Trabalhar a canção popular brasileira em sala de aula. Ao valorizar a adoção dessa prática na educação, a professora adjunta do Departamento de Historia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Miriam Hermeto, escreveu o livro “Canção Popular Brasileira e Ensino de História – Palavras, sons e tantos sentidos”, lançado na última semana.
“A canção é uma produção cultural que cria representação sobre o mundo e pode informar sobre a sociedade brasileira em diferentes aspectos”, afirma a docente, em entrevista ao NET Educação. “Ela tem função protagonista na manutenção da memória do nosso país.”
Para ela, ao levar canções para a aula, os professores devem ir além do que apenas trabalhar a letra musical. Segundo Miriam, é essencial ouvir a música com os alunos, já que o encontro entre letra e melodia constitui parte importante da canção. Confira abaixo a entrevista na íntegra:
NET Educação – Inicialmente, poderia fazer um breve resumo da sua abordagem sobre a canção popular brasileira e o ensino de história?
Miriam Hermeto – Penso a canção como fonte de pesquisa, mas também como objeto, no sentido que ela mesma pode ser investigada, e servir de tema de investigação histórica, a canção como fato social. A canção é uma produção cultural que cria representação sobre o mundo e pode informar sobre a sociedade brasileira em diferentes aspectos.
NET Educação – O livro é dividido em três partes.
Miriam – Isso. A primeira chama atenção para trabalhar desde a produção da canção até as apropriações pelo público. Depois, apresento a trajetória histórica da canção popular brasileira no século XX. E a terceira parte é a mais didática, voltada para como o professor do ensino médio pode analisar documentos na sala de aula, não pensando só na canção em si.
NET Educação – Qual é a importância de trabalhar com a canção?
Miriam – Ela tem função protagonista na manutenção da memória do nosso país. O Brasil tem a característica da oralidade muito presente e por isso a canção ganha destaque. Por meio dela, podemos pensar a história do país. Memória e história são irmãos.
NET Educação – Poderia falar um pouco sobre sua ligação com a canção popular brasileira?
Miriam – Tenho uma formação musical informal. O gosto pela música é algo que me acompanha. Quando comecei a trabalhar como professora na educação básica, tinha a preocupação de levar diferentes linguagens para a sala de aula e tinha facilidade em trabalhar com música. Isso se estendeu também para a pesquisa, porque fui investigar temas da cultura da história brasileira no doutorado.
NET Educação – Os professores têm trabalhado com essa linguagem que é a canção?
Miriam – Na formação de professores, o que venho observando é que muitos trabalham mais para ilustrar determinado fato histórico e não como pesquisa de investigação, fonte que pode informar sobre outros objetos de investigação. Isso parece ser uma demanda dos professores, necessidade de compreender o que chamo de “gramática musical” para aplicar em sala.
NET Educação – Demanda para trabalhar os “tantos sentidos” que você colocou no título do livro?
Miriam – Isso, exatamente. Outra coisa que percebi é que ao levar as canções para a aula, os professores usavam apenas a letra, então destituíam a característica principal da música que é o encontro entre letra e melodia. É interessante ir além e pensar na circulação social da música e nos diversos sentidos que ela venha a ter nessa circulação.
NET Educação – Qual é a relação entre educação e cultura? O que poderia ressaltar?
Miriam – Podemos partir de um ponto que pensamos que educar não é aproximar do conhecimento cientificamente produzido. Mas que o aluno possa ler o mundo dele a partir do conhecimento produzido. Não é interessante que acumulem aprendizado apenas, mas que construam habilidade de leitura do mundo, isso é a questão principal. Alunos que cantam rap compreendam como surgiu? Para responder a que demandas sociais? Isso pode dialogar com outros tempos históricos. A função social da educação escolar é permitir a leitura do mundo a partir das disciplinas.
NET Educação – As escolas têm se preocupado com isso?
Miriam – A escola tem se preocupado e se ocupado disso há pelo menos duas décadas. Não diria que tudo na escola é deslocado. Acho que há projetos e práticas de referência para pensar as canções, tanto em história quanto em outras disciplinas. Mas há um limite, especialmente para os professores da educação básica.
NET Educação – Qual seria?
Miriam – O fato de que o professor é sempre um generalista, e não um especialista nos temas com os quais ele vai trabalhar. A quantidade de demandas que especialmente um mundo digital impõe é enorme. Assim, há dificuldade de operar com a diversidade de demandas impostas. Eles fazem trabalhos usando canção, cinema, fotografia, mas a correria cotidiana não favorece.
NET Educação – A quem o livro é indicado?
Miriam – Particularmente as partes 1 e 2 têm formação interessante para professores de maneira geral e quem se interesse por canção popular brasileira. Já a parte 3 á mais específica para educadores do ensino médio, onde penso como trabalhar as diferentes dimensões históricas da canção. Uma das sequencias de ensino que apresento é a representação do Nordeste na obra de Luiz Gonzaga. Ao final, tem uma lista de documentários sobre canção popular brasileira.