Sou professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e ministro aulas de microbiologia para alunos da área de saúde. A disciplina aborda sobre patógenos, bem com microrganismos benéficos à saúde. Costumo iniciar o curso com a aula de biossegurança. É sempre um alvoroço. Os alunos relatam experiências corriqueiras e descobrem o quanto estavam em risco, sem ao menos perceber a gravidade de algumas ações do dia a dia. Ao final de uma dessas aulas uma aluna me perguntou: – Prof, a senhora come pipoca na rua? Ao final do curso, meus alunos demonstram maturidade e, além de desenvolver hábitos seguros, tornam-se exemplos em práticas seguras.
Um dia, uma das minhas alunas comentou que sua mãe lhe exclamou: – Maria, como você está mais atenciosa e cuidadosa com sua saúde. Lembro-me bem de uma aluna que já pela terceira vez repetia minha disciplina. Joana estava prestes a ser jubilada da UFBA, no curso dos seus sonhos: Medicina Veterinária. Naquele semestre, resolvi atentar para ela e estimar qual o motivo de tantas reprovações. Numa certa aula, combinei com meus alunos que eles somente sairiam do laboratório depois de focar uma lâmina com uma amostra de microrganismos no microscópio ótico com aumento de 1000 vezes. Para um principiante, isso é o desafio. De um a um fui checando a desenvoltura de alguns e a pouca habilidade de outros. E, como combinado, os alunos que conseguiam focar recebiam a presença e podiam sair.
O horário da aula já se estendia e apenas Joana ficou comigo no laboratório. Cheguei próximo a ela e expliquei-a detalhadamente os passos para focar aquela lâmina de Pseudomonas aeruginosa. Joana tentou mais uma vez, ainda bastante insegura. Então, resolvi segurar na sua mão para ajudar a ajustar o foco no micrométrico. Notei claramente sua ansiedade e receio de não consegui concluir atividade. Sua mão estava fria, trêmula e molhada. Disse-lhe que havia tempo e eu a ajudaria. Finalmente ela conseguiu. Seus olhos brilhavam. Naquele momento, era como se segurasse um troféu de ouro. Aquela conquista assegurou a Joana um refrão: EU SOU CAPAZ!!! Joana seguiu o semestre com excelentes notas e no semestre seguinte foi monitora de Microbiologia. Meu propósito com professora sempre ultrapassou os raios da ementa disciplina e está alicerçado no aprendizado para vida. Formar cidadãos imbuídos de responsabilidade social e ambiental. A humanização do ensino é algo valoroso para mim e tenho como princípio norteador em todas as minhas estratégias de ensino.