Luzia de Maria, “leitora”. Dessa forma a professora, que tem hoje 15 livros publicados e atuou por mais de 30 anos no magistério, aposentou-se como docente titular pela Universidade Federal Fluminense (UFF), gosta de se definir. Para ela, o livro não se tornará coisa do passado. “A sobrevivência do livro será garantida pelos leitores”, afirma.

Apesar do avanço das tecnologias e de formas inovadoras de interação, ela aponta que a leitura faz a diferença para a formação de “uma visão de mundo ampla e consistente”. “Acredito que a evolução de uma pessoa decorre das experiências que teve, e – é bom lembrar – a leitura é uma forma de experiência”, ressalta ela

“Vivo em permanente duelo com a vasta pilha de livros que teimosamente cresce aqui ao meu lado”, conta a “leitora” que também criou e ministra o curso a distância “Leitura e Formação de Leitores”, na Fundação Centro de Ciências e Educação a Distância do Estado do Rio de Janeiro (Cecierj). Acompanhe abaixo mais da entrevista que o NET Educação fez sobre o assunto.

NET Educação – A senhora escreveu o livro “O Clube do Livro – Ser leitor, que diferença faz?”. E qual é a diferença que faz alguém ser leitor?

Luzia de Maria – Um bom leitor tem domínio da própria língua e é capaz de utilizar de forma eficiente a escrita/leitura, tanto para construir e atualizar seu conhecimento, como também para difundir e partilhar o que sabe, e interagir com segurança em uma equipe de trabalho, por exemplo.  Tem uma visão de mundo ampla e consistente, é capaz de ler as entrelinhas, tanto nos textos como nas relações sociais, e adquire recursos para argumentar e convencer. Acredito que a evolução de uma pessoa decorre das experiências que teve, e – é bom lembrar – a leitura é uma forma de experiência.

NET Educação – Com as novas tecnologias, maneiras diferentes dos alunos se informarem, as redes sociais… Como acredita que o livro sobreviverá ao século XXI?

Luzia de Maria – O que eu defino como “ser leitor” é bem mais do que apenas o ato de se informar. No curso que ministro, o “Leitura e Formação de Leitores”, temos 400 vagas a cada semestre e, no último, tivemos 1.480 inscrições. Entro nas livrarias e vejo uma avalanche de novos livros, vindos das mais remotas regiões. Acho que nunca buscamos tanto a leitura, e nunca convivemos com uma oferta tão imensa. Prefiro acreditar em Umberto Eco, no livro “Não contem com o fim do livro”, que “o computador nos reintroduz na galáxia de Gutenberg, e doravante todo mundo vê-se obrigado a ler”.

NET Educação – A senhora comentou que seu livro sairá em e-book. Quando isso acontecerá? O e-book garantirá a sobrevivência do livro?

Luzia de Maria – Muito mais que o feixe de folhas de papel que constitui o livro impresso, o que importa é o tecido de palavras que as folhas transportam. O que nos move são as ideias veiculadas pela escrita. Meu livro será comercializado no formato e-book, porque as editoras devem corresponder aos diferentes interesses dos leitores. Isso deve ocorrer logo. Quanto à última pergunta, penso que não será o e-book a garantir a sobrevivência do livro. A sobrevivência será garantida pelos leitores. Pelos apaixonados leitores, esses que se filiam à tradição humanista a que pertence um Umberto Eco, um Harold Bloom, um Zygmunt Bauman e tantos outros homens raros.

NET Educação – Existem afirmações que dizem que o livro é coisa do passado. O que poderia dizer sobre isso?

Luzia de Maria – Não sou muito boa nessa coisa de profetizar. Particularmente, considero uma lástima quando um jovem é introduzido na era da informática, sem ter vivenciado a era da imprensa. Quando o jovem trafega no mundo da internet, sem antes ter descoberto a escrita, se tornado leitor. Observo que muitas vezes ele acaba tendo uma visão distorcida dos fatos. A internet pode ser uma riquíssima biblioteca, mas também pode ser um mundo superficial e extraordinariamente fútil, para aqueles que ali chegam sem bagagem cultural que lhes dê sustentação.

NET Educação – Nesse sentido, a leitura tem um poder libertário e transformador?

Luzia de Maria – Sim, eu acredito plenamente nisso. Para a mobilidade do conhecimento e sua permanência, o melhor veículo é sem dúvida a escrita. A leitura amplia a bagagem de referências, oferece recursos para maior compreensão da própria vida e do Outro, e isso lhe possibilita autoconfiança e autonomia. Um leitor sabe que é capaz de aprender sozinho, de usar a escrita como trampolim para atingir o saber. Do ponto de vista profissional, neste século XXI, de rápida e permanente mudança, esse é o sujeito que qualquer empresa busca: aquele que tem condições de atualizar e reconstruir seu conhecimento de forma independente.

NET Educação – Os alunos de maneira geral têm perdido o interesse pela leitura?

Luzia de Maria – Convivi durante algumas décadas com estudantes, cursistas, professores, e também tive o que eu chamo de “cobaias”: minhas duas filhas, hoje profissionais da área médica e belas leitoras de literatura… Minha neta Letícia, de cinco anos, cuja riqueza vocabular e seus muitos recursos sintáticos resultam, inegavelmente, da assídua leitura de histórias. Reconhecer o valor e priorizar a leitura em sua formação depende do modo como uma criança é educada. Há atitudes familiares e propostas curriculares que buscam alimentá-la; assim como há situações que são eficientes em matá-la.

NET Educação – A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, encomendada pela Fundação Pró-Livro, revelou queda de 9,1% no número de leitores no país: de 95,6 milhões, em 2007, para 88,2 milhões, em 2011. Como o professor pode em sala de aula incentivar a leitura dos alunos?

Luzia de Maria – Desde que o magistério se tornou opção, quase que exclusivamente, dos que não conseguem uma profissão mais rentável, as licenciaturas – inclusive Letras e Pedagogia – são ocupadas por estudantes que confessam, sem nenhum pudor, que não gostam de ler. Como um professor que não dá valor a livros, pode formar alunos leitores? A pouca leitura que vemos hoje não é efeito ou consequência do computador, é resultado da má qualidade da educação brasileira. O melhor incentivo que um professor pode oferecer a seus discípulos é amar a leitura, os livros e especialmente a literatura. E deixar transparecer isso em suas atitudes.

NET Educação – Você esteve na Bienal e apresentou uma oficina sobre um projeto de leitura realizado nos anos 1980 e documentado, hoje, no terceiro capítulo do seu livro. Do que se trata o projeto?

Luzia de Maria – Sim. O que chamei “clube do livro” começou como uma atividade extracurricular, em 1982, em uma escola pública estadual, de que participavam os estudantes que quisessem. Líamos, discutíamos, recebíamos escritores, trocávamos experiências de leitura. Foi tão extraordinário o sucesso que, a partir de 1983, passei a implementar, nas minhas aulas de português/literatura, um autêntico “clube do livro”. No livro, estão 24 depoimentos desses ex-alunos, que confirmam o poder libertário e transformador da leitura. Hoje, são fiscal de rendas, defensor público, delegado da polícia federal, dentista, engenheiro químico, professores mestres e doutores. Enfim, conquistaram inegável ascensão social.

NET Educação – Assessorando Darcy Ribeiro, você criou e dirigiu a revista Informação Pedagógica. Havia a proposta de falar de livros e leitura?

Luzia de Maria – O convite de Darcy Ribeiro aconteceu em 1991, consequência do trabalho que ele conheceu no jornal-revista PRAvaLER, [que criei e dirigi, para despertar as pessoas para a importância da leitura]. A proposta editorial era a mesma: capas de artistas, matérias sobre artes plásticas, cinema, literatura, entrevistas com pensadores contemporâneos, questões atuais, muitos textos relativos à leitura e formação de leitores, resenhas de livros e textos da área de educação.

NET Educação – Poderia deixar a sugestão de alguns livros que tratam do tema leitura?

Luzia de Maria – Não vou citar textos teóricos ou pedagógicos sobre leitura; quero falar de romances belíssimos que tratam do amor aos livros e à leitura, que mostram como ela pode favorecer o diálogo, a empatia e até mesmo a amizade ou o amor entre as pessoas. São narrativas que se leem de um só fôlego, histórias muito bem contadas e instigantes. (Veja as sugestões e os comentários da professora aqui).

Se quiser entrar em contato com a professora Luzia de Maria, acesse o site ou envie um e-mail para luziademaria@uol.com.br

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