Professora de Ensino Fundamental, há mais de vinte anos, muito me preocupa saber que a grande maioria dos alunos brasileiros, embora esteja aprendendo a ler antes dos sete anos, não lê com autonomia e fluência. Decodificam o escrito, mas não entendem as entrelinhas. Ao propor a leitura em voz alta de um texto, desconstrói-se a unidade temática, por seus parágrafos serem divididos entre os alunos. Ainda assim, acredita-se que é um treino que faz ler com fluência e autonomia. Em 2009, mais experiente, lecionei para alunos de 5º Ano. O percurso escolar trouxera-lhes dificuldades no processo de ensino e aprendizagem devido a consequências de assimilação dos conteúdos comprometida por diferentes fatores, que incluía a indisciplina. Em março, percebi que sabiam escrever e, ao ler o que escreviam escandiam a palavra em sílabas.

Conversando com a professora de uma turma que também estava aprendendo a ler e a escrever – 2º Ano -, combinamos que meus alunos leriam para os dela. Os alunos levavam para casa, na sexta-feira, o livro de poucas páginas para conhecerem a história a ser lida. Todas as segundas-feiras, às 7:30 h, os encontros ininterruptos entre as duas turmas eram no pátio da escola.. Ler para “os pequenos”, assim meus alunos chamavam os do 2º Ano, era uma tarefa que lhes davam orgulho e honra – achavam-se “grandes”. Ensaiavam para não gaguejar e, com fluência na leitura, consequentemente entendiam o que estava nas entrelinhas, segundo os objetivos dessa atividade. Ler deveria desencadear uma emoção diferente por vez e, para isso, os gêneros textuais e seus portadores eram diversificados: gibis, revistas científicas infantis, poesias, piadas para crianças. Em novembro, a leitura e a interpretação de textos eram destaque na aprendizagem da turma. Nós, professoras, marcamos um encontro diferente entre os alunos e, dessa vez foi para ouvir “os pequenos” lerem para aqueles de quem ouviram bons textos por vários meses. Numa festa literária, brindamos, com alegria, a experiência de aprendizagem mútua.

O final desse relato reservou-se para 2012. Um dos alunos de 2009, estudando no 8º Ano, contou-me que fora o escolhido para ler diante de vários alunos da sua escola e quis fazer dessa experiência algo que vivenciara na turma de 5º ano. Com a sensação de dever cumprido coube-me parabenizá-lo. Com lágrimas nos olhos abracei-o carinhosamente. Gisélia Oliveira de Sá Neves, EMEF João José de A. Filho, Santa Isabel-SP

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