A escola tem um papel importante na prevenção ao suicídio de seus alunos, uma vez que é um local onde eles permanecem muitas horas na semana.
“A ideação suicida — quando a pessoa imagina ou considera tirar a própria vida — é o primeiro passo do comportamento suicida e pode ser passageira ou frequente”, afirma a doutora em Educação e pós-doutora em Psicologia Milena Aragão.
“Todos os funcionário da escola podem perceber mudanças de comportamento – como isolamento e queda de rendimento – e verbalizações de sentimentos de inutilidade, quando o aluno não consegue imaginar um futuro possível para si”, explica.
Aragão é membro do Projeto MAR (Manejar, Aprender e Reavaliar), desenvolvido pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) para preparar professores da rede estadual de ensino médio a identificar e lidar com questões de saúde mental entre adolescentes. A iniciativa também disponibiliza gratuitamente, na internet, materiais sobre depressão, ansiedade, comportamento suicida e autolesão voltados a educadores e estudantes.
O papel do professor
Segundo a psicóloga, é importante que os professores desconstruam mitos sobre o comportamento suicida.
“Ele não tem uma única causa e é multifatorial, podendo envolver sofrimento psicológico, conflitos familiares, violência, bullying, perdas e luto, transtornos mentais, uso de substâncias e experiências traumáticas. Nenhum desses fatores, isoladamente, permite prever sua ocorrência”, diz Aragão.
Deve-se falar sobre suicídio, mas com responsabilidade e acolhimento. “É possível perguntar de forma acolhedora se o jovem pensa em tirar a própria vida, visando abrir um canal de escuta e comunicação˜.
A prevenção deve ocorrer ao longo de todo o ano, com ações voltadas à educação socioemocional, relacionamentos, bullying, pertencimento e espaços de escuta sem julgamento. “Também é necessário formar toda a equipe escolar, articular a escola com as redes de saúde e estabelecer protocolos claros para situações de risco”, diz.
Professores e equipe escolar não precisam — e não devem — diagnosticar os alunos. “Eles devem ser formados para reconhecer o sofrimento e conversar de maneira segura. É escutar, acolher, comunicar e encaminhar. O professor não tem papel de psicólogo, não vai diagnosticar nem fazer psicoterapia”.
Como criar um protocolo escolar?
“Esse documento deve especificar quem vai receber a informação; quem vai conversar com o estudante e como fazê-lo; quem vai acionar a família, os serviços de saúde e o Conselho Tutelar; como proceder diante de um risco imediato; como registrar, preservar o sigilo e acompanhar o estudante. Deve apontar o papel de cada um — professores, equipe de apoio, gestão —, evitando ações improvisadas”, aponta a psicóloga.
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) determina, ainda, que as escolas notifiquem obrigatoriamente ao Conselho Tutelar casos de violência autoprovocada, como autolesão, tentativa ou suicídio consumado. “A ideação suicida, por sua vez, não é classificada como violência autoprovocada, mas exige acolhimento”.
Para prevenir o problema, vale oferecer experiências escolares que diminuam o isolamento e programas que abordem a educação socioemocional. “A gente não precisa fazer uma palestra sobre ‘comportamento suicida’, mas falar sobre os fatores de proteção”, assinala a psicóloga.
Fatores a serem observados:
- Verbalizações como “eu queria desaparecer”, “não aguento mais”, “não queria mais acordar”, “minha família ficaria melhor sem mim”, “não tenho ninguém”, “ninguém me entende”, entre outros.
- Se há autolesão. “Ela não quer dizer que o aluno vai tirar a própria vida, mas comunica que algo não vai bem”, diferencia Aragão.
- Fatores de risco, como situações de violência física, psicológica ou sexual; negligência e violência doméstica; bullying e cyberbullying; luto e perdas, como a separação dos pais; mudança de cidade; rompimento amoroso ou perda de uma amizade; além de situações de discriminação e exclusão, como racismo, LGBTfobia e misoginia. “Lembrando que fator de risco não é a causa. A causa é sempre multifatorial”, lembra Aragão.
Como abordar o aluno:
- Escolha um lugar reservado: a conversa não deve ter tom de interrogatório ou acusação. Evite críticas, julgamentos ou minimizar a experiência do jovem. O principal é ouvir seus sentimentos e oferecer espaço para que ele fale.
- Comece pela mudança percebida: “Eu percebi que você tem ficado mais quieto e isolado ultimamente, suas notas mudaram e você parece diferente. Está acontecendo alguma coisa? Eu estou aqui para te ajudar.”
- Aborde o tema diretamente: após o adolescente falar, o professor pode dizer: “Eu me preocupo com você estar com o desejo de tirar a própria vida.”
- Agradeça a confiança e lembre o aluno de que ele não está sozinho. “Você não precisa enfrentar isso sozinho. Nós vamos procurar ajuda juntos.”
- Ajude o aluno a construir, junto com sua rede de apoio, o seu plano de segurança. Ele deve conter: como reconhecer sinais de alerta, identificar estratégias e atividades que aliviem o sofrimento e listar pessoas de confiança a quem possa pedir ajuda sem ser julgado ou silenciado, oferecendo os respectivos contatos.
O que evitar na conversa:
- Não ridicularizar, repreender, ameaçar ou expor o estudante diante da turma.
- Não fazer fofoca nem tentar resolver a situação sozinho.
- Não estabelecer um vínculo exclusivo com o adolescente.
- Não minimizar o sofrimento com frases como “isso é só uma fase”, “você tem que ser forte” ou “tem gente passando por coisas muito piores”.
- Não atribuir o sofrimento à falta de fé ou usar a culpa, como: “Imagine como sua mãe vai se sentir se você for embora”.
- Não exigir que o estudante prometa que não vai tirar a própria vida. “Não existe um pacto de não suicídio”, alerta Aragão.
- Evite o termo “cometer suicídio”. “Remete a crime, reforçando o estigma. Prefere-se uma linguagem que reduza a vergonha e a culpabilização, como ‘morreu por suicídio’, ‘tentativa de suicídio’, ‘ideação suicida’ ou ‘pensamento suicida’”, lista a psicóloga.
Como comunicar os responsáveis:
- “A comunicação deve ser empática e acolhedora, sem culpabilizar, julgar ou criticar a família, que também pode estar sofrendo e sem saber como agir”, ressalta Aragão.
- Esteja preparado para diferentes situações, como a presença apenas da mãe, do pai, da avó ou de outros responsáveis.
- Comece destacando aspectos positivos do adolescente, suas potencialidades e aquilo que ele faz de melhor.
- “Em seguida, explique as mudanças percebidas no comportamento e informe que o estudante relatou pensamentos relacionados à morte. Diga: ‘por segurança, é importante levar essa informação para vocês, para que nós possamos, juntos, pensar em caminhos’”, ensina a psicóloga.
- Evite falas que culpabilizem a família, como “seu filho está tentando chamar atenção”, “você precisa controlar melhor seu filho” ou “o que está acontecendo na sua casa?”.
- Faça perguntas abertas e demonstre disposição para ouvir: “Algo está acontecendo na vida dele?”; “Como ele é em casa?”, “Aconteceu alguma coisa recentemente?”.
- O encaminhamento da família para serviços de apoio também é importante, pois a rede pode ajudar não apenas o adolescente, mas a família como um todo.
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