*O Navegante Negro: história viva Diante de mim, ali estava a filha de João Cândido, líder da Revolta da Chibata, que sacudiu o Rio de Janeiro, no início do século XX, tendo por reivindicação principal o fim dos castigos corporais infringidos aos marinheiros, na grande maioria negros. Eu a conheci numa reunião de moradores, em São João de Meriti, Baixada Fluminense, Rio de Janeiro.
Senhora calma e bem articulada no pensamento e na fala simples, Zelândia militava no movimento de bairro e ainda participava de uma campanha de reparação por parte do Estado, junto com grupo de marinheiros também perseguidos já durante a Ditadura Militar de 1964. A saga de João Cândido tinha sido popularizada pelos compositores João Bosco e Aldir Blanc, na canção Mestre Sala dos Mares, e foi através dela, que eu, professor de História, apresentei o assunto à turma. Ouvimos. Cantamos. Analisamos e interpretamos a letra. Pesquisamos termos desconhecidos. Fizemos correlação com o conteúdo abordado no livro didático, destacando os aspectos considerados mais interessantes. Motivado pela experiência fui levado ao livro clássico de Edgar Morel, Revolta da Chibata.
Chamou-me atenção além dos fatos de natureza política envolvendo João Cândido, aqueles de caráter mais pessoais, vividos por João Cândido em São João de Meriti. Como seria difícil os alunos terem acesso à obra, procurei fazer uma síntese em versos num folheto, que multiplicado, foi outro material didático alternativo trabalhado em sala de aula.
A finalização da atividade aconteceu na Rua João Cândido, localizada no bairro Vila Rosaly, próximo à escola, onde muitos alunos moravam. Nesse dia, os alunos muito entusiasmados, distribuíram resumo sobre a vida do líder e conversaram com os moradores, pois muitos não conheciam aspectos da vida do personagem que dera o nome a uma das ruas do bairro. Também apresentaram o jogral. Ouviram a filha de João Cândido falar sobre o pai e a Revolta.
Escutaram atento o representante da comissão de marinheiros perseguidos pela Ditadura Militar. E foi assim, sob olhares curiosos da vizinhança, a admiração dos alunos e a ausência das autoridades locais, que a nova placa da Rua João Cândido foi fixada na parede da casa de esquina, acrescida agora com o termo MARINHEIRO. • Experiência vivida pelo professor de História, Clóvis Correia, no Colégio Estadual Caetano Belloni, pertencente a rede pública estadual de ensino, RJ., localizado na cidade de São João de Meriti, Rio de Janeiro,no fina