Na localidade costeira de Ponta da Juatinga, muito distante de qualquer lugar, tendo acesso restrito somente via barco, tornando a frequência e todas as necessidades ao processo de aprendizagem quase impossíveis, aqui aconteceu a experiência que relato. Observações de piá nesse mundo novo, sem grande contato na escola local. Porém, nas voltas que mundo dá, com um pontual empurrão do destino, nesse local quase “fim do mundo” que escolhi….surgiu uma inesperada proposta de atuação em um projeto com o objetivo de correção de uma injustiça social. Implantado pela Prefeitura Municipal de Paraty, em parceria com a Fundação Roberto Marinho, a partir de insistentes protestos das comunidades, chega o PROJETO AZUL MARINHO. Fui chamado para dar aula na Ponta da Juatinga. Mas o local não era ainda esse. Fiz a proposta de levar uma extensão desta escola para a localidade de Saco Claro, local ainda mais isolado com menor número de moradores e com maiores necessidades que testemunhava dia a dia.
Próximo desafio, um local coberto, com ponto de luz, ou baterias estacionárias com luz solar, para ligar uma televisão e um vídeo. Desafio vencido. As primeiras aulas foram ministradas em uma toca grande de pedra, onde eram feitas canoas, com cadeiras cedidas pela Prefeitura. As boas notícias sempre vem…devido ao interesse despertado na comunidade caiçara e grande frequência, logo as aulas passaram a ser ministradas onde se produzia farinha, continuadas e concluídas na varanda da casa de uma sábia senhora (Dona Lourdes), mais antiga na comunidade. Dois anos se passaram de muito esforço e dedicação de todos os envolvidos. Alunos de três gerações matriculados, num esforço conjunto para vencer anos e anos da falta do contato com o mundo letrado. Embora a proposta desse trabalho esteja voltada para os anos finais, REALFABETIZAR foi necessário. Vencer o desafio diário na busca de alternativas pedagógicas, pesquisas, convencer cada opinião contrária de que seria possível “chegar ao fim” tornou-se rotina. Festas foram organizadas, a cultura local resgatada. Por derradeiro, a formatura foi realização para alunos, pais e todos os envolvidos. Hoje, continuo nesse trabalho, agora como supervisor no projeto e, com a realização deste e de outros sonhos possíveis sonhados juntos. Vendo o agradecimento silencioso, porém luminoso, estampado no olhar de cada aluno, tenho certeza de que minha missão neste País e neste Planeta está se cumprindo. Nada é por acaso…!