Tiago (pseudônimo) era um aluno com necessidades especiais, apesar de seus pais não aceitarem o fato, devido ao estigma existente na época em relação a crianças com necessidades especiais. Para mim, que recebi uma formação para reconhecer um desenvolvimento fora dos padrões, foi difícil compreender porque os pais resistiam em proporcionar um atendimento especifico a ele. Naquela época as opções de acolhimento para alunos com necessidades especiais eram mínimas. E, em 1987, já formada em Educação Física, e diretora de Maternal, o recebi como aluno aos 2 anos e meio, dentre outros das mais diversas idades e origens. Para cada novo aluno era feita anamnese com os responsáveis, tentando conhecer como foi seu desenvolvimento até chegar à escola.
No entanto, ainda não havia todo um olhar e conhecimento sobre as diferenças, que proporcionasse um acolhimento e inclusão mais adequados, como atualmente está em pauta. E esse menino, apesar de ser muito bem acolhido, apresentou problemas na socialização, gostava de passar muito tempo sozinho, não fitava nos olhos, por vezes não atendia ao nosso chamado, aparentemente não se interessava pelo que acontecia ao redor. Ao mesmo tempo em que existia uma passividade, havia uma agitação interna, que era manifestada pelo abanar de ambas as mãos, caso discordasse de algo, mesmo não havendo motivo para isso.
Com certeza esse aluno tenha sido tratado como possuidor de Déficit Cerebral Mínimo (DCM), pois apesar das tentativas e conversas com os pais, solicitando que fizessem mais avaliações com ele, os mesmos afirmavam que todos os meses o levavam ao pediatra, e ele lhes dizia que tudo estava bem. Sabendo de nossa responsabilidade em estimular, principalmente a socialização a partir de brincadeiras nessa idade, e, percebendo a resistência dos pais em mantê-lo apenas conosco, sem haver um estimulo e cuidado especifico para sua necessidade, pois ali dificilmente conseguiríamos realizar a estimulação precoce, considerando o atendimento das demais crianças, víamos dia a dia aquele menino encerrado em seu mundo, apesar das nossas tentativas de interação. Após ter saído da maternal, e encontrando-os na rua, pai e filho, vim a saber que ele agora com 7 anos, frequentava a Apae. Coloco-me no lugar dos pais em não querer expô-lo ao estigma de retardo mental vigente, porém quanto esse menino deixou de desenvolver, pela falta de um atendimento especializado? Assim, questiono a inclusão em classes comuns sem atendimento específico.