As atividades educativas estão extrapolando o muro das escolas. É cada vez mais expressiva a oferta de atividades sócio educativas elaboradas a partir de parcerias entre escolas e organizações do terceiro setor, ou destas com instituições privadas, e que têm por objetivo articular crianças e jovens de diversos setores da sociedade em atividades culturais. Na visão de Regina Inês Villas Bôas Estima*, geógrafa, pedagoga pela USP, e atuante na área de projetos apoiados do Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária) o cenário aponta para uma educação integral, e deve ser visto com olhar de cooperação e não de competição. “A parceria se traduz na ideia de cidade educadora, onde ONGs, escolas e diferentes instituições são responsáveis pela educação de crianças e adolescentes.”
A especialista conta com exclusividade ao NET Educação como esse relacionamento entre escolas e ONGS pode ser iniciado e mantido, e quais os ganhos para ambas as instituições. Confira!
NET EDUCAÇÃO – Como se inicia o relacionamento entre uma ONG e uma escola?
Regina Estima – O relacionamento pode iniciar-se a partir de uma resposta às demandas da comunidade, ou seja, a partir das relações existentes no micro território em que ONGs e escolas compartilhem de problemas semelhantes (dificuldade de aprendizagem; procura por espaços para atividades socioeducativas; altos índices de vulnerabilidade social etc.). Ou ainda como resultado de uma política pública indutora dessa parceria, como no caso de São Bernardo do Campo, que entende essa parceria como um princípio ético-político que viabiliza a educação integral.
NET EDUCAÇÃO – Quais benefícios a proximidade ONG/escola traz para as instituições escolares?
Regina Estima – Na medida em que as propostas educacionais das ONGs e escolas são produzidas em parceria, os maiores beneficiados são as crianças. Para as instituições escolares os benefícios podem se traduzir em um maior reconhecimento comunitário sobre a importância do papel da escola na formação dos cidadãos. A escola deixa ser reconhecida como uma instituição que apenas transmite conhecimentos (matemática, português, história geografia..) e passa a ser vista como parceira na tarefa conjunta de formar cidadãos em suas múltiplas dimensões (biológica, psicológica, emocional, ética e socioambiental).
NET EDUCAÇÃO – E em relação às ONGs, quais benefícios podem ser citados?
Regina Estima – As ONGs e também os movimentos sociais têm muito a aprender com as escolas, como por exemplo, as metodologias de planejamento das ações e de formação de agentes educacionais.
NET EDUCAÇÃO – O relacionamento ONG/escola ainda passa por alguma dificuldade? Se sim, quais?
Regina Estima – Do ponto de vista teórico-prático já são comprovados os inúmeros benefícios dessa parceria para as ONGs, escolas e também no que diz respeito à ampliação da capacidade de aprendizagem das crianças. No entanto, não são as ONGs e escolas que se relacionam. Quem estabelece e realiza essa parceria no cotidiano são as pessoas envolvidas, e seus diferentes níveis de compreensão. Nesse sentido, é um relacionamento marcado pelo tencionamento e pela fluidez, na medida da capacidade de articulação dos agentes envolvidos.
NET EDUCAÇÃO – Quais são os desafios permanentes da parceria entre ONGS e escolas?
Regina Estima – Manter o foco da parceria, a saber, a aprendizagem das crianças e adolescentes. Essa parceria deve promover sempre a ampliação do repertório cultural e informacional , permitir o desenvolvimento das capacidades de convivência e participação na vida pública, bem como construir valores éticos e estéticos, das crianças, adolescentes e jovens.
NET EDUCAÇÃO – As ONGs estão mais associadas à aprendizagem de temas transversais, correto? Como garantir a aproximação de tais temas ao conteúdo curricular das escolas de maneira positiva e benéfica?
Regina Estima – O primeiro passo é compreender tanto os temas transversais como os saberes das disciplinas escolares como Currículo. Esses saberes não estão fragmentados. É possível dançar e entender a matemática dos movimentos; é possível dramatizar e promover o letramento; praticar esporte e estudar a história dessas modalidades esportivas e de seus povos.
Do nosso ponto de vista, a aprendizagem é um processo ininterrupto que se inicia com o nascimento e que se estende por toda a vida. Sempre existe a possibilidade de aprender coisas novas, desde que tenhamos vontade e motivação para aprender e que existam, principalmente, condições facilitadoras para o processo de aprendizagem.
O aprendizado diário acontece ao ouvirmos outras pessoas, ao dialogarmos ou discutirmos, ao entrarmos em contato com o conhecimento construído pela humanidade, ou mesmo com práticas culturais e valores expressos na sociedade.
A ONG entra na relação com os saberes e fazeres da cultura local decorrentes de sua missão, das causas que defende e dos saberes construídos na comunidade. A escola entra com os saberes considerados mais universais e formais e que precisam dialogar intensamente com os saberes locais, para construir sentidos e significados para o aprendizado das crianças.
O desafio para ambas será o de construir situações de aprendizagem vivas e relevantes.
NET EDUCAÇÃO – Como você avalia a troca de conhecimentos e aproximação entre os professores e os educadores sociais?
Regina Estima – O aprendizado é mutuo e ambos apresentam saberes e experiências ricas e diversas que empoderam a capacidade educativa de cada um. Saber ensinar, como afirmava Paulo Freire, exige respeito aos saberes dos educandos, criticidade, postura ética, humildade e tolerância, risco, aceitação do novo e rejeição a qualquer forma de discriminação. Essas capacidades devem estar presentes tanto nos professores como nos educadores sociais.
NET EDUCAÇÃO – De que maneiras a aproximação ONG/escola pode extrapolar os muros da escola beneficiando, por exemplo, familiares e comunidades do entorno?
Regina Estima – É especialmente na escola, na família e na comunidade que “aprendemos” e compartilhamos as coisas que nos constituem – regras, valores, práticas culturais, tradições, saberes e o conhecimento acumulado pela humanidade. Apesar de a escola ser responsável por nossa formação intelectual e moral, é fundamental reconhecer a importância das aprendizagens que se dão fora dos muros da escola, no interior das relações familiares e na comunidade em geral.
É preciso incorporar a família e diferentes atores da comunidade na gestão e nos processos decisórios da escola e da ONG. Não basta apenas chamar a família para apresentar resultados ou pedir apoio em determinados momentos. Só se constrói pertencimento e identidade com participação efetiva.
Acreditamos muito nos princípios da cidade educadora, ou seja, na apropriação pelas crianças, famílias e educadores, dos bens materiais e imateriais presentes no território. Essa relação que na maioria das vezes é alienada, pode ser extremamente educativa se for transformada em objeto de estudo das ações pedagógicas.
Gostamos do ditado africano que diz: “que é necessário toda uma aldeia, para educar uma criança”.
Educar é tarefa e responsabilidade de todos. É muito mais complexo que instruir.
* Colaborou com a entrevista Alexandre Isaac, sociólogo, atuante em formação de professores e educadores sociais e articulação institucional para desenvolvimento de projetos de cultura, educação e assistência pelo Cenpec.
| Caminhos da escola: Escola e Comunidade Derrubando Muros
O programa Caminhos da Escola traz um episódio em que o tema central é a relação entre a escola e a comunidade. Confira! https://youtu.be/QC6mKGIo3eQ
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Para Saber Mais:
-Avaliação de percurso: fortalecer organizações sociais e induzir políticas de Educação Integral – coordenação geral de Maria do Carmo Brant de C-São Paulo: Cenpec,2008
– Educação Integral (portal do Cenpec)
– Mais Educação (portal do MEC)
-Prêmio Itaú Unicef- Educação e Participação- Tempos e espaços para aprender – 2009- fundação Itaú Social/Unicef/Cenpec
– Pátio Revista Pedagógica – Educação integral- a relação da escola com a cultura e a sociedade- Ano XIII- n° 51 –ago/out 2009 –artmed editora