Era junho de 2008, havia perdido várias aulas como professor substituto no Estado do Paraná, meu contrato naquele ano seria encerrado caso não abrissem novas vagas. Foi então que surgiu a chance de trabalhar com a Educação de Jovens e Adultos.Comecei imediatamente, era uma oportunidade única. No primeiro dia de aula, notei que haviam muitos jovens na sala. Outra parte da turma era formada por um grupo de alunos com idade acima dos 40 anos e que, por motivos bem particulares, tentavam completar esta etapa dos estudos. Entre os mais velhos, estava um aluno com muitas dificuldades de aprendizagem, Seu Sebastião, 67 anos, pedreiro desde os 12 anos, não teve oportunidade de frequentar a escola, uma pessoa simples, mas com uma coração enorme. Quando o conheci, logo pensei que seria um desafio na minha carreira, mas este homem acabou transformando minha trajetória como educador. No litoral do estado, o clima úmido e os temporais constantes deixam as ruas alagadas e de difícil acesso.

Desci do ônibus, que percorria 20 quilômetros todos os dias para chegar ao colégio. Finalmente, todo encharcado, cheguei a sala dos professores e o secretário já avisou: – só veio um aluno seu hoje, professor! Só pode ser um aluno que é vizinho da escola, pensei. Fui para a sala de aula e neste momento deu um raio furioso que apagou as luzes por algum tempo, não era meu dia mesmo. Depois de cinco minutos a luz voltou e mais uma surpresa: quem estava me esperando na classe era o seu Sebastião, depois de um dia todo de trabalho duro na construção civil, de morar bem longe dali, ele estava lá, feliz e sorridente: – Hoje o senhor vai me ensinar a escrever meu nome todinho, né professô Ivan! Na hora não entendi muito bem, mais no minuto seguinte ele já estava com caderno de caligrafia e lápis na mão, Vamos lá, mãos à obra, era sua frase mais recorrente. Lembrei que nas suas avaliações ele só escrevia o primeiro nome, foi sempre assim, a vida inteira segundo ele, só havia apreendido o Sebastião. Depois de meia hora e umas três tentativas, finalmente ele conseguiu seu objetivo, escreveu várias vezes seu nome completo e quando percebeu que sabia fazer aquilo sozinho, sem minha ajuda, abriu um sorriso rasgado e me agradeceu como se eu estivesse libertando ele de uma prisão. Nesse momento, uma sensação de plenitude, de gratidão e de realização tomou conta do meu pensamento, o verdadeiro espírito do educador, aquele de dever cumprido. Obrigado pela lição, Sebastião Pereira da Silva.

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