Em 2010, quando já estava formada e com a especialização em deficiência visual, fui convidada por uma coordenadora do Colégio Pedro II/RJ a fazer um projeto e ser voluntária, auxiliando um aluno que estava no ensino médio, mas tinha dificuldades em conteúdos matemáticos do ensino fundamental que pudessem estar prejudicando-o nesta fase. Aceitei e conheci o aluno que chamarei pelo nome fictício de João. Este aluno tem cegueira adquirida devido a um glaucoma aos 13 anos, falhas na memória recente e uma perda pequena de audição no ouvido esquerdo, mesmo lado em que há uma mancha avermelhada característica da Síndrome de Sturge-Weber, chamada vulgarmente por Síndrome do Vinho do Porto.
Na época este aluno estava saindo de uma escola especial e estava enfrentando uma nova etapa: a escola inclusiva. Auxiliei este aluno com jogos e atividades que confeccionei visando estimular a memória e auxiliá-lo com a tabuada e cálculo com números decimais que era um problema para ele também na disciplina de Física. Ele relatou não se lembrar de como faz cálculos no sorobã.
Ensinei a ele, mas isso me fez aprender mais e aprofundar nos cálculos com esse instrumento. Em algumas aulas utilizei algumas atividades do programa DosVox que é um programa gratuito de síntese de voz criado pela UFRJ. João já conhecia o programa, mas tinha dificuldades em manuseá-lo. No fim do segundo ano de aulas, a pedido do aluno, ensinei a utilizar a internet e enviar e-mails com este programa. Ele disse que queria esta aula, pois a coordenação enviava e-mail para todos os alunos, os colegas com deficiência visual que utilizavam internet recebiam e comentavam, contudo ele ficava sabendo das notícias só pessoalmente. Quando aceitei dar aulas ao João, a coordenadora da escola me disse: “Você vai aprender mais com ele do que ele contigo.”. E foi verdade! Ensinei um pouco de matemática, mas ele me ensinou muito sobre a vida.
Creio, como Paulo Freire diz, que: “o educador já não é mais o que apenas educa, mas o que, enquanto educa, é educado, em diálogo com o educando que, ao ser educado, também educa.”. Termino esta narrativa com um e-mail que recebi de João após o término de nossos encontros e da finalização do ensino médio (2012): “Oi Fernanda, como vai? Muito obrigado por ter me ajudado muito no meu tempo de escola com a matemática, depois me dando uma força com esta ferramenta tão maravilhosa que é a informática. Muito obrigado pela tua atenção para comigo. Um grande abraço. Eu mesmo, João.