Unindo Pontas. Em 1992 fui trabalhar como pedagoga na Cruzada do Menor no Rio de Janeiro, na época a Instituição atendia 35 idosos e 75 crianças. Ainda não sabia lidar com as necessidades da pessoa idosa e o cotidiano fez-me perceber que havia atividades que as crianças faziam e que eu poderia utiliza-las com os idosos. Uma pessoa sem controle de saliva com exercícios de soprar canudinhos espalhando a tinta pelo papel, além de fazer sua obra de arte, exercitava os músculos do maxilar e reaprendia a controlar a saliva na boca e deixar de babar.
A colagem de papeis de diversos tamanhos levavam os idosos a conversar e a contar o que incomodava suas emoções e desta forma posicionavam-se em relação as suas dores. As crianças e idosos tinham o seu lugar específico e alguns espaços compartilhados, observando à aproximação dos idosos juntos as crianças facilitei este encontro. Em 1995 depois de muito observar a interferência natural que ocorria no espaço, procurei por profissionais que trabalhassem com idosos e crianças. Comecei com o canto coral dos idosos e aulas nas salas das crianças.
Um dia percebi que as crianças estavam cantando Noel Rosas, Braguinha, Pixinguinha entre outros e pensei: vou fazer um coral intergeracional, e assim o fiz. Depois a capoeira com idosos e crianças, os teatros, até o dia que resolvi fazer um projeto politico pedagógico onde a família também fosse contemplada, ampliaram o cardápio levando artes plásticas, literatura, além da música, atividade física e teatral. A família participava nas pesquisas e apresentações. Desta forma eu trabalhava além das questões regionais daquelas famílias. A memória cultural era preservada e os conteúdos pedagógicos específicos de cada faixa etária eram desenvolvidos por meio utilizando as artes como ferramenta de mudança.
Desta experiência fiz uma monografia para UERJ – Saber e Poder esticando os limites e um livro Os grandes Mestres Guardiões da Cidade de Deus – Fazedores de Destino. Em 2011, já como Gerente na instituição introduzi no curso de Vendas para 400 jovens um concurso de poesias, com os títulos: Quem quer comprar e como vendo a minha imagem? Este trabalho rendeu para 38 jovens uma edição em um livro financiado pela UERJ-Poesia Favela in livro. Aposentei em 2012 na Cruzada do Menor, hoje a instituição ainda trabalha com projetos culturais e utiliza outra metodologia. E eu faço trabalhos similares na Comunidade da Cidade de Deus. Valéria Barbosa da Silva – Casa Emilien Lacay – RJ