Na era das novas tecnologias, redes sociais e da facilidade da busca de informações e conhecimento, Ivete Pieruccini, Docente e pesquisadora da Escola de Comunicações e Artes, da Universidade de São Paulo, conversa com o NET Educação sobre o importante papel das bibliotecas neste cenário, além da importância do profissional de biblioteconomia.
NET Educação – Como as bibliotecas se adaptaram com a massificação do acesso à informação, por meio das novas tecnologias?
Ivete Pieruccini – Trata-se de um processo, elas não se adaptaram, mas tomaram a consciência de que biblioteca, antes vista como lugar quase único pela busca de informação, está na concorrência do conhecimento. É necessário sair do foco do acesso à informação e ir para apropriação da informação.
Lidar com esse novo quadro não é tão simples, o excesso de informação, se não souber lidar, pode ser um problema. E isso implica em formação de pessoas, desenvolvimento de produtos informacionais diversificados, que não acontecem por um passe de mágica. Implica, inclusive, em novos modos de relações.
NET Educação – O que seriam estes novos modos de relações?
Ivete Pieruccini – Seriam a apropriação do conhecimento. Faço parte de um grupo de pesquisa, da Universidade de São Paulo mediado por Edmir Perrotti, que trabalha numa área de conhecimento que chamamos de Infoeducação, onde a maior preocupação são os dispositivos informacionais, sobretudo as bibliotecas escolares – que não devem cumprir o papel de fonte única de informação, mas desenvolver experiências com informação.
NET Educação – E como seria essa formação profissional?
Ivete Pieruccini – É a formação de novos profissionais como mediadores e não ‘informativos’, não tratar as pessoas como meros consumidores de informação. Estão sofrendo com as novas tecnologias, porque estão com a lógica antiga.
NET Educação – Então houve uma mudança no perfil do Bibliotecário?
Ivete Pieruccini – Sim, é uma profissão muito antiga, que sofre enormes variações. A biblioteca e a biblioteconomia nascem na preservação da memória, já com as novas demanda ainda não estão com o papel muito definido.
O Bibliotecário não é um mero técnico, ele deve ser visto como um mediador da informação, aquele sujeito que se caracteriza por criar elos entre produção da informação e as pessoas, além de dar condição de construir autonomia, nessa avalanche informacional.
Na USP temos um fluxo de 35 alunos que ingressam no curso de biblioteconomia a cada ano, e que vem em geral numa perspectiva de trabalhar em biblioteca, mas percebem que as possibilidades de inserção no mercado de trabalho são mais amplas e com enfoques diferenciados.
NET Educação – Os cursos tiveram de se adaptar com as novas tecnologias?
Ivete Pieruccini – Com certeza! Existem Várias disciplinas hoje dedicadas a isso, e a reflexão do papel dessas tecnologias no campo.
NET Educação – O Instituto Pró-Livro divulgou uma pesquisa em que 70% dos entrevistados encaram a Biblioteca com um lugar de estudo, porém só 7% deles frequentam uma biblioteca. Na sua opinião, o que as bibliotecas podem fazer para manter seus visitantes?
Ivete Pieruccini – O papel tradicional da biblioteca pública, por exemplo, tem que refletir às novas situações do momento, sem perder a essência, considerando qualidade das instalações, pensando no tempo de permanência dos visitantes – luminosidade, mobiliário, cadeiras confortáveis –; configurações físicas, como sinalização adequada para todos os públicos, dos que sabem ler, aos que ainda não conhecem todos os símbolos de linguagem; acervo diversificado temático e de suporte de linguagem – que seja interessante até para quem não sabe ler, para que eles possam adentrar no universo cultural; ter ações de integração de diferentes segmentos, como convidar autores para conversar com as pessoas; e ter as leituras tradicionais, mas ter, por exemplo, a literatura de cordel.
É preciso ver a biblioteca como um lugar que nós aprendemos a informação, que não é um dado neutro é um dispositivo produzido por alguém.