Já fazia algum tempo que eu havia me formado em Letras e, apesar do desejo de ser professora, fui inconscientemente adiando essa vontade, pois possuía um emprego razoável como revisora de textos em uma agência de publicidade. Porém, as horas extras somadas a uma dose de estresse diária me fizeram perceber que eu não queria aquela vida.
Comecei então a procurar escolas, na tentativa de modificar a minha realidade. Foi assim que a magia aconteceu: ao sair de um local que sugava minha inspiração, e chegando à coordenadoria da SEDUC da minha região, descobri que precisavam de professor de Língua Portuguesa na Escola 8 de setembro, em Estância Velha. Ao telefone, uma das responsáveis pela vaga falava com a diretora daquela escola, a qual informava que, passasse mais um dia sem professor, os alunos organizariam uma manifestação em frente à coordenadoria.
Foi aí que meus olhos brilharam: eu havia encontrado uma escola para dar aula, e era uma escola com alunos pensantes, que batalhavam pelos seus direitos. Nada poderia me encantar mais. Lembrei imediatamente da adolescente que fui, sempre pronta a lutar pelo direito de liberdade de expressão! Na semana seguinte, estava de prontidão. Ainda não sabia que havia mais realidades que seriam modificadas. Antes de entrar na sala de aula, a tradicional passada pela sala de professores me deu mais frio na barriga do que qualquer plateia de 45 adolescentes poderia causar.
Lá estavam os colegas, simpaticamente prontos a me desencorajar com os habituais discursos: “vai sofrer”, “com o tempo a empolgação passa”, “tão novinha e quer ser professora”. Chegado o momento, fui à aula num misto de empolgação e receio. Mas estava pronta para conhecer esses alunos que já haviam me encantado. Centralizei nos textos a base para o aprendizado da Língua Portuguesa. A primeira produção intitulou-se “Quem sou eu?”.
Desde então, nada é mais forte do que a emoção de ler esses textos, que me faz sempre ter que segurar algumas lágrimas quando leio um aluno que pode ser escritor, uma aluna que confidencia seus sentimentos mais profundos por me enxergar como amiga, um aluno que de “caso perdido” passou ao mais dedicado da turma. Aquelas realidades também haviam sido modificadas. E da primeira turma do 8 de setembro não posso esquecer: são eles que me fazem acreditar na educação, é por eles que renovo a cada dia. Afinal, após sair aplaudida daquela primeira aula e ler que sou inspiradora, esta produção aqui vem afirmar quem sou eu.