Mais uma viagem, tira o aluno da cadeira de rodas, coloca na Van, tira ele da Van coloca na cadeira, depois na charrete, é um enorme divertimento e uma alegria contagiante para os professores que o acompanham e para aquele menino que transborda vida em seu mundo próprio. Apesar da alegria momentânea, vejo seu rostinho assustado com os olhares curiosos, de piedade de alguns e de indiferença de outros. Triste de cabeça baixa não parece o aluno crítico e perguntador da sala de aula, que fala com dificuldade, mas sabe dos seus direitos enquanto pessoa, sempre balbuciando reivindicações e mostrando soluções, discutindo com respeito e carinho.
Começo a cantar e brincar com ele, meu coração grita por fazê-lo sentir um membro ativo do grupo. Viagem de formatura, Ensino Fundamental, Beto Carrero e agora Fazenda Park hotel, com direito a piscina, Jacuzzi, petiscos, almoço, contar piadas, passeios e muita alegria, este dia promete. Meu coração se dilacera quando me lembro de outros alunos com problemas parecidos e que tentamos de tudo para envolvê-los em atividades como viagens de estudo e de lazer, passeios e visitas em museus, deixando de lado as dificuldades, por locomovê-los. Sabíamos que não devíamos acreditar no problema e sim na solução, quando o coração falava. Utilizamos meu carro, pedimos parceria de pessoas comprometidas com o processo educacional e que traziam consigo a solidariedade humana. Saber que ensinar é mostrar a luta pela vida e de superá-la eternamente! Preconizamos o consumismo e a estética, apesar de não admitirmos somos extremamente preconceituosos. Sofri um acidente e passei um ano numa cadeira de rodas, ali conheci os olhares de nojo e de piedade das pessoas.
Senti o desprezo de seres humanos que se diziam iguais, aqueles que saiam do caminho para não esbarrar num deficiente. Senti na pele a dificuldade de sair, comprar coisas, andar pelas calçadas, ser ajudada, ser compreendida e principalmente ser amada. Contudo ganhei de presente viver um tempo maior nesta vida e ter como missão tentar e fazer o bem pelas pessoas que convivo, especialmente minha família e meus especiais alunos. Agradeço a Deus, todos os dias que me fez compreender que a vida é um presente divino, que devemos aprender com nosso próximo mais do que ensiná-los somente conhecimentos e que tudo pode ser resolvido se temos amor no coração. Agradeço por ter escolhido a profissão de Professora e por viver intensamente oito horas do dia, com crianças e jovens maravilhosos.