A história é antiga, do ano de 2005, mas essa chama permanece todos os dias. Era uma aula de Ciências do 4º ano do Ensino Fundamental onde começaria a trabalhar com o Sistema Excretor. Ao planejar a aula vi que havia a ilustração de uma máquina de hemodiálise no livro didático dos alunos e à época eu mesmo a conhecia muito bem, pois era renal crônico em diálise e aguardava na fila do Sistema Único de Saúde por um doador, já que nenhum familiar poderia doar um rim.
Durante a aula, ao falar do tal equipamento e de seu funcionamento para filtrar o sangue (papel que seria cumprido pelos rins), mostrei aos alunos o meu braço por onde fazia o procedimento. Ali o interesse foi tamanho que todos quiseram "sentir" o que acontecia em meu braço onde havia a fístula (nova explicação, retomando o Sistema Circulatório, como a veia e a artéria haviam sido unidas e seu propósito). Nesse momento, dentre as perguntas "Dói isso aí Professor?!" ou "Por que seu braço "treme"?" uma pergunta que não esperava: "-O Sr. pode morrer professor?".
Respondi que se não levasse o tratamento a sério que sim e que era muito importante, não só para mim, mas para todo o ser humano uma dieta saudável, sem sal… Mantive a postura, mas o medo dessa "morte" rondava-se a todo instante, a cada sessão de tratamento. Confesso que o assunto ainda me incomodava, mas não desisti de ir até o fim da aula com as explicações para todos os questionamentos. Quando me sentei, uma aluna chegou-se a mim, me abraçou e disse: "Professor, agora que eu o amo ainda mais e sei que o Sr. não vai morrer! O Sr. é meu professor e não vai morrer porque vai ganhar seu rim novo pra limpar seu sangue todinho. Eu te amo!". Ali, meu objetivo estava mais que completo.
Uma aula de Ciências que eu aplicaria, veio como uma aula para mim de esperança. Nunca mais dei uma aula de Sistema Excretor, sem que me lembrasse das palavras de "P". Meu sucesso estava ali, no conteúdo apreendido e na expressão de sentimentos que só a aula da vida pode proporcionar. Hoje estou vivo, mais vivo que nunca, tanto pelo transplante, como pela experiência de ser uma pessoa melhor. Obrigado.