Ansiedade é uma reação emocional de preocupação, medo ou tensão diante de situações que podem ser reais ou imaginadas. Muita gente não sabe, mas ela também atinge crianças e jovens e está bastante presente na escola.
“A ansiedade não é fraqueza ou frescura, mas uma reação natural do corpo. É a antecipação de uma preocupação futura, uma sensação de alerta que todo mundo sente antes de um momento de pressão, como uma prova ou apresentação de trabalho. O problema é quando esse alarme não desliga”, descreve a doutora em educação e pós-doutora em psicologia Milena Aragão.
“Então, é importante para o professor entender que esse alarme vem com sintomas físicos: coração disparado, suor, tensão, pensamentos acelerados e muito medo de errar”, aponta.
Aragão é uma das integrantes do Projeto MAR (Manejar, Aprender e Reavaliar), iniciativa da Universidade Federal do Sergipe (UFS) que capacita professores do ensino médio da rede estadual para o manejo de quatro demandas de saúde mental entre adolescentes: depressão, autolesão, comportamento suicida e ansiedade.
“Deu branco”
Segundo Aragão, a ansiedade é um dos problemas de saúde mental mais comuns entre os adolescentes, e os professores percebem isso.
“Nos grupos, os docentes trazem muitos relatos de estudantes que sofrem com ansiedade, que não conseguem realizar provas e que precisam sair da sala de aula. Sabem que a escola é um lugar por excelência para esses sinais de alerta aparecerem”, afirma.
Para os docentes, o desafio é reconhecer quando a preocupação é passageira e quando efetivamente se instaurou um sofrimento que atrapalha o dia a dia dos alunos.
“Para entender como o aluno vive a ansiedade, o professor pode perceber como ela se manifesta nele. Esse aluno pode reclamar de dor, ter tremedeira, entrar em pânico e se ver bloqueado na hora da prova: o famoso ‘deu branco’. Pode haver queda nas notas, medo de fazer uma apresentação em público, adoecer no dia…”, exemplifica
Manejando a ansiedade
Quando o professor identifica que o aluno sofre de ansiedade, a primeira coisa que pode fazer é ouvi-lo. “Leve o estudante para um local reservado, não na frente de todo mundo, e lembre-o de que você ali por ele, para ouvi-lo. É necessária uma escuta ativa, sem critica ou julgamento, e validar os sentimentos que ele trouxer, como: ‘Eu entendo que você está se sentindo pressionado’”, diz Aragão.
“O problema é que, culturalmente, aprendemos que ajudar é fazer algo concreto. Mas, se eu não posso resolver o problema, eu me sinto impotente. Porém, podemos ser potentes dentro do possível, que, muitas vezes, é apenas ouvir”, orienta.
Segundo a pesquisadora, vale também trabalhar técnicas de respiração e mindfulness. “Pode-se trabalhar uma respiração simples: inspirar, segurar o ar e expirar”, ensina a psicóloga.
Caso o professor perceba que o quadro está recorrente, é hora de encaminhar o caso para a direção e chamar a família.
“O professor pode ajudar a identificar os sintomas, a nomeá-los com o aluno e realizar o encaminhamento. Ele não é psicólogo, logo, não vai diagnosticar ou receitar remédio, chá, floral etc. Saber disso tira um peso do profissional”, destaca.
“Como orientações gerais, deve-se preservar o sigilo do aluno e nunca minimizar o sofrimento que ele relata”, enfatiza.
Para completar, a psicóloga lembra que a própria ação do docente no dia a dia escolar pode causar sofrimento.
“O professor cansado e irritado causa no estudante medo e outras sensações que, na realidade, são ansiedade. Então, professor esgotado, cansado, com menos paciência e empatia influencia na ansiedade dos estudantes”, descreve.
Dinâmica entre pares
A formação do Projeto Mar para manejo da ansiedade em ambiente escolar é realizada por meio de oficinas híbridas. Ainda são oferecidos gratuitamente, no site do projeto, materiais didáticos com linguagem adaptada para a comunidade escolar, como gestores, equipes de apoio e adolescentes.
“Seja com alunos ou professores, o segredo é não realizar uma capacitação sobre ansiedade em formato de palestra, mas com diálogo e presença. Os participantes precisam falar sobre o que sentem, trocar experiências, partilhar vivências e se sentir úteis no processo de colaboração entre uns e outros. As pessoas querem ser parte da solução”, diferencia a psicóloga.
Ela compartilha uma prática realizada com jovens de 16 anos, cujo início foi combinar que eles apenas escutariam os relatos dos colegas, sem opinar ou julgar.
“Eles puderam compartilhar como a ansiedade afeta a vida deles e como percebem a ansiedade chegando: alguns relataram coração acelerado; outros, tremedeira; outros, suor. Perceberam que cada um sente a ansiedade de um jeito e que é possível acolher o sofrimento de quem a vivencia de forma diferente”, ressalta Aragão.
“Na sequência, compartilharam ações que cada um fazia e que ajudavam a reduzir a ansiedade, como caminhar, respirar e ouvir música”, finaliza a pesquisadora.
Veja mais:
Depressão em alunos: entenda como lidar com o problema
4 livros para o professor entender a ansiedade em crianças e adolescentes
Como a escola pode ajudar na prevenção do suicídio de crianças e adolescentes?
Crédito da imagem: Kobus Louw – Getty Images