Como conteúdo da educação básica, a cultura caipira contribui para a compreensão da diversidade cultural pelos alunos, desfazendo estereótipos. É o que aponta a geógrafa e professora da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) Neusa Mariano. “O caipira não é o Jeca Tatu do Monteiro Lobato, o desdentado e de calça remendada da quadrilha da festa junina ou o ignorante do mundo”, desmistifica.

Os estudantes também podem identificar elementos da cultura caipira na sua própria família. “Isso contribui para autoconhecimento e das próprias origens”, acrescenta a pesquisadora. A sugestão é que o tema seja trabalhado de forma interdisciplinar na escola. “A cultura não é propriedade de nenhuma área do conhecimento”, justifica.

Confira: Podcast – Projeto apresenta histórias e canções da tradição rural brasileira

Em língua portuguesa, a cultura caipira é gancho para discutir preconceito linguístico. “Os alunos podem fazer mapeamentos das expressões caipiras mais significativas”, sugere Mariano. Na geografia, o tema pode ser abordado nas categorias de espacialidade, como território, lugar, região e paisagem. “Na temática da população, temos a diversidade étnico-cultural e racial presente na demografia e na distribuição espacial dessa população. A diversidade também aparece nos processos migratórios: da Grande Imigração para a produção cafeeira à interna, da população do Nordeste para trabalhar em São Paulo”, contextualiza.

Dedo de prosa

Entre os recursos para ajudar a discutir o tema com os alunos da educação básica está a série de podcasts “Bamo Proseá? Cotidiano e Cultura Caipira”, projeto coordenado por Mariano que trata de assuntos relacionados à música, viola, culinária, literatura, crenças e religiosidade caipira. “A Intenção é trazer à evidência elementos presentes no nosso cotidiano”, explica.

“Quando falamos, por exemplo, da mulher violeira no episódio ‘Viola de Saia’, estamos mostrando um lado cultural que precisa ser vencido na sociedade como um todo. Nesse sentido penso que os episódios podem ser o mote de assuntos para além da cultura caipira e em uma perspectiva geográfica”, pondera.

Canções em sala

Músicas são possibilidades de recursos para aula, sejam elas populares — compreendidas como folclóricas e de raiz — ou hits da cultura de massa. Dos clássicos, a pesquisadora sugere Alvarenga e Ranchinho. “São engraçados, mas trazem também críticas políticas em seu repertório”, sugere. Há ainda Inezita Barroso, violeira que foi pioneira na pesquisa e registros de música caipira.

“Da nova geração, veja Fabíola Mirella e Sérgio Pena, o Cláudio Lacerda, o Rodrigo Zanc, a Orquestra Paulistana de Viola Caipira, o Ricardo Anastácio. Temos também Pena Branca e Xavantinho, Rolando Boldrin, Pereira da Viola, Paulo Freire, Ivan Vilela e Bruna Viola”, lista a docente.

Filmes e danças

No campo do audiovisual, boas opções são os filmes Tapete Vermelho (2006) e A Marvada Carne (1985). “Este retrata o estudo de Antônio Candido em Os Parceiros do Rio Bonito, e também os contos de Cornélio Pires”, afirma a pesquisadora. Há, ainda, os documentários “O Brasil Caipira”, parte da série “O povo brasileiro” (2001); “Corpo e Alma” (2003) e “Em Busca do Unhudo” (2013).A religiosidade popular é outro tema rico, como as Festas do Divino Espírito Santo. “A Dança de São Gonçalo, Congadas e Moçambiques também chamam a atenção, além de outras de origem pagã, como o Trança Fitas”, indica Mariano.

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