaudiólogo Isaias Neri.

Gielow ainda lembra que a avaliação diagnóstica do processamento auditivo central é recomendada a partir dos sete anos, quando há maturidade e condições linguísticas, cognitivas e atencionais suficientes para a realização das tarefas.

“Em crianças menores, é possível avaliar audição, linguagem e desenvolvimento das habilidades auditivas, realizar alguns testes e, quando necessário, já iniciar intervenções voltadas às dificuldades identificadas.”

Tratando o problema

Segundo Gielow, uma vez identificado o TPAC, o tratamento fonoaudiológico se concentra em três frentes: melhorar as habilidades auditivas, orientar ajustes para aprimorar o ambiente de escuta e ensinar estratégias para que a própria criança consiga lidar melhor com suas dificuldades.

“Uma parte importante é o treinamento auditivo, que pode ser realizado de diferentes formas, inclusive em cabine acústica ou com o apoio de softwares e plataformas desenvolvidos para esse fim. São atividades planejadas para estimular determinadas habilidades e tornar o processamento da informação auditiva mais eficiente. Isso é possível graças à capacidade do nosso sistema nervoso de se modificar em resposta à estimulação e à experiência — a chamada plasticidade cerebral”, destaca a fonoaudióloga.

“É preciso, ainda, modificar situações do cotidiano que dificultam desnecessariamente a escuta”, acrescenta.

Ações na escola

O professor também pode ajudar a criança a compreender as próprias dificuldades e a desenvolver autonomia: perceber quando não entendeu, pedir esclarecimento, buscar pistas visuais, aproximar-se de quem está falando e aprender a identificar quais condições facilitam sua escuta.

“Em sala de aula, a comunicação deve ser a primeira prioridade. As práticas de oralidade necessariamente precisam ser claras, e as informações, repassadas de forma gradual e organizada”, lista Rego.

Entre as possíveis ações na escola, Gielow indica:

  • Reduzir o ruído sempre que possível;
  • Posicionar o estudante em um local que favoreça a escuta e a visualização do professor;
  • Obter sua atenção antes de transmitir uma informação importante;
  • Dividir instruções longas em etapas;
  • Associar informações orais a recursos escritos e visuais;
  • Apresentar previamente palavras ou conceitos novos;
  • Verificar se a criança realmente compreendeu a informação. “Em vez de perguntar apenas ‘entendeu?’, é útil solicitar que o estudante explique com suas próprias palavras o que deverá fazer”, recomenda Neri;
  • “Se a criança não compreendeu uma frase, às vezes é muito mais eficiente reformulá-la, usando outras palavras, acrescentando contexto ou uma pista visual, do que simplesmente dizer exatamente a mesma coisa mais alto ou várias vezes”, recomenda a fonoaudióloga.
  • Evitar colocar rótulos nos alunos. “Uma criança que demora a responder, pede repetição ou parece desatenta pode estar fazendo um esforço enorme para compreender uma informação auditiva que, para os colegas, chega com facilidade. Antes de interpretar esse comportamento como falta de interesse ou de atenção, vale observar quando e em quais condições ele acontece”, finaliza.

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Crédito da imagem: Sadeugra – Getty Images

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