A compreensão de que as novas tecnologias podem ser passaportes para um mundo muito mais amplo de aprendizado não é o suficiente para que as instituições de ensino transformem as suas estruturas e implementem projetos que contemplem os ambientes virtuais e as ferramentas disponíveis na web.

Para ocorrer, de fato, mudanças no cenário escolar, é preciso que duas coisas sejam levadas a sério: formação do corpo docente e investimento material em tecnologia para os ambientes de aula. Caso falte um desses dois “ingredientes”, não será possível comprovarmos que houve mudanças estruturais, mesmo considerando números como os do ProInfo (Programa de Informatização das Escolas, do Ministério da Educação), iniciativa em que já foram gastos R$ 726 milhões desde 1997.

Defendendo essa lógica há anos, Teresa Cristina Jordão, doutoranda em Educação da Universidade de São Paulo e mestre em Educação, Arte e História da Cultura pelo Mackenzie, fundou, no ano passado, em parceria com outras quatro educadoras (Claudia Regina Stippe Rodrigues, Mary Grace Martins, Marie Suzuki Fujisawa e Monica Gardelli Franco), o Instituto Paramitas. Na entrevista abaixo, ela fala sobre a atuação do instituto, fundado em 2008, e sobre as suas percepções após se envolver com a implantação de projetos educacionais ligados à tecnologia.

Como se chegou ao formato do Instituto Paramitas?

O Instituto foi fundado a partir da reunião de cinco educadoras que há muitos anos trabalham com tecnologia na educação. Muitos anos mesmo, algo em torno de 20 anos. E todas desenvolveram suas pesquisas de mestrados, doutorados, focando no uso da tecnologia. O Instituto foi a forma que encontramos de unir tudo isso, até porque essas pessoas, e eu me incluo no grupo, já passaram por todas as etapas do uso da tecnologia na educação.

Qual a etapa inicial desse processo?

A forma como começamos a utilizar a tecnologia é diferente da forma como as educadoras iniciam a aproximação com a tecnologia atualmente, pois eu falo de uma época em que fazíamos o uso dos aplicativos como ferramentas principais. Era muito comum. Antes, nas aulas de informática, você ensinava como trabalhar com o Word, por exemplo, mas não como o Word poderia ser utilizado para

desenvolver poesias ou para fazer o jornal da escola. Depois, os educadores começaram a pesquisar e a ver que não deveria ser assim o uso da tecnologia. Começaram a se ater a outras experiências, a ações de formações de professores, e o computador passou a ser visto como uma ferramenta secundária. O essencial era a questão da aprendizagem. Começou-se a pensar na tecnologia como mais um instrumento para o desenvolvimento do projeto e trabalho dos conteúdos.

A partir da soma de experiência das educadoras e das discussões dos novos usos, vocês chegaram a algum ponto-chave? Algo que todas concordavam e que era importante para qualquer projeto que visasse integrar tecnologia e educação?

Sim. O uso do computador pelos jovens, que é o público que a gente trabalha na educação, é muito comum para atividades lúdicas no lazer. É muito comum que os meninos que não têm computador em casa vão às lan houses, mas para jogar, participar de redes sociais. O computador já é uma ferramenta que faz parte do dia a dia deles. Porém, a gente percebeu que para os alunos era difícil entender que eles poderiam usar aquela ferramenta também para aprender. Cabe ao professor mostrar ao aluno que ele pode, por exemplo, utilizar uma rede social para colaborar e aprender. Em primeiro lugar, o professor tem que entender que isso é possível. Daí a importância de uma formação. Em segundo, o aluno tem que ver que é prazeroso aprender usando as mesmas ferramentas que ele usa para o lazer.

Quando um instituto, como o Paramitas, tem diferentes linhas de atuação, como Educação a Distância, Robótica Educacional, Ambientes de Colaboração, o que é determinante para definir qual delas será utilizada em uma instituição?

Depende muito da conversa inicial com a escola. De que momento eles estão na tecnologia. Se precisam de uma atuação mais forte junto aos professores, se precisam de uma atuação mais próxima dos alunos. A partir daí existe um projeto para aquele momento que a escola está vivenciando. E mesmo quando aplicamos um mesmo projeto em duas escolas diferentes, eles não serão necessariamente iguais. O Aluno Monitor, por exemplo, que trabalhamos a partir de uma parceria com a Microsoft, tem um padrão, mas em diversos momentos a gente faz adaptações aos projetos. Para cada situação ele é personalizado. Mas quero destacar que tudo isso é analisado na fase de estruturação, quando levantamos o modelo que vai ser útil para aquela determinada escola, que é quando participamos diretamente. A partir do momento em que o projeto está implementado, contamos com colaboradores, que dão suporte e tocam o projeto conforme o ritmo da escola.

Como vocês fazem a implementação?

Temos dois modelos. Podemos fazer com o investimento de uma empresa parceira ou a partir de parcerias com as secretarias de educação dos municípios.

Nesse um ano de atuação do Paramitas, qual o projeto que apresentou melhor resultado e a que você atribui o sucesso do mesmo?

O projeto que traz mais retorno por parte dos alunos é mesmo o Aluno Monitor (não é o utilizado pela Prefeitura de São Paulo, que tem o mesmo nome), no qual o estudante é qualificado para colaborar no processo de aprendizagem dos colegas. Ele dá tão certo porque, além do conhecimento técnico, proporciona ao aluno formado no projeto um certificado de qualificação profissional. Vemos uma aplicação prática no mercado por causa disso. Em estados como Paraíba, Amazonas, Maranhão, temos depoimentos de alunos dizendo que graças ao Aluno Monitor eles conseguiram o primeiro emprego.

E com o Aluno Monitor vocês já atuaram em quantas instituições?

No Maranhão formamos 90 tutores. No Amazonas já são 75 tutores e 2 mil alunos. No Distrito Federal, apenas em 2008, foram 2.100 alunos formados. E, em São Paulo, são 45 tutores e 2 mil alunos formados. Em outros estados, como Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Piauí, estamos coordenando as ações.

E você percebe uma mudança estrutural nas escolas onde os projetos são desenvolvidos?

Aquilo que nós plantamos fica de alguma forma na escola, mesmo que haja mudança de diretoria, pois os alunos passam a atuar como monitores e os professores passam a pensar mais no uso da tecnologia.

Alguns professores reclamam que para promover essa mudança é preciso também uma cooperação das secretarias de educação no sentido de flexibilizar o conteúdo, não exigir que ele seja passado para os alunos de uma forma tão linear…

O cenário já mudou bastante e existe, sim, um movimento do governo para inserir a tecnologia na educação escolar, mas ainda é preciso muito investimento na formação dos professores. Até para que eles não pensem: “ah, além de toda a grade escolar eu ainda terei que cumprir isso (que é o aprendizado da tecnologia)?” Por isso a formação do professor está presente em todos os projetos do Instituto Paramitas.

E, além dessa questão da formação, há mais desafios importantes?

O nosso desafio hoje é trabalhar a inclusão digital na educação dos jovens e adultos. Em Santo André, estamos  desenvolvendo um projeto com a Secretaria de Educação para pessoas que talvez nunca tiveram contato com a tecnologia. O projeto visa capacitar os jovens e professores sob a tutela da Diretoria de Educação para o Trabalho em Santo André, para que obtenham fluência digital. Os jovens e adultos atendidos pelo programa receberão, ao final, certificação no programa de qualificação profissional e de inclusão digital de 140 horas e receberão certificado da Microsoft de Aluno Monitor, podendo atuar como assistentes técnicos.

Percebe-se que o Paramitas é bem alinhado com a Microsoft, e isso não deixa de ser um reconhecimento para o Instituto. Como foi firmada essa parceria?

Essa parceria começa lá em 2003, quando a Microsoft começou a difundir o programa Aluno Monitor. Naquela época, o Instituto Paramitas ainda não existia, mas as pessoas que hoje fazem parte dele já tinham um trabalho respeitado na temática educação/tecnologia, foram procuradas pela empresa e construíram essa parceria.

Alguma metodologia utilizada pelo Instituto é inspirada em ações da Microsoft que deram certo no exterior?

No projeto Aluno Monitor não temos nenhuma metodologia americana envolvida, foi uma coisa mesmo pensada para o Brasil. Já no Aprender, que visa a formação dos professores a partir do trabalho em pares, há sim, absorção de conceitos de uma ONG americana. Foi mesmo a Microsoft que nos trouxe isso.

 

 

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