Conteúdos
Este plano de aula convida as crianças a vivenciar a leitura do livro “O Pequeno Príncipe Preto”, de Rodrigo França, por meio de uma contação de história compartilhada ao longo de alguns dias. A partir da trajetória do Pequeno Príncipe Preto e de sua relação com a Baobá, serão propostas experiências de escuta, conversa, movimento, interação e brincadeira que possibilitem às crianças refletir sobre identidade, pertencimento, vínculos, cuidado, ancestralidade e diversidade. A proposta busca valorizar a presença de personagens negros na literatura infantil e favorecer experiências positivas de reconhecimento e valorização das diferenças.
Objetivos
- participar de momentos de escuta literária, acompanhando uma narrativa ao longo de diferentes encontros;
- expressar sentimentos, ideias, perguntas e hipóteses a partir da história;
- perceber e valorizar diferentes características, histórias, famílias e modos de ser;
- reconhecer a importância dos vínculos e das relações de cuidado;
- vivenciar situações de cooperação, partilha e pertencimento ao grupo;
- ampliar o repertório cultural por meio do contato com uma obra de autoria negra e protagonismo negro;
- perceber a presença de diferentes identidades e características físicas sem estabelecer relações de superioridade entre elas;
- conhecer, de maneira adequada à faixa etária, a ideia de ancestralidade como aquilo que nos conecta às pessoas que vieram antes de nós;
- desenvolver a imaginação e a capacidade de criar sentidos a partir de uma narrativa literária; e
- participar de experiências coletivas de criação e expressão a partir da história.
Campos de experiência:
- O eu, o outro e o nós.
- Escuta, fala, pensamento e imaginação.
Palavras-chave:
Educação Infantil. Literatura. Identidade. Ancestralidade. Diversidade. Pertencimento. Afeto. Ubuntu.
Tempo sugerido:
Sugere-se uma sequência de 4 a 5 encontros, de aproximadamente 40 a 60 minutos cada, distribuídos ao longo de uma ou duas semanas.
1ª Etapa: Preparando o contato com a história
Antes de iniciar a leitura, organize um espaço acolhedor para a turma. Pode ser uma roda de leitura no chão, com o livro em destaque e, se possível, uma imagem de uma Baobá ou outro elemento que desperte a curiosidade das crianças.
Apresente a capa do livro, sem antecipar a história.
Pergunte:
- O que vocês estão vendo na capa?
- Quem será esse personagem?
- O que vocês acham que significa ele ser um príncipe?
- Onde será que ele mora?
- Quem é a árvore que aparece na história?
- O que vocês imaginam que vai acontecer?
Permita que as crianças observem livremente a capa e expressem suas hipóteses.
Evite confirmar ou corrigir imediatamente as respostas. O objetivo inicial é criar um espaço de curiosidade e preparar as crianças para o encontro com a narrativa.
Apresente o autor, Rodrigo França, dizendo às crianças que ele escreveu uma história sobre um pequeno príncipe negro, que vive aventuras e aprende sobre sua história, seus vínculos e a importância de estar conectado às outras pessoas.
Explique que a história será contada em vários dias e que, a cada encontro, a turma descobrirá um pouco mais sobre o universo do Pequeno Príncipe Preto.
2ª Etapa: Primeiro encontro com o Pequeno Príncipe Preto
Realize a primeira parte da contação de história, fazendo pausas breves em momentos que possam despertar a curiosidade das crianças.
Durante a leitura, valorize especialmente:
- a presença do Pequeno Príncipe Preto como protagonista;
- sua relação com a Baobá;
- o pequeno planeta onde vive;
- as características do personagem; e
- os sentimentos e relações apresentados na narrativa.
Não é necessário interromper a narrativa a todo momento para fazer perguntas. Priorize a experiência literária e deixe que as crianças acompanhem a história.
Ao final, reúna a turma em uma roda e pergunte:
- O que vocês descobriram sobre o Pequeno Príncipe Preto?
- Como vocês acham que ele se sente em seu planeta?
- O que vocês perceberam sobre a relação dele com a Baobá?
- O que vocês acham que uma árvore pode ensinar a alguém?
Registre algumas falas das crianças.
Não é necessário buscar uma resposta única. Valorize diferentes interpretações e percepções e finalize dizendo: “A nossa história ainda não terminou. Vamos descobrir mais sobre esse pequeno príncipe em outro dia.”
3ª Etapa: Baobá, memória e aquilo que veio antes de nós
Retome brevemente o que aconteceu no encontro anterior e mostre novamente a imagem da Baobá presente na obra.
Pergunte:
- O que vocês lembram sobre essa árvore?
- Por que será que ela é tão importante para o Pequeno Príncipe Preto?
- As árvores existem para sempre?
- O que existia antes de uma árvore crescer?
A partir das respostas das crianças, introduza de maneira simples a ideia de ancestralidade, explicando: “Ancestralidade é uma palavra que usamos para falar das pessoas que vieram antes de nós e das histórias, conhecimentos, costumes e afetos que podem passar de uma geração para outra.”
Evite transformar o conceito em uma explicação abstrata. Relacione-o à experiência das próprias crianças.
Pergunte:
- Quem ensinou alguma coisa importante para vocês?
- Existe alguma coisa que vocês aprenderam com alguém da família?
- Tem alguma história que alguém mais velho da família costuma contar?
- Existe alguma comida, brincadeira, música ou costume que vocês aprenderam com outras pessoas?
Importante: não é necessário que todas as crianças tenham uma configuração familiar semelhante. Permita que cada criança escolha uma pessoa significativa para ela: familiar, cuidador, avó, avô, irmão, professora ou outra pessoa de sua rede de afeto.
Em seguida, faça uma nova parte da contação da história.
Ao final, convide as crianças a pensar: “Se a Baobá pudesse guardar histórias, que histórias vocês acham que ela guardaria?”
Deixe que as crianças imaginem e compartilhem suas ideias.
4ª Etapa: Somos diferentes, somos parte do mesmo grupo
Retome a história e observe com as crianças as características do Pequeno Príncipe Preto.
Converse sobre o personagem, sem transformar a atividade em uma simples comparação entre “cores de pele”.
Pergunte:
- O que vocês gostam nesse personagem?
- O que faz o Pequeno Príncipe Preto ser quem ele é?
- Ele é igual a todas as outras pessoas?
- Nós somos todos iguais?
- O que existe de diferente entre nós?
- E o que podemos ter em comum?
Explique que as pessoas possuem diferentes características: diferentes tons de pele, tipos e texturas de cabelo, formatos de olhos, corpos, vozes, famílias, costumes, histórias e maneiras de ser.
Diga às crianças: “Ser diferente não significa ser melhor ou pior. Cada pessoa é uma pessoa inteira, com sua própria história.”
Nesse momento, é importante que a presença negra seja apresentada positivamente, e não apenas em situações relacionadas ao racismo ou ao sofrimento.
Retome o protagonista: “O Pequeno Príncipe Preto é um príncipe. Ele é protagonista da própria história. Ele tem uma história, uma família, uma cultura, uma relação com sua Baobá e muitas coisas para ensinar e aprender.”
Se surgirem comentários sobre cor de pele, cabelo ou outras características, acolha as falas com naturalidade.
Por exemplo, caso uma criança diga, por exemplo, “ele é preto”, responda algo como: “Sim. Ele é um menino preto. Existem muitos tons de pele e muitas maneiras de ser uma pessoa negra. E é muito importante que as crianças possam se reconhecer nas histórias que leem.”
Depois, continue a contação da história.
5ª Etapa: Uma experiência de Ubuntu
Em determinado momento da narrativa, apresente às crianças a palavra Ubuntu, relacionando-a à ideia de que as pessoas estão conectadas umas às outras e que podemos cuidar, ajudar e fazer o bem juntos.
Para crianças pequenas, não é necessário transformar Ubuntu em uma definição decorada. Diga: “Ubuntu é uma palavra que nos lembra que ninguém vive sozinho. Nós fazemos parte de um grupo e podemos cuidar uns dos outros.”
Pergunte:
- Quando alguém ajuda vocês, como vocês se sentem?
- Como podemos ajudar alguém?
- O que podemos fazer quando uma pessoa do grupo está triste?
- O que conseguimos fazer juntos que seria difícil fazer sozinho?
Em seguida, proponha uma experiência coletiva.
Organize as crianças em pequenos grupos e entregue a cada grupo um desafio simples que só possa ser realizado com a participação de todos. Por exemplo:
- transportar uma bola grande sem segurá-la com as mãos;
- construir uma pequena estrutura utilizando blocos, mas permitindo que cada criança coloque apenas uma peça por vez;
- criar uma sequência de movimentos que todos consigam realizar juntos; ou
- transportar uma “semente” de um ponto a outro sem deixá-la cair.
Após a experiência, reúna novamente a turma e pergunte:
- Foi fácil fazer sozinho?
- O que aconteceu quando vocês ajudaram uns aos outros?
- Alguém teve uma ideia que ajudou o grupo?
- Como foi conseguir alguma coisa juntos?
Relacione a experiência à história: “Assim como o Pequeno Príncipe Preto aprende sobre Ubuntu, nós também podemos descobrir que cuidar uns dos outros faz parte de viver em grupo.”
6ª Etapa: Semeando histórias
Depois de concluir a leitura do livro, retome com a turma a ideia das sementes que o Pequeno Príncipe Preto carrega consigo.
Apresente algumas sementes reais de diferentes tipos e tamanhos e permita que as crianças explorem os elementos com as mãos, observando:
- tamanho;
- forma;
- textura;
- peso; e
- diferenças entre elas.
Pergunte: “O que uma semente precisa para crescer?”
A partir das respostas, amplie a reflexão:
- “E o que uma amizade precisa para crescer?”
- “O que uma turma precisa para crescer junto?”
Construa coletivamente uma lista de ideias trazidas pelas crianças.
Podem surgir palavras como:
- cuidado;
- respeito;
- amizade;
- escuta;
- ajuda;
- carinho;
- brincadeira;
- acolhimento;
- paciência.
Registre as falas das crianças exatamente como forem formuladas, fazendo desse registro uma produção coletiva da turma.
7ª Etapa: Criando juntos: a nossa árvore de vínculos
Em vez de propor que cada criança faça individualmente um desenho da história, construa com a turma uma grande árvore coletiva.
Utilizando papel kraft, papelão ou outro suporte grande, desenhe apenas o tronco e os galhos de uma grande árvore. Convide as crianças, em pequenos grupos, a completar a árvore. Cada criança poderá escolher uma forma de representar algo que gostaria de “semear” na turma:
- uma palavra;
- um desenho;
- uma pequena marca;
- uma colagem;
- uma pintura;
- uma folha; ou
- outro elemento que faça sentido para ela.
O professor poderá escrever ao lado da produção a fala da criança. Exemplos:
- “Eu quero semear amizade.”
- “Eu quero semear ajuda.”
- “Eu quero semear brincadeira.”
- “Eu quero semear carinho.”
- “Eu quero semear coragem.”
A árvore deverá ser construída coletivamente, sem a necessidade de que todas as produções sejam iguais.
Durante a atividade, incentive as crianças a observar o que os colegas estão fazendo e a conversar sobre suas escolhas.
Ao final, observe com a turma: “O que aconteceu quando juntamos todas as nossas sementes?”.
Conduza as crianças à percepção de que a árvore ficou maior porque foi construída por muitas pessoas.
8ª Etapa: Retomada e encerramento
Finalize a sequência com uma roda de conversa.
Coloque o livro no centro da roda e retome alguns elementos da narrativa, perguntando:
- Quem é o Pequeno Príncipe Preto?
- Quem é a Baobá?
- O que a Baobá representa para ele?
- O que aprendemos sobre ancestralidade?
- O que significa cuidar de alguém?
- O que descobrimos sobre Ubuntu?
- O que podemos fazer para que todas as crianças se sintam pertencentes ao nosso grupo?
- O que vocês gostariam de continuar semeando na nossa turma?
Retome também a experiência vivida durante os encontros, e não apenas o conteúdo da história: “O que vocês viveram juntos durante esses dias?”
Dê espaço para que as crianças relembrem momentos, falas, brincadeiras e descobertas, finalizando com a retomada da ideia central da obra: “Cada pessoa tem sua própria história. E, quando cuidamos uns dos outros, nossas histórias podem se encontrar e crescer juntas.”
Deixe a árvore coletiva construída pela turma em um espaço de circulação da escola, acompanhada de algumas falas das crianças e do título: “O que queremos semear juntos”.
Essa produção poderá permanecer como um registro vivo da experiência, podendo ser retomada em outros momentos da rotina.
Plano de aula elaborado pela Professora Daniela Leite Nunes.
Coordenação Pedagógica Prof.ª Dr.ª Aline Monge.
Crédito da imagem: Annabelle Breakey – Getty Images