Em março de 2011, a escola e agência de intercâmbios Education First (EF) divulgou uma pesquisa em que avaliou o desempenho de 2 milhões de pessoas de 44 países diferentes em quatro testes online de proficiência em inglês. Os exames contemplaram questões de gramática, compreensão auditiva, leitura e vocabulário.
O Brasil ficou na 31ª posição (nota 47,27, considerada baixa) em um ranking de 44 países que não possuem o inglês como língua oficial. Entre os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), o Brasil ficou à frente apenas da Rússia; China e Índia também registraram notas baixas, 47,62 e 47,35, respectivamente.
Com a proximidade de eventos de grande porte como Copa do Mundo do Brasil, em 2014, e Olimpíadas de Londres, em 2016, e a possibilidade multicultural eminente, o NET Educação convidou Walkyrya Monte Mor, professora livre docente da Universidade de São Paulo (USP), atuante no Projeto Nacional de Formação de Professores “Novos letramentos, multiletramentos e línguas estrangeiras”, cadastrado no Diretório dos Grupos de Pesquisa do CNPq, para avaliar o cenário e fazer suas considerações. Confira!
1. NET Educação – Como avalia o resultado da pesquisa apresentada pela escola e agência de intercâmbios Education First (EF)? O que revela a 31ª posição brasileira?
Walkyria Monte Mor – Embora em processo de investigação, já podemos perceber tendências que apontam para a não existência de uma política de línguas bem definida no Brasil como justificativa a esse cenário.
O tema língua estrangeira sempre foi abordado de maneira muito generalizada no País. Salvas as exceções, a segunda língua é geralmente trabalhada a partir de um prisma utilitário, como um instrumento, conduta mais próxima daquela abordada pelos centros de idiomas.
Ressalto que esse trabalho é muito bem feito e atende ao público demandante. A questão é que do ponto de vista educacional, a língua estrangeira não só é utilitária, mas também formativa. Há aspectos linguísticos, culturais e educacionais envolvidos na aprendizagem de uma língua estrangeira, seja o inglês ou qualquer outra.
Estamos no momento de rever ideias, mentalidades, tentando entender o que de fato significa para o brasileiro ter conhecimento de outra língua. Para o aluno, há uma questão de pluralidade, diversidade e até mesmo de reconhecimento de identidade, já que passamos a nos entender melhor quando sabemos quem é o outro e como se dá a minha relação com ele.
2. NET Educação – Ainda de acordo com o mesmo estudo, a América Latina foi a região que teve o pior desempenho entre os países analisados. Qual reflexão isso nos permite?
Walkyria Monte Mor – Aqui vejo um fundamento histórico forte. Basta pensarmos que hoje as universidades listadas mundialmente como as melhores são as de língua inglesa. E essa disseminação ou difusão cultural também tem raiz histórica. Tivemos como resultado da primeira parte da Revolução Industrial a separação entre primeiro e terceiro mundo e o efeito foi forte por muitas décadas.
3. NET Educação – No ranking latino, o Brasil ficou com a 6ª posição – à frente do Chile, que possui uma política de Estado voltado para o ensino de inglês. A que credita esse cenário?
Walkyria Monte Mor – O Brasil sempre teve vínculo com os países de línguas inglesas e isso desde a primeira metade do século. Atualmente acredito que os acordos internacionais, principalmente com os EUA, vêm determinando o melhor posicionamento brasileiro frente ao chileno na proeficiência do inglês.
4. NET Educação – O governo brasileiro renovou junto ao governo americano, em 2010, um acordo para impulsionar o ensino do inglês no País. Como avalia a iniciativa? É um caminho para mudarmos os resultados apontados na pesquisa?
Walkyria Monte Mor – Não sei se é esse o caminho. A língua estrangeira é muito importante, não somente a inglesa ou a espanhola. Acredito que a definição pela segunda língua poderia considerar questões regionais, pois há outras línguas importantes para determinadas comunidades.
Basta pensarmos na influência do alemão para a região sul do País, por exemplo. E vejo que isso poderia ser feito via Ministério da Educação, não necessariamente a partir de acordos internacionais.
5. NET Educação – De um modo geral, como avalia as iniciativas governamentais brasileiras em relação à proeficiência da língua inglesa?
Walkyria Monte Mor – Estamos desenvolvendo um projeto para o MEC, direcionado para as escolas públicas, que deve ter como tema “Um outro olhar sobre o ensino aprendizagem de línguas nas escolas públicas brasileiras construindo linhas de ação”.
A iniciativa pretende trabalhar ao longo de 2013 e 2014 a formação de professores a partir da abordagem educacional, que vá além da perspectiva linguística. Claro que teremos vocabulário e gramática, mas esse não será o eixo central, já que a ideia é reinterpretar o aprendizado da língua estrangeira.
6. NET Educação – A língua inglesa deve ser prioridade quando pensamos em incentivar a procura a uma segunda língua? O espanhol tem o mesmo nível de importância?
Walkyria Monte Mor -Em termos globais, o inglês e o espanhol são línguas importantes. Até pelo movimento de globalização, foi necessário ‘escolher’ uma língua franca entre os países e até pela influência norte americana o inglês passou a cumprir esse papel; o espanhol também é língua de peso quando pensamos na comunicação entre os países. No entanto, do ponto de vista educacional, outras línguas são importantes e é preciso incluí-las.
7. NET EDUCAÇÃO – Tendo em vista a proximidade da Copa do Mundo, em 2014, e as Olimpíadas, em 2016, estamos preparados para essa multiculturalidade, levando em consideração o domínio da língua? Enxerga pontos negativos ao País?
Walkyria Monte Mor – Se os eventos fossem acontecer hoje, vejo que temos regiões mais preparadas para esse multiculturalismo, pensando do ponto de vista linguístico. Para o futuro, acredito que há muito que ser feito. Claro que eventos como Copa do Mundo e Olimpíadas motivam as pessoas, mas a necessidade da aprendizagem da língua estrangeira não é passageira, ou seja, não deve ser motivada apenas por conta desses acontecimentos.
Para saber mais:
– Confira a reportagem “Brasil tem um dos piores índices de proeficiência em inglês do mundo”, publicada no site da Exame.