Década de 70, eu tinha uns 10 ou 12 anos, e minha irmã Regina era professora primária numa escolinha da Prefeitura, na região do Real Parque, zona sul da cidade de São Paulo.

Por vezes, ela me deixava “ajudá-la” com a classe. Dezenas de estudantes, a maioria moradora de uma favela da região. Crianças que muitas vezes faltavam à aula, porque tinham de cuidar do irmãozinho bebê, ou não queriam chegar na escola descalços e para estes, minha irmã levava sandálias ou Conguinhas arrecadadas com amigos e familiares. Muitos não tomavam banho nem trocavam de uniforme, por dias seguidos. Vários iam à escola só por causa da merenda.

Poucos anos mais velha que eles, eu me sentia orgulhosa como “assistente da professora”. Entre minhas “atribuições”, acompanhava minha irmã à secretaria para copiar as lições no mimeógrafo. Regina me deixava inserir as folhas, uma a uma, e – suspeito que só nas lições menos importantes – permitia-me também virar a manivela. Sinto até hoje os meus braços rígidos de tensão, completamente concentrada na tarefa, pois qualquer inconstância no giro podia significar uma palavra – ou até mesmo todo um parágrafo – ilegível.

Depois, voltávamos pra classe, com as folhas ainda meio úmidas. Era sempre eu que passava de carteira em carteira, distribuindo-as. Algumas, me recordo bem, eram apenas desenhos para colorir. Aquelas aulas preencheram também de cores minha infância, e me marcaram profundamente.

De toda minha vida escolar, do pré à pós-graduação, julgo terem sido estas aulas as verdadeiras responsáveis pela minha formação. Hoje, ao entrar nas escolas públicas estaduais da cidade de São Paulo, nas quais realizo os projetos do Instituto Asas Comunicação Educativa, me salta à memória a escolinha da minha irmã.

Muitas levam nas paredes o mesmo tom azul cor do céu. As carteiras são praticamente iguais, coxas ou quebradas, todas rabiscadas. O xerox sucedeu os mimeógrafos. As grades encobriram janelas, e cadeados substituíram fechaduras. No banheiro, não tem papel higiênico, artigo de luxo. Espelhos – queixa habitual das jovens – nem pensar! Quando a merenda é boa, é pra lá de concorrida – inclusive pelos professores.

E faltam professores – e como faltam! Mas a maior ausência que se faz sentir nos corredores das escolas por onde passo é o tom carinhoso com que tantas vezes ouvi minha irmã se dirigir aos seus alunos, e vice-versa. Onde antes cabia o afeto e o desvelo, hoje tomaram seu espaço o medo, a afronta e o desrespeito. Como prosseguir daqui?

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