Lendas urbanas são narrativas populares que circulam de forma oral ou escrita, geralmente apresentando elementos misteriosos e assustadores. Por serem histórias próximas do cotidiano dos alunos, costumam despertar o interesse no ensino fundamental e no médio.

“Possibilitam também a reflexão sobre valores, medos, comportamentos e imaginários coletivos”, explica o coordenador do projeto de Extensão “Lendas urbanas: a cultura popular em sala de aula”, da Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc), Luiz Gustavo Engroff. A iniciativa reúne pesquisadores da universidade e professores da Escola de Educação Básica Princesa Isabel, localizada em Morro da Fumaça (SC).

“Quando iniciamos as pesquisas sobre lendas urbanas, o objetivo era conhecer esse gênero textual e buscar, nas comunidades próximas à escola, histórias contadas que não possuíam registros escritos. Os alunos investigaram e entrevistaram diversos moradores da comunidade local e vizinhos da escola e encontraram lendas fantásticas como a da ‘menina que sumiu’”, lembra a professora de arte Melânia Mazzuchello sobre o projeto.

Produções em língua portuguesa

A professora de língua portuguesa Neusa de Medeiros Almeida Sartor relata que, a partir da atividade, os alunos desenvolveram habilidades de escuta, escrita, oralidade, leitura e interpretação.

“As estratégias que se mostraram mais eficazes foram as rodas de conversa, que possibilitaram o compartilhamento e a discussão das lendas; a contação de histórias, que valorizou a oralidade; e a produção coletiva de roteiros e personagens, estimulando a criatividade e o trabalho em grupo”, pontua.

Outro recurso que marcou o projeto foi a elaboração de uma ata ao final de cada aula. “Logo no início, um aluno era escolhido por meio de um sorteio com os nomes dentro de um ‘caldeirão’”, conta Sartor.

Explorando linguagens em artes

Já em artes, as turmas do projeto da Unesc criaram encenações teatrais, teatro de sombras, vídeos, histórias em quadrinhos e atividades de artes plásticas baseadas nas narrativas encontradas.  Entre elas, uma peça sobre a lenda do lobisomem, de Urussanga (SC), resgatada por um aluno.

“Nessas produções, os alunos criaram releituras criativas, adaptando, por exemplo, a figura do Boitatá a novos contextos sociais”, conta Mazzuchello.

“Além disso, fazíamos a ambientação da sala na hora da contação de histórias, o que também contribuía para criar um espaço imersivo”, acrescenta.

Cartografia de lendas urbanas

Uma visita do alunos do sétimo ano da E.E.E.F. Luciana de Abreu, de Porto Alegre (RS), a uma exposição sobre lendas urbanas da cidade no Museu Joaquim José Felizardo foi a base para uma trabalho desenvolvido nas aulas de língua portuguesa, que culminou em um mapa criado pelos alunos apontando onde as lendas urbanas apareciam no município.

“Um objetivo era fazer os alunos compreenderem o que diferencia as lendas de simples histórias ficcionais ou de fatos históricos. Em nossas contações e leituras, incentivamos os alunos a pensar nesse caráter duplo da lenda como um gênero que mistura aspectos históricos e elementos sobrenaturais e imaginários. Comumente perguntávamos: ‘O que há de ‘real’ nessa lenda? E o que foi ‘aumentado’ pela cultura popular?”, descreve a professora Marina Vanazzi, que desenvolveu a atividade junto com Natália da Pureza.

“As rodas de contação foram o ponto alto do projeto, com compartilhamento das lendas pessoais dos alunos, o que assegurou que o caráter oral das lendas não fosse perdido e nos aproximou bastante dos estudantes”, compartilha Pureza.

Além do mapa coletivo das lendas de Porto Alegre produzido pelos alunos, pontuando em que bairro da cidade cada lenda se passa, eles criaram um caderno de lendas ilustrado.

“Nele, puderam contar também as lendas da sua comunidade expandida, como as dos espaços online dos quais participam. Assim, além de lendas porto-alegrenses, o caderno contou com lendas como Slenderman (originada da internet), Teke Teke (lenda urbana japonesa), Maria Sangrenta, entre outras”, relata Vanazzi.

Potencial interdisciplinar

Além do uso pedagógico das lendas urbanas em língua portuguesa e artes, a professora de letras da Unesc Cibele Beirith Figueiredo Freitas aponta o potencial interdisciplinar da atividade. “Em geografia, podemos situar as lendas nos territórios em que circulam”, afirma.

“A disciplina de história também pode ser uma ótima aliada, pois a partir da lenda pode ser trabalhado o contexto histórico associado a ela: na discussão da lenda ‘As torres malditas’, por exemplo, os alunos trouxeram seus conhecimentos do período escravocrata brasileiro, o que enriqueceu muito o debate”, adiciona Pureza.

“Essa articulação contribui para uma aprendizagem mais significativa, conforme conecta diferentes saberes a partir de um tema comum”, conclui o mestre em educação e pesquisador da Unesc Leandro Jung.

Veja mais:

5 projetos de história oral para aplicar na escola

Como a história oral pode contribuir com a formação de professores?

Descubra 4 filmes e séries para trabalhar Halloween na escola

Crédito da imagem: iiievgeniy- Getty Images

Talvez Você Também Goste

Conheça 5 estratégias para a educação de surdos

Especialistas indicam abordagens que colocam a experiência visual no centro do aprendizado

Biografias de grandes escritores ajudam a repensar a ideia de “fracasso escolar”

Pesquisadora explica como Gabriel Garcia Márquez, Graciliano Ramos e outros podem ser inspiradores

Veja 5 filmes para ensinar colonização das Américas

A partir das obras é possível debater estereótipos raciais e invisibilização de resistências indígenas e africanas

Receba NossasNovidades

Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Receba NossasNovidades

Assine gratuitamente a nossa newsletter e receba todas as novidades sobre os projetos e ações do Instituto Claro.