A Praça do Conhecimento abriu as portas dos moradores do complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, para o mundo digital. O espaço abriu suas portas em 23 de dezembro de 2011 e passou a oferecer à população, além de atividades culturais e artísticas, cursos nas áreas de tecnologia da informação e da comunicação.
Foi por meio da estrutura da Praça que os seis integrantes do projeto “Alemão Em Cena” se conheceram. Depois de aprenderem técnicas de filmagem e edição em diferentes cursos, Caolin Melo, Daiene Beatriz, Karen Melo, Demerson Couto e Tiago Pereira produziram, juntos, oito curtas-metragens. Mas é o movimento “Gonzagueando” – parte do “Alemão Em Cena” que conta a história de nordestinos que migraram para o Alemão e para a Rocinha – que tem chamado mais atenção. Composto por dois documentários, o movimento já rendeu um evento e diversas palestras, inclusive fora do Rio de Janeiro.
Caolin Melo conversou com o Instituto Claro e contou um pouco sobre os documentários e a história do grupo, cujo rumo mudou bastante depois do acesso à tecnologia e à possibilidade de colocar as ideias em prática.
“É uma situação completamente diferenciada”, ele conta, antes de tudo, sobre a “chegada” da Praça do Conhecimento em Nova Brasília. “Quando as crianças viram, ficaram assustadas. ‘É pra mim, isso? Eu posso?’”, relembra. Inicialmente intimidada, a comunidade foi, aos poucos, se acostumando e aprendendo a aproveitar a nova estrutura. “Até hoje, tem gente que tem receio. Muitos ainda são atraídos a entrar no prédio porque o wi-fi lá dentro funciona”, ele ri. “Mas então eles entram, utilizam a internet e acabam se aproximando”. Caolin, estudante de Relações Públicas, foi um dos primeiros a se aproximar e a aproveitar ao máximo tudo o que a Praça tinha a oferecer. Foi lá, depois da exibição do filme “Gonzaga – de Pai pra Filho”, que ele conheceu e conversou com as pessoas que usariam, junto com ele, as técnicas aprendidas nos cursos que aconteceram ali mesmo na comunidade.
O investimento feito nas câmeras para a filmagem dos documentários foi dos próprios jovens. Inspirados pelo “jeito Gonzaga de ser”, eles queriam deixar uma marca na comunidade. Por isso, resolveram filmar e compartilhar com o público relatos de imigrantes nordestinos, editados em forma de curta-metragem, utilizando, para isso, a infraestrutura da Praça do Conhecimento. O resultado, chamado de “Cordel do Alemão”, rendeu lágrimas aos protagonistas das histórias, que puderam conferir os próprios depoimentos na tela do cinema. “Eles se viram e falaram ‘poxa, sou eu lá, eu sou importante’”, Caolin conta.
Depois do sucesso do primeiro Cordel, o grupo encarou uma nova realidade: foram filmar na maior favela do Brasil, a Rocinha. Lá, mantendo a ideia de conhecer gente com “um pé no Nordeste”, conheceram protagonistas com histórias diferentes e se aprofundaram mais no tema da imigração nordestina no Rio de Janeiro. O resultado do projeto, o filme “Cordel da Rocinha”, também emocionou os participantes. “Quando eles passavam na rua, as pessoas perguntavam: ‘Ei! Não é você que está naquele filme?’”, diz Caolin.
Tiago Pereira e Daiene Beatriz, que também são integrantes do “Alemão Em Cena”, têm colhido os frutos de seus esforços. Enquanto Tiago está atualmente trabalhando na Carioca Filmes, Daiene foi chamada para um intercâmbio nos Estados Unidos. Tudo, a partir da capacitação recebida na comunidade. Um conhecimento, aliás, que os jovens querem transmitir às novas gerações do Alemão. Além de estarem sempre presentes onde tudo começou, compartilhando experiências em palestras e em conversas informais com os novos alunos da Praça do Conhecimento, eles já sonham com uma sede própria, onde cursos e materiais estariam disponíveis para o público jovem do Alemão.