Escolas inclusivas, cidadãs, solidárias e de qualidade social para crianças e adolescentes, e além, para qualquer cidadão, tem sido assunto de destaque em fóruns, congressos e na mídia em geral.
Políticas públicas que estabelecem metas e obrigações sobre o tema existem, mas ainda não são suficientes. Porém, a discussão, e principalmente as atitudes, para uma mudança gradativa e sólida, tem se consolidado e trazido bons exemplos que podem ser aplicados em todos os territórios brasileiros.
Para discutir a importância de “aprender brincando”, o NET Educação entrevistou com exclusividade Ana Maria Ferlin, pedagoga, com especialização em Docência da Educação Infantil; e Daisy Aparecida Corrêa Gomes, graduada em Educação Física e pedagogia, com especialização em Psicopedagogia e Docência da Educação Infantil.
Ambas são autoras do título “Atividades criativas para se apropriar do conhecimento na sala de aula”, que será lançado pela Editora Vozes.
Leia abaixo os melhores momentos da entrevista:
NET Educação – Por que sentiram necessidade de escrever um livro com atividades direcionadas ao desenvolvimento infantil?
Ana Ferlin e Daisy Gomes – A Pedagogia da infância propõe o estabelecimento de um espaço para vivências afetivas, encontros, conflitos, ampliação de repertórios culturais. Trabalhar na educação Infantil implica ser um profissional especialista em desenvolvimento humano. Significa acompanhar passo-a-passo, o processo pelo qual todo ser humano passa e intervindo sobre o emotivo e o cognitivo, o sensível e o inteligível.
Por estarmos em contato direto com crianças e professores, pensamos contribuir com atividades que possam enriquecer o trabalho destes profissionais no seu dia a dia, lembrando que esse primeiro ano do ensino fundamental precisa ser visto e pensado dentro de uma perspectiva lúdica, atendendo as necessidades da criança pequena.
Além disso, já temos outros livros escritos neste mesmo enfoque e pela Editora Vozes é o segundo. O primeiro foi “90 Ideias de Jogos e Atividades para sala de aula”, já na 4ª edição e agora “Atividades criativas para se apropriar do conhecimento na sala de aula”, que será lançado na Livraria Para Ler, próximo ao Ribeirão Shopping, no dia 16 de agosto, 5ª feira a partir das 19h. Ribeirão Preto (SP).
NET Educação – O livro reúne diversas sugestões de atividades práticas, cada qual atrelada a uma área do conhecimento. Falem sobre o papel de tais atividades na aprendizagem dos alunos.
Ana Ferlin e Daisy Gomes – Trabalhamos com as áreas de conhecimento que compõem o currículo do Ensino Fundamental de nove anos.
As atividades tentam contribuir para a melhor compreensão por parte dos alunos. Tem como objetivo ampliar e consolidar o desenvolvimento da criança, integrando-a em seu meio social, cultural e político de maneira ativa, como sujeito capaz de contribuir na evolução histórica do ser humano.
A ideia é que os alunos se apropriem do conhecimento, construam conceitos, vivenciem experiências de forma lúdica e sintam prazer em aprender.
NET Educação – Como deve ser feita e orientada a transição escolar do Ensino Infantil para o Ensino Fundamental?
Ana Ferlin e Daisy Gomes – A passagem da educação infantil para o Ensino Fundamental deve ser sem ruptura e sequencial.
A educação infantil deve se preocupar com a formação integral da criança, que está em formação e é um ser em desenvolvimento, que constrói dia a dia o aprimoramento das capacidades próprias do humano e que possui aspectos cognitivos, psicomotores, fisiológicos e sócio afetivos.
Como já falamos anteriormente, as atividades do nosso livro estão focadas no currículo do Ensino Fundamental de 9 anos.A transição da Educação Infantil para o Ensino Fundamental ocorre naturalmente para o Ensino Fundamental, quando as escolas que trabalham com as crianças pequenas têm como objetivo maior a aprendizagem através do lúdico e desenvolvem uma abordagem dentro das diferentes linguagens.
Uma das questões que pensamos deve ser mais bem pensada é a formação e o preparo desse educador que está recebendo essa criança no primeiro ano. O professor é um participante ativo; um provocador de conflitos positivos; suporte e apoio no processo; mediador preocupado com o processo e não apenas com o produto. Professor é mediador, é para estar junto, é desafiar, orientar por meio de reflexões para facilitar descoberta de mundo e de si mesmo.
NET Educação – Nessa fase da vida escolar, quais habilidades e competências são importantes que os alunos desenvolvam?
Ana Ferlin e Daisy Gomes – A infância, período marcado pela apropriação de imagens e representações, ressalta o valor do brinquedo e das brincadeiras, e sua devida importância funcional e simbólica. A criança se desenvolve nas interações, com o outro, com o ambiente e com as novas tecnologias, cujos efeitos são a disseminação cultural.
Cabe ao professor ser mediador nas ações pedagógicas entre a tradição cultural-passível de ser resinificada e as novas tendências tecnológicas inovadoras, explicitado nos brinquedos que permeiam o cotidiano das crianças. Dai a necessidade da mediação entre o tradicional e o tecnológico, pois um e outro desenvolvem habilidades diferentes.
As novas tecnologias devem ser instrumento facilitador na formação e no desenvolvimento dos sujeitos letrados, conscientes, e que, ao lado de outros brinquedos manipuláveis e brincadeiras, sejam instrumentos para ampliação de conhecimentos e a melhoria das práticas sociais no mundo globalizado, onde não é mais valorizado apenas a quantidade de fórmulas e conceitos que o aluno aprende.
Os conhecimentos cognitivos podem ser teóricos, práticos, julgamentos, intuições baseadas nas experiências, percepções, valores, avaliações, etc. O importante é a capacidade que o aluno adquire de usar o conhecimento e continuar sempre aprendendo e a facilidade de mobilizar os recursos cognitivos para enfrentar situações várias no seu. A competência adquirida através do desenvolvimento das habilidades tem sentido no contexto de uma situação.
NET Educação – Quais dicas deixariam aos educadores para que insiram em meio às suas práticas atividades criativas e que estimulem o conhecimento?
Ana Ferlin e Daisy Gomes – O primeiro passo, a abertura para o novo. A coragem de lançar-se, de experimentar. A criança precisa encontrar o espaço do desvendar, do raciocínio lógico, da arte, do jogo simbólico, da leitura, num ambiente instigante, estimulador, organizado em espaço e tempo, ou seja, precisa ter rotina estabelecida, que contemple as respectivas áreas de conhecimento e do desenvolvimento, proporcionando-lhe momentos de organização interna.
A criança, no início de sua vida, não tem a habilidade para agir sobre as coisas que a cercam e esse período é relativamente prolongado. Garantir o espaço da brincadeira na escola, em seu sentido amplo, tem por excelência possibilitar o desenvolvimento de uma criança criadora, autônoma e consciente.
O segundo é que ao trabalharem nossas sugestões, as enriqueçam, pois este é o grande objetivo de quem escreve. Tivemos o cuidado de deixar um espaço de criação para que o profissional não se sinta engessado ao trabalhar dentro de sua realidade, e quem sabe, também passem a compartilhar suas experiências como tivemos oportunidade de fazer.
O educador precisa compreender que o saber deve sempre ser compartilhado com outros educadores. Ninguém cria do nada, mas sim recria o que já está posto. Esta é a história da educação, a história da humanidade. O saber e as experiências exitosas não devem ficar trancadas em uma única sala de aula e sim compartilhadas com todos os que acreditam, vivem e amam a educação.
O terceiro é que acreditem no que estão fazendo, como estão fazendo, para que e para quem. Por isso a importância de investir na própria formação e desenvolver seu potencial de criação.