Jardim das Bandeiras situado na periferia da cidade de Salto de Pirapora, local que escolhi para construir uma história em educação. Esse bairro foi se formando com pessoas que vinham de outras cidades e estados para ficarem próximos de seus parentes que estavam no presídio Mineirão na cidade de Sorocaba. Tudo o que há em relação a roubo, tráfico, brigas… logo dizem: tinha que ser do bandeira. Os alunos notam essa discriminação e com isso a auto-estima é muito baixa, não se sentem capazes, e pior, tem a sensação de ser “menos”. Incomodava-me a arte ser tratada como recurso pedagógico e não como linguagem artística e estética. Percebi no início que os alunos do E. F., não conheciam o teatro.
Eu mesma nasci nesta cidade e só conheci o teatro, aos dezoito anos de idade. Mas eu queria que a história deles fosse diferente. Tive a oportunidade de trabalhar com as mesmas salas durante sete anos consecutivos. Foram trabalhos intensos de “alfabetização” em arte e com visitações em espaços culturais. Transformamos a nossa sala em espaço de experimentação. Não havia, nem certo e errado, nem carteiras e mesas, havia o espaço cênico. Era ali em círculo e com aulas de expressão corporal que começávamos o nosso diálogo com dança-teatro. Logo, o espaço da sala ficou pequeno. Num dia chuvoso cheguei à sala de aula e todos estavam olhando para a janela. Havia um espaço cheio de árvores, folhas secas, terra, ar… um espaço que mais parecia um quintal. Perguntei se eles já haviam estado nesse espaço.
Logo uma aluna disse: Há seis anos eu olho esse lugar pela janela da sala, mas nunca estive lá. Deram o nome de “Florestinha”.Esse espaço, provocou toda a transformação do olhar/fazer . A artista Pina Bausch contribuiu em nossos encontros, através de propostas com as narrativas pessoais e espaços não-convencionais. Assim, os alunos foram criando as suas próprias histórias cênicas. Os protocolos foram utilizados como instrumentos de avaliação e espaço para a crítica. Um espaço de aprendizagem e humildade. Depois de oito meses de trabalho, eles tiveram vontade de mostrar o que construíram para os pais. Ali puderam presenciar seus filhos entregues na criação, e se reconhecerem nas histórias contadas por eles.Os pais conheceram a dança contemporânea através da sensibilidade. Hoje, os valores são outros, as crianças da escola foram reconhecidas e se reconheceram através de suas próprias criações, para além da cidade, com documentários e publicações, sendo referências em educação.