Ao conversar com alunos no Ensino Médio é muito comum ouvir que “Matemática é chata” ou “Física é muito complicado”. Mas, na cidade de Joinville, em Santa Catarina, um projeto implantado em 15 escolas públicas tem mudado a opinião dos alunos.
No programa de Educação em Tecnologia e Mobilidade, mais de 800 alunos do Ensino Médio da rede pública estadual têm a chance de entrar em contato com o lado prático das Ciências Exatas, construindo robôs de Lego NXT, projetando satélites e novos equipamentos de energia renovável.
Após as oficinas, os mais interessados são convidados para cursos mais longos, de até 40 horas, e os estudantes que se destacam no processo podem desenvolver, junto à universidade, um projeto de iniciação científica custeado pelo CNPq – antes mesmo de ingressarem no Ensino Superior.
As oficinas são oferecidas pelos próprios professores e alunos de graduação das áreas de Engenharia da UFSC e atingem não apenas os alunos do Ensino Médio, como também os professores da rede pública – que participam de encontros de formação, que os auxiliam a levar para a sala de aula conceitos de Ciência aplicados na prática, tornando o ensino ainda mais atraente.
Para Carlos Sacchelli, coordenador do projeto, um dos fatores que o motivou para pensar nessa formação integrada foi, justamente, o modo tradicional como a Matemática é ensinada nas escolas públicas da rede. “Os adolescentes estão imersos em tecnologia no seu cotidiano, com celulares, tablets e aplicativos, mas raramente conseguem fazer a ponte entre a tecnologia aplicada e os conceitos de matemática ou física que aprendem na escola”, explica.
Os reflexos desse desinteresse aparecem no déficit da formação de profissionais na área de exatas, especialmente no que diz respeito à formação de professores no país. Em 2011, o Censo do Ensino Superior mostrou que os estudantes de exatas estavam entre os que mais abriam mão da licenciatura. Física estava no topo da lista, com 31% de desistência, seguida pela Matemática, com 21,6%.
Para reduzir esse déficit de quase 170 mil docentes na área pública, o Ministério da Educação lançou programas de incentivo nas escolas, como o Programa Quero Ser Cientista, Quero Ser Professor, que ofertou 30 mil bolsas de estudo nas áreas de exatas em 2014.
E os resultados desses esforços em trazer a ciência para perto do cotidiano dos alunos já começam a aparecer. Muitos dos estudantes que participaram das oficinas de tecnologia da UFSC seguiram na área de Engenharia, e alguns, inclusive, foram contemplados pelo programa Ciência sem Fronteiras e desenvolvem, hoje, pesquisas nos Estados Unidos.
Daniela Karolina Rosa, de 19 anos, participou da oficina de robótica e do laboratório de pesquisas em sustentabilidade ainda quando estava no Ensino Médio. Gostou tanto, que se tornou bolsista da CNPq e hoje, cursa a faculdade de Engenharia Civil. “Montamos um projeto de um robô capaz de realizar a coleta do lixo em rios poluídos. Ali, tudo que eu vi na sala de aula começou a fazer sentido e tive, ainda cedo, a certeza de que deveria cursar Engenharia”, explica.
Para Carlos, o sucesso do programa tem sido tão grande que a universidade já pensa em novos projetos e elabora, agora, oficinas de Engenharia só para garotas, a fim de inserir ainda mais as mulheres nos cursos de tecnologia.