Com apenas cinco anos não entendia bem o relacionamento de meus pais. Minha avó materna criava-me em um sítio depois que minha mãe foi embora. O momento mais importante da semana era o dia da visita de papai. Ele levava brinquedos, passeava e brincava comigo. Eu brincava sozinha no quintal esperando ansiosa a sua chegada. Porém algo estranho estava por vir. Uma pequena mala repousava no canto da sala. Meu pai foi ao encontro de vovó, antes que eu o abraçasse. Conversaram durante alguns minutos. Papai me chamou e comunicou-me que nós iríamos viajar para conhecer a escola que eu estudaria. Ele pegou a mala com todas as minhas roupas e fomos embora. Meses depois da minha partida recebi a notícia da morte de minha avó. O ônibus subia vagarosamente serpenteando a estradinha da serra de Petrópolis.
Coloquei meu rosto na janela para sentir a brisa da manhã. Avistei a cidade imperial com seus imponentes casarões, o paralelepípedo transformou a nossa viagem em uma aventura trepidante. Ao chegarmos uma freira veio nos receber, no pátio crianças corriam de um lado para o outro. Enquanto a freira conversava com papai, outra muito simpática, a Irmã Margarida mostrou-me a escola, um prédio em estilo colonial, com grandes janelas, no bairro de Corrêas, distrito de Cascatinha. O “Colégio Padre Corrêa”, um internato católico que abrigava meninos e meninas órfãos. A Irmã Margarida levou-me de volta ao pátio e meu pai pediu-me para sentar no banquinho e esperá-lo, pois iria comprar um lanche e eu pedi que trouxesse um polenguinho. Esperei durante muito tempo, meu pai não voltaria aquele dia e nem pelos próximos meses. Senti o abandono e chorei muito.
Já estava anoitecendo, quando a Irmã Margarida pegou-me pelas mãos e me levou para o quarto onde iria morar pelos quatro anos seguintes. No meu primeiro dia de aula os novos coleguinhas fizeram o máximo para eu me sentir bem. Eles eram os únicos que podiam entender a minha tristeza. Essa experiência eu levei para a vida toda. Andei por muitos caminhos que me levaram a diversas profissões, mas aos trinta anos me encontrei realmente na educação. Hoje leciono História para adolescentes e tento desenvolver valores, entre eles a solidariedade, respeito e perseverança. Esses valores deixaram de ser ensinados no meio familiar da maioria dos alunos e a escola deve assumir este papel para que a sociedade retome seu rumo. Diana Motta Marriel Fundação Educacional Guaçuana Mogi Guaçu – SP