No segundo dia da Campus Party 2013 acompanhamos a palestra “Livros para jogar, jogos para ler”, que convidou a escritora Simone Campos para falar sobre seu livro-jogo Owned. Com duas versões, impressa e digital, a obra permite que o leitor escolha os rumos de sua leitura e um objetivo, podendo chegar a diferentes desfechos.
Entrevistamos a autora para saber os desafios de aproximar os games da literatura e como esta fusão pode ser interessantes para a educação. A história de Owned não é recomendada para crianças, mas os educadores que se interessarem podem conferir outras histórias em nosso box.
IC – Como começou sua relação com games e literatura?
SC – Meu pai é engenheiro e comprou um computador para ele já nos anos 80, bem cedo, daqueles de letras verdes e fundo preto, e eu comecei a aproveitar para jogar uns joguinhos. Então desde os cinco anos eu comecei a ler e jogar muito.
IC – E em que momento você percebeu que poderia unir os dois universos?
SC – Logo cedo eu percebi que em tudo a literatura estava envolvida, que alguém escrevia a história daquele jogo, tinha um texto por trás daquilo. Comecei a jogar livros-jogos, que eram para crianças, e que demandavam escolhas no meio da leitura. Eu sempre quis fazer isso, mas conseguir unir mesmo um game com um livro só foi no Owned, que eu vi que era capaz.
IC – E os livros que você escreveu antes de Owned já tinham referências a games?
SC – Eu escrevi três livros antes do Owned e tem também um online, mas é muito pouco interativo. “A Feia Noite” tem referências, mas acho que pouca gente percebeu.
IC – E quais são os desafios narrativos de fazer um livro-jogo?
SC – É bem difícil, porque quando você está escrevendo, tudo que você corta tem que ser guardado porque pode ser utilizado em outro caminho. Por exemplo, em um romance normal você teria que limar certos personagens que não são pertinentes, no livro-jogo você pode fazer caminhos diferentes para ele.
Veja livros-jogos que Simone Campos indica para crianças:
IC – Quais são as diferenças entre a versão impressa e a digital?
SC – Em um livro impresso a pessoa tem que ficar pulando (as páginas) com os dedos e eu dou as dicas de pra onde a pessoa precisa ir, são opções que eu proponho. O problema é que você tem que anotar os caminhos, como se fosse a migalha de pão do João e Maria, pra saber exatamente o que está fazendo. No online é tudo automático, mas se você quiser ver o outro caminho possível só consegue pela versão impressa.
IC – E você acha que este modelo acaba chamando mais atenção das crianças por causa do jogo, é uma tendência?
SC – É, já no final dos anos 80 começou esse apelo pela interatividade, mesmo que não fosse tão imediato como no mundo online que veio a estourar depois. Mas eu tenho que tomar cuidado com o Owned porque é um livro adulto e não quero que ele caia na mão de uma criança, por ser online.
IC – Você conhece alguma história interessante sobre o uso desses livros na educação?
SC – Sim, conheço uma história de uma professora que comprou um livro desses, para crianças, levou para a turma ler e fez uma espécie de “você decide”. Então os alunos votavam e a turma ia pelo caminho da maioria. Se chegasse em um final ruim, os outros brincavam com a maioria que fez a escolha errada, e assim ela conseguia fazer uma atividade em grupo com um livro. E hoje em dia, muita gente que gostava desses livros quando era criança é muito bom leitor e até escritor.