– “Você é louca”! Assim me disseram quando assumi umas “aulinhas” de Sociologia no Colégio Benedicto João Cordeiro, de um dos bairros de maior incidência de violência e pobreza de Curitiba, em 1996. Tinha acabado de me formar em Ciências Sociais pela UFPR e queria fazer a “revolução” na sala de aula… Quando cheguei ao Colégio, sem planejar devidamente, com a cara e a coragem, entrei nas turmas. Perguntei: “O que é Sociologia, para você?” A maioria sequer tinha ouvido falar. Então me perguntei: O que ensinar e como? O Planejamento recebido não me dava respostas. A Direção deu-me autonomia para que o reelaborasse. Assim, fui construindo diariamente meu material. Comecei com a pergunta: Quem é você? Isto me ajudou a conhecer os alunos. Decidi então partir da sua realidade e de seus conhecimentos prévios. Para aproximá-los da disciplina, lancei mão da literatura, do teatro, de filmes, textos científicos e utilizei outros espaços da escola além da sala de aula. Em 1997, na Feira de Ciências, tive a alegria de assistir a peça sobre drogas na adolescência, escrita pelo aluno Edi Carlos, do 3º ano noturno. Durante o ano, foi aproveitando os conteúdos das aulas de Sociologia para escrevê-la. Este aluno me marcou muito. Fez-me entender que nem sempre os mais “participativos” são os que aprendem mais. Precisamos percebê-los na sua individualidade. O Edi sentava-se no fundo da sala e estava sempre calado. Foi meu aluno nota 10. Eu sempre o flagrava escrevendo um pensamento no quadro. E conforme avançava nos conteúdos demonstrava a compreensão profunda dos conceitos e produzia textos perfeitos. Milhares de outros jovens que passaram pela minha vida, mais me ensinaram, do que eu a eles. Tanto que traduzi num Livro Didático de Sociologia, toda aquela experiência dos primeiros anos. Hoje, continuo “ensinando e aprendendo”. Um pouco mais cansada, é claro, e às vezes sonhando com a aposentadoria, outras, com vontade de desistir, porque vem aquela velha sensação de fracasso… Mas sempre acontece algo que nos faz levantar todos os dias e ir para a escola, com o mesmo desejo de mudar as coisas. Hoje eu sei que não fiz revolução alguma. Possivelmente, o nosso papel não é tornar o mundo melhor, mas as pessoas, para que o tornem, de fato, melhor. Tive esta certeza quando recebi uma carta da aluna Kethelin, do 3º ano do Ensino Médio, do Colégio onde trabalho atualmente, que traduz tudo isso: “Quantos anos de estudo e dedicação levaram para você chegar até aqui!

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