A educação de surdos em contexto inclusivo, geralmente, exige uma abordagem que valorize a comunicação visual e o uso da língua de sinais. O processo tem seus desafios, como o foco no ensino oral, o número elevado de alunos por turma, a escassez de recursos tecnológicos e a formação dos educadores.
“As práticas ainda são estabelecidas a partir dos estudantes ouvintes, o que mantém alunos surdos excluídos dentro de um contexto dito inclusivo”, explica o gestor da rede municipal de Duque de Caxias (RJ) e pesquisador de educação para surdos, Paulo Assumpção.
A garantia do intérprete em sala de aula foi estabelecida pelo Decreto n° 5.626 de 2005. “No entanto, ainda ouvimos que existem salas inclusivas com surdos sem intérprete”, lembra o mestre profissional no ensino de história e pesquisador no tema Paulo Roberto Martins da Silva.
Além desses, outros marcos legais em relação à educação de surdos são a Lei n.º 10.436/2002, que reconheceu oficialmente a Língua Brasileira de Sinais (Libras); a Lei Brasileira de Inclusão (Lei n.º 13.146/2015); e a Lei n.º 14.191/2021, que alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), introduzindo a educação bilíngue para surdos como modalidade de ensino, na qual Libras é a primeira língua, e o português escrito, a segunda língua.
“Por sua vez, o Decreto 5.626/2025 tornou obrigatória a disciplina Libras nas licenciaturas e na graduação em Pedagogia”, acrescenta Silva.
Professores devem ser fluentes em Libras?
Pesquisadores divergem sobre o quanto de Libras o professor de educação básica deve saber.
Para Assumpção, o professor de classe regular não precisa ser fluente, mas saber noções básicas para mediar o aprendizado e estabelecer um vínculo de comunicação direta. “O conhecimento sobre a cultura surda e a compreensão de que a surdez é uma diferença linguística, e não uma deficiência a ser curada, são saberes fundamentais também”, opina.
Para Silva, entretanto, o professor precisaria dominar Libras. “Melhora a interação com o educando surdo, sendo um facilitador para o ensino”. Já a coordenadora da Escola Preparatória da Universidade Federal do ABC (UFABC), Claudia Regina Vieira, defende a necessidade de fluência, não apenas de conhecimentos sobre vocabulário. “Por exemplo, não adianta saber e fazer o sinal de fotossíntese se o conceito não for explicado para o aluno. O sinal, em si, não dá ao surdo a compreensão do conceito”, justifica.
Estratégias de educação para surdos
Em relação a estratégias de ensino para surdos, Silva critica o termo “adaptação” de conteúdo. “Ele parte do princípio de uma aula planejada para alunos ouvintes, devendo ser modificada em alguns aspectos para atender surdos. Defendo que a aula seja concebida considerando esses estudantes”.
Segundo Silva, a principal estratégia para o ensino em classes regulares com estudantes surdos é a chamada ‘Pedagogia Visual’. “Ou seja, utiliza a experiência visual, um dos principais marcadores culturais das pessoas surdas, como meio mobilizador da aprendizagem”, defende.
A seguir, professores e pesquisadores listam cinco estratégias que usam marcadores visuais para a educação de surdos. Confira!
1) Roteiro imagético
Proposta desenvolvida por Assumpção em sua dissertação “Ensino de história para alunos surdos em classes inclusivas: práticas e propostas”, trata de um roteiro imagético que reúne imagens organizadas em sequência para construir um “resumo visual” do conteúdo. O professor o criou de forma semelhante a uma história em quadrinhos, usando as imagens como ponto de partida da aula.
- Primeiro, os alunos descrevem o que veem (nível do visível), relacionando as imagens com conhecimentos prévios.
- Na sequência, é realizada a exposição dos fatos ou conceitos evocados pelas imagens
- Para completar, o professor instiga os alunos a respeito do que as imagens podem revelar além do visível e do legível. “Que sentimentos elas despertam? Quais são as possíveis relações que podemos estabelecer entre elas e outras imagens?”, aponta Assumpção. “Para explicar conceitos abstratos, o uso de imagens não deve ser meramente ilustrativo, mas atuar como eixo da narrativa histórica”, acrescenta.
2) Produção de vídeos bilíngues
Produção de vídeos pelo professor ou pelos próprios alunos em Libras com legendas em português a partir de um roteiro simplificado. A atividade ajuda na fixação do conteúdo e amplia o acesso à informação em formato visual.
3) Avaliação em vídeo
Avaliações realizadas em formato de vídeo, com questões apresentadas em Libras. Os alunos podem responder também em vídeo, garantindo melhor compreensão e expressão do conhecimento.
“Respeita o direito do aluno surdo de se expressar e ser avaliado em Libras, já preconizado pelo Decreto n.º 5.626/2005”, diz Assumpção.
“Não exige que eles precisem ‘traduzir’ para a língua portuguesa. É preciso, no entanto, que gradativamente eles também possam realizar parte destas avaliações utilizando a segunda, pois a própria legislação lembra que Libras não substitui o português escrito”, explica Vieira. “O que podemos entender é que as avaliações em vídeo nos mostrarão se a dificuldade do estudante surdo é no conteúdo ou na língua portuguesa escrita”, avalia a docente.
4) Linhas do tempo e frisas temporais
Uso de recursos visuais para representar a passagem do tempo, ajudando os alunos a compreenderem cronologia, duração e relações entre acontecimentos históricos. Podem ser utilizadas principalmente no ensino de história.
“Facilitam a localização temporal – habilidade de grande importância no ensino de história, por exemplo – o que pode ser um conceito abstrato de difícil compreensão por meio da mera leitura de datas”, lembra Assumpção. “É uma estratégia boa não somente para surdos, mas para ouvintes também”, reforça Vieira.
5) Análise de charges
“Funcionam muito bem sob a ótica do letramento visual, possibilitando ao aluno que faça descrições e interpretações a partir do que vê”, diz Assumpção.
“Deve-se utilizar Libras como língua de instrução. Porque, por exemplo, em charges, pode haver linguagem figurada e ou metáforas que precisam ser explicadas. Por exemplo, uma metáfora como ‘pé d’água’ não pode ser realizada apenas com a utilização de sinais, mas é preciso dizer que ela significa chuva, e isso precisa ser dito”, orienta Vieira.
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Crédito da imagem: miodrag ignjatovic – Getty Images