Já tinha trabalhado em diversas escolas com crianças deficientes, mas nunca tinha tido a experiência de receber em meu grupo alunos com uma síndrome não catologada pelos médicos. O ano já tinha começado na turma azul de 4 anos , na escola particular da Urca, quando recebemos a visita de Roberto e Marcelo, conversamos com sua mãe, e soubemos um pouco sobre a história deles, e tivemos algumas orientações de como eles viviam em casa, sem estar num ambiente escolar.
Contamos com a grata ajuda da babá dos alunos, que os acompanhava o tempo inteiro. Os gêmeos são alegres, sorridentes, gostam de fazer carinho e brincar com as crianças, mas o tônus muscular bem frágil de ambos os impedia de se locomoverem com liberdade e precisão, falar com clareza,,salivavam muito a cada tentativa de falar mais tempo, precisavam ser lembrados de fechar a boca, ou fazer certas articulações que seriam involuntárias, como piscar os ohos. Nós, professores, babá, colegas, precisávamos lembrar a todo instante pra eles piscarem seus olhinhos. Pela fragilidade precisavam usar colírio toda hora e óculos escuros na maior parte do tempo.
Tamanha fragilidade nos comoveu muito no início, mas tomamos a causa como a oportunidade do grupo abraçar essa causa, ter paciência, lidar com o diferente, vibrar com as vitórias, porque eles participavam de todas as atividades, menos as alimentares, em confraternização com a turma azul. Aprenderam a escrever o nome e outras palavras soltas, faziam muitos desenhos elaborados, com déficit visual, mas com muita habilidade e sensibilidade. Beto, o maior em tamanho era mais lento em suas ações, e Lelo, como chamavam o Marcelo, uma espoleta.
Depois de todas as atividades de artes, corporais, brincadeiras de quintal, trocas, tivemos uma felicidade imensa em produzir uma festa de fim de ano, em que a turma era equilibrista. Desde que pensamos no tema com a professora de música e a de psicomotricidade, pensamos como seria o desempenho do grupo, e do Beto e do Lelo no grupo. Pensamos juntos, criamos a cena juntos, coreografia, ensaios exaustivos. No ensaio nunca temos noção exata do que acontecerá ao vivo e a cores no teatro. Pois bem… Os meninos de nosso coração roubaram a cena, cada um em seu tempo, pisando levemente na corda bamba cênica, com camisetas feitas por eles, e um prato de equilíbrio nas mãos. Todos da plateia pararam para observar e aplaudir, esse espetáculo de união e beleza, de crianças que apenas ensinam a gente o que é amar,simplesmente.