Valorização pessoal, salarial e trabalho em equipe. Essas são algumas características identificadas por Marisa Vasconcelos Ferreira, professora universitária psicóloga e doutora em educação, para tornar o professor um profissional motivado. Em entrevista para o NET Educação, Marisa falou também sobre a importância da formação continuada.

NET Educação – O que você acha que mudou na formação do professor nas últimas 2 décadas?
Marisa Vasconcelos Ferreira –
 Desde a Constituição Brasileira de 1988, há um grande processo de democratização do acesso à escola, o que impacta na formação dos professores. Estamos falando do aumento do número de alunos, de grupos sociais diversos — que antes estavam excluídos da escola — no mesmo ambiente, com um único objetivo: educação. Por isso, começou a ter uma necessidade quantitativa de professores.

Depois, fez-se necessário focar em atender essa diversidade de pessoas com ensino de qualidade, visando o acesso e a permanência dele na escola, para que a escola cumpra seu papel de formar cidadãos. Ou seja, nesses 20 anos foi preciso alinhar a formação dos professores à democracia, focado no princípio de que todos têm direito à educação.

NET Educação – E na educação infantil, como é a formação do professor?
Marisa Vasconcelos Ferreira –
 O desafio é ainda maior, pois, de acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) – que define e regulariza o sistema de educação brasileiro com base nos princípios presentes na Constituição –, a educação infantil é a primeira etapa da educação básica e também necessita de objetivos pedagógicos. Para isso, precisa ser atendida por professores com formação superior, ou magistério, cursado no ensino médio.

Mas ainda podemos observar nas escolas de Educação Infantil a composição de um quadro profissional com um professor titulado, que atende a legislação, e educadores leigos, àqueles que não possuem formação, mas desenvolvem tarefas educativas e trabalham com as crianças – resquícios de uma época que a profissionalização passava no âmbito da experiência e não da formação.

NET Educação – E você acha que só a formação superior basta?
Marisa Vasconcelos Ferreira –
 Não adianta colocar formados e não programar uma formação continuada, para chegar a uma condição de trabalho concreta. Há diversas formas de capacitar e atualizar este profissional. Hoje temos ações feitas pelo MEC em parceria com secretarias de educação; formação realizada pelas próprias secretarias; formação no âmbito da própria instituição, momentos de trabalho coletivo, de acordo com as necessidades pedagógicas da unidade; e a formação que cada profissional pode buscar para se especializar.

O importante é que esse ciclo aconteça, não dá para esperar iniciativas só do MEC, ou só do professor. É necessário completar o ciclo: MEC, Secretaria de Educação, Escola, Professores e Gestores de ensino, cada um se apoiando.

NET Educação – Recentemente a Folha de S. Paulo divulgou uma pesquisa em que metade dos estudantes de licenciatura não quer lecionar. Na sua opinião, qual o principal motivo por esse desinteresse?
Marisa Vasconcelos Ferreira –
 Quando fazemos uma pesquisa na área dos professores, observamos que a docência entra como algo passageiro. Alguns terminam a licenciatura e se tornam professores como falta de opção do mercado de trabalho.
Um dos motivos é que ser professor não tem se tornado projeto de vida desses recém-formados. E se não acredito que aquilo faz parte do meu projeto de vida, não me vinculo àquilo.

Outro ponto é a forma como estes professores em início de carreira têm sido acolhidos. É inevitável um choque de realidade quando sai da faculdade, que é um ambiente mais protegido, e adentra na realidade concreta – a escola causa surpresa.
É comum colocar o professor, em seu primeiro ano de atuação, na turma mais difícil para testá-lo. A pessoa está começando a vida naquela instituição e vai logo pegando a sala mais complicada, aí ele já começa a carreira ansioso e estressado.  E se ele começar a ter dúvida, ele conclui que ali não é o lugar dele.

NET Educação – Como deveria ser esse acolhimento?
Marisa Vasconcelos Ferreira –
 É preciso pensar em estratégia de acolhimento, visando em colocá-los juntos a professores mais experientes –  que também precisam ser formados para serem formadores, porque algumas vezes ele está preocupada em dar aula e não com o novato. Também é necessário organizar o espaço, dar segurança, mostrar que ali, na escola, ele um espaço de troca de conhecimento. E esse é um desafio da educação básica até a superior, pois é difícil chegar, as vezes não sabemos onde tirar cópia.

Se pensarmos na escola, creche, universidade como projetos coletivos, temos que pensar e avançar mais na ideia do coletivo, focando no fortalecimento das equipes, na união e compartilhamento de ideias. E se a educação é o mais importante para o desenvolvimento de uma sociedade, precisamos pensar no coletivo, na cooperação.

NET Educação – Como motivar os jovens de hoje se tornarem os educadores de amanhã?
Marisa Vasconcelos Ferreira – 
É preciso considerar que ser professor é uma carreira profissional, de grande importância, que também exige condições de trabalhos concretos, somado a valorização pessoal e salarial. No Brasil ainda temos um grande desafio de consolidar os direitos que já alcançamos. Ainda temos o desafio de buscar melhores condições de trabalho, destacar a importância do trabalho em equipe e a integração. O professor entra muito sozinho na sala de aula, precisa de mais articulação com a instituição de ensino e seus profissionais.

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