Sou professora do Ensino Fundamental I da Rede Municipal. Em 2001, removi-me para uma nova Unidade Escolar. Como acumulo cargo, foram-me atribuídas duas classes de 4ª série, cada uma com alunos multirrepetentes, com defasagem em relação à idade/série, indisciplinados e com histórico de evasão escolar. Nenhuma das professoras antigas da escola quis assumir essas salas. Foi nesse cenário que começou meu dilema, já que a cena vivida no período da manhã se repetia à tarde. Diante daquela realidade, só havia para mim duas saídas: ou pedia exoneração dos meus cargos e ia exercer outra atividade, ou enfrentava o desafio. Escolhi a segunda opção. Logo nas primeiras semanas de aula começaram as faltas às aulas e o desinteresse em aprender.

Não sabendo mais o que fazer para atrair a atenção e o gosto dos alunos pela escola, comecei a me lembrar da minha infância. Eu morava em um sítio e estudava em uma escola rural. Tinha de andar quatro quilômetros, enfrentando vaca brava, mato, lama quando chovia… para chegar à escola. O que mais me motivava era a hora da leitura. Eu adorava ouvir histórias! Éramos muito pobres e não havia dinheiro para comprar livros. O único livro que tínhamos na minha casa era velho, ganhado por meu irmão de um amigo, “A Volta ao Mundo em 80 Dias”.

E como ele também gostava muito de ler, não deixava ninguém pegar o livro! Na escola, quando a professora começava a ler as histórias, eu esquecia as dificuldades e viajava nas aventuras que ela contava… Eu me transformava naqueles personagens! Foi recordando minha infância que resolvi adotar a estratégia da leitura para prender a atenção dos meus alunos. Escolhia as histórias de acordo com sua faixa etária. A primeira foi “A Ilha Perdida”. Cada dia eu lia um capítulo. Depois vieram “A Droga da Obediência”, “O Pequeno Vampiro”… Com base em cada capítulo, eu preparava atividades voltadas para leitura e produção de texto. Fui percebendo que as faltas foram diminuindo e o rendimento escolar e a autoestima, aumentando. Ao final do ano, todos estavam lendo, produzindo bons textos e com os conhecimentos necessários para seguir seus estudos na série seguinte. Nunca esquecerei o depoimento do aluno Rafael, que me disse: “Eu só venho à escola para ouvir a história”. Élida Ferrari Penhalver experiência vivenciada na EMEB Profº Valdemar Canciani, em São Bernardo do Campo, Estado de São Paulo.

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