Para dar concretude a um desejo de formação que se valha da desaprendizagem das práticas estereotipadas e, ao mesmo tempo, do desencadeamento de deveris, a situação de aprendizagem balizou-se pela análise de vivências formativas prático/artístico/reflexivas, realizadas com os alunos do último ano da licenciatura em Artes Visuais de uma Faculdade privada do interior paulista, pois muitos já atuam nas Escolas de Educação Básica, e têm na prática de estágio supervisionado a oportunidade de intervir no local em que atuam, reconfigurando a cena docente. Tomando como mote o conceito de “professor declanchador”, os licenciandos construíram parangolés que atuaram como primeiro dispositivo para a invenção de uma prática artística que integrasse a reflexão e a vivência formativa. Os parangolés foram construídos a partir das marcas dos corpos dos estudante, com tecidos leves, em diferentes cores e texturas. O contorno de cada corpo demarcava o dentro e o fora, a se constituindo como elemento potencializador de outra dinâmica: a marca do corpo estático quando vestido era, agora, movimento puro, assim como a formação de cada estudante; movimento único e singular –mediatizado pelas relações com o outro e com o mundo.
Em uma delas, o mote era a construção de uma obra coletiva, um manto/inventário que tanto agregasse as singularidades vividas pelo grupo de alunos durante os anos da graduação quanto os conceitos artísticos específicos e sua relação com a educação, tendo como eixo potencializador da discussão e da própria vivência, a poética de Arthur Bispo do Rosário. A proposta era de que, balizados por essa obra viva, os licenciandos re-criassem, re-pesquisassem e re-aprendessem modos de compreensão, apreensão e representação do mundo, criando suas próprias práticas docentes e reconhecendo-se como protagonistas de sua formação, integrando saber, ação e criação. Assim, a relação entre a docência e a aprendizagem em arte, a intersubjetividade e a ativação de projetos coletivos vivenciados pelo grupo de licenciandos, bem como o diálogo entre criação/reflexão/investigação foram potencializados em uma perspectiva formativa e reflexiva que se aproximou mais do “faça comigo” do que da tradicional perspectiva modeladora de professores tida a partir do “faça como eu”. Neste sentido, as aulas procuraram gerar tanto a análise e o debate de teorias, quanto a vivência de experiências criadoras com arte e educação, apostando nos atravessamentos que elas reverberam na cena docente.