Educação 3.0 é um termo que surgiu recentemente para ressaltar a importância de preparar estudantes para a era digital, um mundo dominado por avanços tecnológicos acelerados que têm propiciado acesso e construção de conhecimentos, bem como novas formas de aprender. “Há muito que discutir, estudar, implementar, analisar e avaliar por todos. E aí é que está a chave”, acredita a pesquisadora e professora da Open University, Alexandra Okada.
Também especialista em Recursos Educacionais Abertos e Redes de Coaprendizagem, Alexandra concedeu entrevista exclusiva ao NET Educação por e-mail de Londres, onde mora há oito anos. “É fundamental, portanto, que todos possam desenvolver suas competências como cidadãos e profissionais capazes de coaprender e atuar nesta era do conhecimento digital”, aponta. Confira abaixo!
NET Educação – Como estão as pesquisas para modelos de aprendizagem que contemplem um mundo digital?
Alexandra Okada – Educação 3.0 é um termo que surgiu recentemente visando ressaltar a importância de preparar os estudantes para era digital. As pesquisas realizadas que abordam teoria e prática são poucas. O ponto inicial é considerar Educação 3.0 como um conceito em construção ao invés de uma solução pronta para os problemas da área educacional. Há muito que discutir, estudar, implementar, analisar e avaliar por todos. E aí é que está a chave. Como processo em construção, todos nós – educadores, aprendizes, pesquisadores, especialistas e leigos precisamos ser protagonistas (investigadores e coautores) – nesta definição de Educação 3.0.
NET Educação – O caminho então é uma construção colaborativa?
Alexandra – Isso. Se a grande maioria colaborar neste debate global, personalizar estratégias, conectar princípios e ações e compartilhar resultados abertamente via tecnologias, estaremos, então, construindo Educação 3.0, partindo de nossas vivências conectadas em rede. Conceitos bem similares como e-learning 2.0 (Downes, 2005) e future open education (Wiley, 2010) são caracterizados por ricas oportunidades de aprendizagem transculturais. Aprendizes em qualquer lugar do mundo, a qualquer momento, podem construir, remixar e recompartilhar conhecimentos colaborativamente em vários formatos, por meio de diversas mídias e redes sociais de modo aberto.
Veja aqui um vídeo sobre cultura compartilhada e recursos abertos. A narração é da Alexandra Okada.
NET Educação – Isso já vem acontecendo?
Alexandra – Aprendizagem com a web 2.0, Recursos Educacionais Abertos e Redes Sociais vem já ocorrendo de modo informal principalmente entre usuários que tem domínio das tecnologias. Um exemplo é a Comunidade de Coaprendizagem COLEARN, na qual pesquisadores, docentes e estudantes de especialização e graduação produziram uma obra (REA via Redes e Mídias Colaborativas). Para quem tem maior facilidade com “aprender a aprender” na web 3.0 podem usufruir ainda mais de buscas avançadas, redes semânticas, serviços automatizados e ambientes personalizados. Algumas ações estão ocorrendo também na educação formal com incentivo das instituições acadêmicas que participam de redes colaborativas de pesquisa e aprendizagem, propiciando a conexão inclusive de participantes em diferentes países. Uma das grandes vantagens de ter iniciativas na educação formal é contar com o apoio de docentes ou mentores especialistas para facilitar o processo com orientação, feedback e certificação.
NET Educação – Poderia ressaltar outras práticas interessantes?
Alexandra – Em 2003 e 2004, antes de eu mudar para Inglaterra, tive oportunidade de acompanhar dois projetos internacionais de aprendizagem aberta colaborativa e personalizada no ensino básico. Eles surgiram no Reino Unido e foram apresentados em vários locais, incluindo em São Paulo. Foi oferecido também um workshop para professores compreenderem e discutirem não só o uso das tecnologias, mas também contribuírem com princípios para guiarem as ações pedagógicas. Os professores interessados, tanto de escolas particulares como públicas, trouxeram seus estudantes para atuarem nos projetos.
O primeiro projeto de coinvestigação, chamado “Science Across the World”, aprendizes orientados por docentes eram responsáveis por trocar dados, analisar comparativos, compartilhar resultados e feedback por meio da internet.
No segundo, sobre ciência atualizada, denominado “Science Upd8”, aprendizes tinham que refletir sobre notícias online publicadas no mundo, participar de debate sobre o assunto e realizar uma atividade colaborativa visando desenvolver o próprio pensamento crítico-ético-cientifico com estudantes de outros países. Para isso, era utilizada internet para pesquisa e troca de e-mails, e algum software e aplicativos para criação de uma produção feita pelos estudantes também compartilhada via e-mail.
NET Educação – Mas, ainda não havia o termo 3.0 nessa época…
Alexandra – Nem o termo web 2.0 não tinha surgido. Não havia ambientes digitais personalizados e nem dispositivos móveis na educação. No entanto, a aprendizagem aberta, colaborativa, digital, transcultural, personalizada e conectada estava incorporada nesses projetos. Claro que são como grãos de areia num deserto. As iniciativas precisam crescer cada vez mais. E claro que a web 2.0 e web 3.0 pode facilitar muito mais isso. No entanto, é importante destacar que não podemos esperar pelo domínio dos últimos avanços tecnológicos para inovar. Por exemplo, tablets nas escolas é algo muito bom, porém é essencial orientar seu uso para que ocorra mesmo inovação na aprendizagem.
NET Educação – Quais são os principais problemas que o Brasil precisa superar para seguir rumo a Educação 3.0?
Alexandra – Vários desafios continuam ainda sendo prioritários como analfabetismo, evasão escolar, letramento digital, infraestrutura, formação docente. A participação ativa procurando romper as barreiras é essencial. Quando estive no congresso da Unesco, em Paris, este ano, conheci uma professora do Amazonas que estava apresentando um trabalho muito interessante sobre multiculturalismo e povos indígenas. Conversamos sobre principais problemas que enfrentamos sobre tecnologia na educação. Ela, então, relatou que a escola da cidade dela recebeu finalmente computadores para serem usados pelos alunos. No entanto, por não ter energia elétrica nas salas de aula, os computadores estavam lá parados por muito tempo. Além disso, ela conta que foi difícil inscrever o trabalho dela na Unesco, porque a conexão da internet da cidade é extremamente lenta.
Mas, fato é que a professora do Amazonas estava lá em Paris fazendo sua leitura-escrita dos problemas que ela enfrenta com participantes de vários outros países. A resposta aqui não é apenas listar os problemas, mas sim, discutir com o mundo e pensar em soluções em conjunto. Esse movimento precisa se ampliar cada vez mais e isso está ocorrendo não só com docentes, e jornalistas, mas também estudantes estão descrevendo problemas da educação usando web 2.0. Como Isadora Faber, com o “Diário de Classe” no Brasil e Martha Payne, com o blog NeverSeconds na Escócia.
Veja abaixo outros exemplo práticos para aprendizado colaborativo e personalizado indicados pela Alexandra Okada, e seus comentários sobre cada um:
VOO Brasil França e Portugal – aborda a vida de Santos-Dumont e reuniu estudantes de escolas desses três países. O ponto de partida foi a interpretação de uma obra de literatura infanto-juvenil sobre Santos Dumont, e a troca de informações entre os estudantes. Os participantes utilizaram aplicativos da web 2.0 para discussão e construção colaborativa tais como FlashMeeting para webconferência e produção de um blog coletivo. No final do projeto, os estudantes e professores realizaram uma webconferência com o escritor brasileiro do livro, pesquisadores e também representante do Ministério da Educação de Portugal. Esse projeto foi premiado como uso de tecnologias para inovação da escola no concurso internacional promovido pela Microsoft.
WESPOT (Working Environment with Social and Personal Open Tools for inquiry based learning) – financiado pela comunidade europeia, tem como objetivo desenvolver ambientes de trabalho para aprendizagem, baseada em investigação com tecnologias sociais, personalizadas, analíticas, colaborativas e móveis. Trata-se de um projeto novo (período de 2013 a 2015) e pretende propagar a pesquisa científica como a abordagem para a ciência de ensino e aprendizagem em combinação com práticas atuais, currículos e ensino. A intenção é convidar escolas no Brasil para participar também. A rede colaborativa do WebSpot visa propiciar a coinvestigação e construção coletiva tanto formal como informal, ou seja, criar oportunidades para que os coaprendizes possam interagir com suas investigações em situações do cotidiano tanto na escola como fora.