Matemática, a mais temível entre os educandos, o calcanhar de Aquiles para muitos professores que trabalham com ela nas séries iniciais. Como transmitir a importância dessa matéria para crianças preocupadas apenas em serem crianças. O que priorizar na construção de um conhecimento que precisa ser apropriado pelo aluno? Enquanto escola o que podemos fazer para que os conteúdos não se tornem maçantes e sem significados? Eram muitas as atividades significativas que poderiam ser desenvolvidas, porém preferi realizar algo bem próximo da realidade dessas crianças, pensando em um apoio envolvendo situações significativas e colocando a disposição materiais manipuláveis. Criar um ambiente com dimensões ligadas à vida cotidiana, a saberes escolares e a interação com os colegas. Decidi que íamos brincar de supermercado. Ideia simples, nem tão inovadora nem inédita, sem muita pretensão, entretanto com muito significado para aqueles alunos.
Trazer pra eles saberes matemáticos que poderiam contribuir para uma vida social eficaz. Poderia ter utilizado recursos tecnológicos e inovadores da nossa sociedade contemporânea. Mas o que é tão contemporâneo quanto nossa moeda, o poder de compra, o acesso a bens de serviço e consumo? A proposta foi feita. As crianças se uniram e em uma semana a classe já estava parecendo uma cooperativa de reciclagem. Eram inúmeras embalagens de todos os tipos. Em um dia programado eles chegaram com suas sacolas retornáveis e a classe já não era mais uma sala comum, havia se transformado em um mercado. Como combinado, receberam uma quantia de dinheirinho, adentraram a classe e foram as compras. Utilizaram recursos como arredondamento e valor aproximado para realizar seus cálculos. Para aqueles que ainda não haviam se apropriado de tais conceitos, ofereci a calculadora. Foi gratificante observar e intervir, enquanto aqueles olhinhos brilhavam e se sentiam importantes ao estarem calculando e pesquisando preços, ver despertado neles o interesse pela matemática. Apreciar e refletir sobre as estratégias pessoais de cada um, como se comportavam como alunos e cidadãos interagindo com seus pares, adquirindo confiança em sua própria capacidade de aprender, tornando-se autônomo em suas decisões para resolver problemas. Concluído e compartilhado o trabalho, articulando teoria com prática, juntamos as embalagens e levamos a casa de uma das alunas, cujos pais eram catadores de lixo. Uma lição que também se aprende na escola.