Conteúdos

● Direitos Naturais: Liberdade e Propriedade Privada, em John Locke;
● Teoria do Estado em John Locke;
● Racismo Epistêmico;

Objetivos

● Conhecer a obra Black Athena, de Martin Bernal;
● Entender a teoria do Estado em John Locke;
● Compreender o conceito de racismo epistêmico.

Palavras-Chave:

Propriedade privada. Contratualistas. Racismo Epistêmico.

Sugestão de aplicação para o ensino remoto:

As sugestões estão organizadas em tópicos com uma breve explicação de cada recurso.

● Jitsi Meet: é um sistema de código aberto e gratuito, com o objetivo de permitir a criação e implementação de soluções seguras para videoconferências via Internet, com áudio, discagem, gravação e transmissão simultânea. Possui capacidade para até 200 pessoas, não há necessidade de criar uma conta, você poderá acessar através do seu navegador ou fazer o download do aplicativo, disponível para Android e iOS.

Trabalhando com essa ferramenta, é possível:

– Compartilhar sua área de trabalho, apresentações e arquivos;
– Convidar usuários para uma videoconferência por meio de um URL simples e personalizado;
– Editar documentos simultaneamente usando Etherpad (editor de texto on-line de código aberto);
– Trocar mensagens através do bate-papo integrado;
– Visualizar automaticamente o orador ativo ou escolher manualmente o participante que deseja ver na tela;
– Reproduzir um vídeo do YouTube para todos os participantes.

● Gravação de videoaula usando o Power Point: o PPT, já tão utilizado por nós professores para preparamos nossas aulas, também permite a gravação de uma narração para os slides, que tanto nos auxiliam na explanação dos conteúdos. É possível habilitar a função de vídeo enquanto grava, assim, os alunos verão o professor em uma janelinha no canto direito da apresentação. Essa ferramenta é bem simples e eficaz (acesse o guia).

● Envio de Podcast aos alunos: Podcast nada mais é do que um áudio gravado (tipo esses que pelo whatsapp). Podem ser utilizados para narrar uma história, para correção de atividades, revisar ou aprofundar os conteúdos. Para tanto, sugiro o app Anchor, que pode ser baixado em seu celular, muito fácil e simples de utilizar.

● Plataforma Google Classroom: o Classroom permite que você crie uma sala de aula virtual. Esta ação irá gerar um código que será compartilhado com os alunos, para que acessem à sala. Neste ambiente virtual, o/a professor/a poderá criar postagens de avisos, textos, slides do PPT, conteúdos, links de vídeos, roteiros de estudos, atividades, etc. É uma forma bem simples e eficaz de manter a comunicação com os alunos e postar as aulas gravadas, usando os recursos anteriormente mencionados. Confira outros recursos oferecidos pela Google, como a construção de formulários (Google Forms) para serem realizados pelos alunos.

Sugiro aulas com até 30 minutos de duração. Além disso, nem toda aula precisa gerar uma atividade avaliativa, para não sobrecarregar os alunos. As aulas virtuais também podem ser úteis para correção de exercícios e plantões de dúvidas.

Previsão para aplicação:

6 aulas (30 min./aula)

1ª Etapa: John Locke e o Estado Liberal

Nesta primeira etapa, o/a professor/a apresentará a visão de empirismo e de direitos naturais em John Locke (1632-1704). Para isso, poderá fazer a gravação prévia de um Podcast através do app Anchor, e disponibilizar aos alunos/as através da plataforma Google Classroom. No Podcast, faça uma apresentação do filósofo inglês e dos temas da Experiência Humana e dos Direitos Naturais: a liberdade, a propriedade privada e o liberalismo. Locke tem três obras fundamentais para compreender sua visão de mundo, são elas: Ensaios acerca do entendimento humano; Tratado sobre o Governo I e Tratado sobre o Governo II. A proposta de trabalhar com o filósofo contratualista é uma maneira de mostrar a herança que ele deixou e que será problematizada no segundo momento por outro inglês, o filósofo e pesquisador de história chinesa e africana, Martin Bernal.

Na primeira grande obra de Locke, Ensaios acerca do entendimento humano, o autor desenvolveu a visão de tábula rasa, uma noção contrária a visão de ideias inatas de René Descartes (1560-1650), que defendia que existiam ideias ou conhecimentos que eram a priori da experiência humana. Para Locke, ao nascer, o ser humano é uma folha de papel em branco, ao passo que se relaciona com o mundo, com as pessoas e com as coisas, desenvolvendo as experiências ou conhecimentos, ou seja, para o autor, não existem ideias inatas, todo conhecimento vem da relação do sujeito com o objeto, algo que acontece através dos sentidos. Porém, Descartes acreditava que alguns conhecimentos já nascem com o sujeito, uma visão dentro de uma noção racionalista de mundo.

Para Locke desenvolver sua ideia de Estado, a qual denomina como Estado Liberal, ele escreveu duas obras, intituladas Tratado sobre o Governo, nelas desenvolve um estudo para denominar os limites do Estado e os direitos naturais do homem, os quais o Estado deveria, acima de tudo, servir somente para os interesses do indivíduo, isto é, sem tirar dele a liberdade e seu direito à propriedade privada. Em outras palavras, caberia ao Estado somente mediar os conflitos entre as pessoas, tendo uma função bastante limitada, não seria, por exemplo, o Estado dominado pelo Leviatã, proposta de Thomas Hobbes (1588-1679), a qual teria direito total sobre a Liberdade dos indivíduos. Para Locke, o indivíduo por natureza tem o direito à propriedade privada. Exemplo, se ele encontra terras abandonadas e com isso reproduz sua força de trabalho naquele espaço, então, o terreno já o pertence por direito. Pois o direito à propriedade privada, para o filósofo, já existia antes mesmo do Estado se constituir como contrato social. Ou seja, o Estado não deveria em hipótese nenhuma violar esse direito dos indivíduos, pois sendo a propriedade privada possível desde o Estado de Natureza, já era assegurado esse bem natural. Diferente de Hobbes, que acreditava que o ser humano no Estado de Natureza vivia na guerra de todos contra todos, Locke via de maneira diferente, em outras palavras, no Estado de Natureza, os seres humanos viviam em Estado de liberdade, eram donos do seu trabalho e de suas terras.

Nesses dois tratados, a noção de propriedade privada se desenvolve para além do direito às terras, pois para Locke, quando foi inventado o dinheiro, a liberdade de consumo e de acumulação de riqueza fizeram crescer o poder de liberdade dos indivíduos. Aqueles que cuidavam de suas terras, plantando e produzindo arroz, leite, carne, etc., puderam trocar, através da moeda, suas mercadorias por outras mercadorias, vendendo e comprando. Com isso, começaram a acumular riquezas e a ideia de propriedade privada ou de bens de consumo, adquirindo um novo patamar nas relações sociais e humanas. Para compreender mais a visão de John Locke, a/o professor/a poderá indicar uma videoaula no YouTube, no canal Filosofia Total, do professor Anderson (Filosofia e Sociologia). Além disso, poderá utilizar um fragmento do livro do Gilberto Cotrin e Mirna Fernandes, para gravar o Podcast que será disponibilizado aos/às alunos/as.

John Locke – LIBERALISMO POLÍTICO – Prof. Anderson

Locke: O Estado Liberal

“Assim como Hobbes, o filósofo inglês John Locke (1632 – 1704), também refletiu sobre a origem do poder político e sua necessidade de congregar os seres humanos, que, em estado de natureza, viviam isolados.

No entanto, enquanto Hobbes, imagina um estado de natureza marcado pela violência e pela “guerra de todos contra todos”, Locke faz uma reflexão mais moderada. Refere-se ao estado de natureza como uma condição na qual, pela falta de uma normatização geral, cada um seria juiz de sua própria causa, o que levaria ao surgimento de problemas nas relações entre os indivíduos.

Para evitar esses problemas é que o Estado teria sido criado. Sua função seria a de garantir a segurança dos indivíduos e de seus direitos naturais, como a liberdade e a propriedade, conforme expõe Locke em sua obra Segundo tratado sobre o governo.

Diferente de Hobbes, portanto, Locke concebe a sociedade política como um meio de assegurar os direitos naturais e não como resultado de uma transferência dos direitos dos indivíduos para o governante e as instituições de governo. Assim nasce a concepção de Estado Liberal segundo a qual o Estado deve regular as relações entre os indivíduos e atuar como juiz nos conflitos sociais. Mas deve fazer isso garantindo aquilo que precede a própria criação do Estado: as liberdades e os direitos individuais, tanto no que se refere ao pensamento e à sua expressão quanto à propriedade e à atividade econômica.” (COTRIM, FERNANDES, 2016, p. 355)

2ª Etapa: Black Athena, de Martin Bernal

Martin Bernal (1937-2013) (crédito: reprodução The Times)

Para este segundo momento, o/a professor/a poderá apresentar Martin Bernal (1937-2013), através da gravação e disponibilização de um segundo Podcast aos/às alunos/as, usando como inspiração os textos disponibilizados abaixo. Martin foi um cientista inglês que estudou Política, História e Filosofia, além de ser professor de estudos mediterrâneos e orientais na Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, e autor da obra Black Athena ou Atena Negra: as raízes afro-asiáticas da Civilização Clássica. Nessa obra de três volumes, Bernal trouxe a relação que a Grécia tinha com os vizinhos africanos e asiáticos, entre eles, os egípcios e os fenícios. Bernal partiu da ideia que um outro historiador do século XVIII defendia, Barthold Niebuhr (1776-1831). Para esse alemão, os egípcios e os fenícios colonizaram a civilização grega e desempenharam um grande papel formativo no povo heleno.

Bernal descreveu que foi a partir do século XVIII que as visões que se tinham da África e da Ásia, como fontes para formação grega e europeia, foram ideologicamente excluídas, pois foram promovidas por figuras conhecidas da época como políticos, educadores e outros, uma visão de ensino purista.

Dentro desse modelo, as academias ocidentais foram e ainda são palco para difundir a cultura ariana. Para Bernal, foi no século XVIII que essa visão começou a combater qualquer tipo de ideia revolucionária que estava ocorrendo naquele período, devido às influências da Revolução Francesa: os acadêmicos e estudiosos ligados aos políticos de grande influência trouxeram a visão de que era preciso criar uma disciplina que promovesse um ideal de modelo dos clássicos, para, assim, conter uma visão mais pluralista, pois era preciso um modelo único e puro — o modelo ariano.

Em Black Athena ou Atenas Negra, Bernal defende nitidamente que suas ideias não eram absolutamente novas e correspondiam a uma revisão da história, a qual denominou como “modelo antigo” para analisar as origens gregas. Para ele, foi o historiador Heródoto, que viveu no século V a.C., que defendeu que os egípcios e os asiáticos ensinaram bases que eram fundamentais para os conhecimentos científicos e filosóficos se desenvolverem na Grécia Antiga. Então, esse apagamento foi devido aos acontecimentos políticos, sociais e pedagógicos que criaram um modelo ariano para o ensino. A partir desse novo modelo monocultural, o antigo foi rejeitado, desenvolvendo um ensino que se constitui em uma grande exclusão dos egípcios e dos asiáticos. Isso ocorreu quando os prussianos criaram uma disciplina de “Ciência e Filosofia dos Estudos Clássicos”, que pretendia minimizar as concepções que vinham desde Heródoto. As teorias que defendiam uma contribuição da influência afro-asiática na cultura da civilização grega foram excluídas pela imposição desse modelo monocultural e ariano, que se estabeleceu mundo afora. Vejamos os textos abaixo que se referem a esse processo histórico de apagamento de outras vozes da filosofia.

Helenomanía: A queda do modelo antigo (1790-1830)

“Este capítulo se dedica quase por inteiro aos fenômenos de caráter social e intelectual desenvolvido no norte da Alemanha, de religião protestante, durante um período de quarenta anos. Semelhante lapso de tempo que talvez pareça breve, porém abarca a Revolução Francesa, as conquistas de Napoleão, que paulatinamente incrementou o nacionalismo alemão contra os franceses, os anos de reação e o estabelecimento da Prússia como estado alemão dominante e centro da atração de todo o nacionalismo alemão. E foi precisamente nesse período quando uma nova disciplina, a Filosofia ou a Ciência da Antiguidade, Altertumswissenschaft, logo, estabeleceu como disciplina de vanguarda em sentido moderno. Essa ciência foi a primeira a instaurar uma estrita relação meritocrática entre mestres e discípulos. […] Sustento que os fenômenos desenvolvidos nos campos intelectuais e acadêmicos devem ser contemplados juntamente com os ocorridos em terreno político e social. Resulta surpreendentemente comprovar que algumas das figuras mais sinceras do mundo da linguística e da história, como Humboldt e Niebuhr, desempenharam papéis muito ativos não só no estabelecimento de uma nova disciplina, sendo também em desenvolver um novo sistema universitário em geral. E não duvidemos que também foi políticos destacados no cenário nacional. […] Precisamente o amplo desenvolvimento e difusão da nova Altertumswissenschaft, que Humboldt situava como uma pedra angular do Bildung ou da educação, deveria ser interpretado como uma dessas reformas. Humboldt e seus amigos consideravam que o estudo da antiguidade em geral e da Grécia, em particular, constituíam uma forma de devolver sua integridade aos estudantes e ao povo em geral, cujas vidas, em sua opinião, deixavam fragmentos pela sociedade moderna. A curto prazo, Humboldt e seus correligionários pensaram que o estudo era a melhor maneira de promover a reforma autêntica, graças a qual Alemanha pudera livrar-se de uma revolução como a francesa, que lhes causava tanto horror. […] os estudos clássicos, foram considerados por seus promotores uma terceira via entre a reação e a revolução. Em realidade, mas o único que conseguiu foi apontar um status-quo. […]” (BERNAL, 2003, p. 281)

Vale mencionar que, infelizmente, a obra Black Athena não foi traduzida para o português, por isso estamos disponibilizando dois pequenos trechos para poder levar aos/às alunos/as a discussão sobre o processo de apagamento das outras vozes dessas áreas do conhecimento. O primeiro foi traduzido por mim, com a intenção de mostrar a problematização de Bernal, a respeito da cultura ariana e o fato dela ter se originado no século XVI, ou seja, houve um processo histórico que trouxe muitos efeitos para o mundo contemporâneo, exemplos disso é o próprio nazismo, a cultura branca e hegemônica que dominam os países colonizados, sobretudo a educação que estamos pontuando aqui, e que Bernal fundamenta em sua pesquisa monumental de mais de 2 mil páginas, Black Athena.

O segundo texto proposto neste plano de aula, foi traduzido com a parceria do aluno da escola E.E. Etelvina de Góes Marcucci, na qual lecionei entre 2012 e 2019, Rubiano Ribeiro, localizada em Paraisópolis. Na época, ele tinha o sonho de cursar Tradução e Intérprete, diante disso, veio a ideia de fazer a tradução de mais um pequeno trecho da obra Black Athena, junto com ele. É importante mencionar que Rubiano recebia atendimento domiciliar, pois ele é tetraplégico, além de respirar com ajuda de aparelhos, algo que o impossibilitava de chegar à escola. Com isso, fui seu professor de Ciências Humanas, lecionando durante os três anos do ensino médio (2017-2019). Para quem quiser saber mais sobre a vida do estudante, tem um texto que escrevi para o blog da escola, em 2018, explicando a experiência de trabalhar com o Rubiano.

Experiência docente: atendimento domiciliar – Professor Fabiano Bitencourt Monge

No texto abaixo, traduzido em parceria com o estudante Rubiano, podemos ver alguns problemas da visão de Locke, principalmente pensando nos contextos africanos e americanos. O filósofo inglês e moderno defendia que a terra pertence somente ao indivíduo que praticar a agricultura e aqueles as quais não tinham o mesmo modo de vida, isto é, que não tinha aceitado o contrato social que defendia, então, não deveriam ficar com as terras, essa visão contratualista de Locke serviu para a burguesia europeia se apropriar das terras indígenas e das terras dos africanos, pois, para estes, todos esses povos colonizados não cuidavam de suas terras, eram terrenos baldios que poderiam supostamente ser “civilizados” com a ótica escravocrata deles. Bernal, que era um europeu, mas não eurocêntrico e tampouco racista, questiona não somente Locke, mas filósofos como Platão, Aristóteles, Hume, Rousseau e os românticos. Por isso, depois de conhecer os contratualistas, vale a pena ver como Bernal problematiza os iluministas racistas e que muitas vezes são os mais estudados e valorizados dentro das sociedades que foram colonizadas. Além do texto abaixo, deixo também trechos que comprovam o racismo dos filósofos. O/A professor/a poderá fazer uma introdução e apresentação do filósofo Bernal, através da disponibilização do Podcast, disponibilizar os trechos abaixo para leitura dos/das alunos/as e promover um debate em uma próxima aula ao vivo online, para problematizar o racismo epistêmico nas Ciências Humanas.

O Racismo: Atenas Negra – Martin Bernal

“Todas as culturas se caracterizaram por possuir alguns tipos de prejuízos, muitas vezes incluem certas hostilidades para os povos cujas aparências não são compatíveis a elas. […] A intensidade e amplitude do racismo no norte da Europa, na América e outros impérios coloniais têm excedido a norma de exigir algum tipo de explicação. […] Resultado que é bastante difícil determinar se o racismo era ou não particularmente forte antes do século XVI, o primeiro no que os povos do norte da Europa entraram em contato habitual com os outros dos demais continentes […] É evidente, aliás, que para o século XV, se estabelecia um claro vínculo entre a cor escura da pele e a maldade e inferioridade do sujeito, pois se temia e odiava num tempo a população cigana recém chegada por sua cor morena e sua suposta proezas “amatórias”. A margem que este interesse e a antipatia pelo outro de pele morena alcançaram no norte da Europa uma intensidade excepcional, a verdade é que quase todo mundo reconhece que a partir de 1650 se incrementaram sentimentos claramente racistas, e que estes sentimentos se intensificaram em grande medida na colonização de América do Norte, com a dupla política de extermínio da população nativa, por uma parte, e de escravizações de africanos, por outra. […] O autor clássico que mais citavam para justificar a escravidão foi Aristóteles, em muitas passagens podem encontrar-se alegações em defesa dela. A frequência das citações tinha também que ver com o feito de que toda a obra desse autor palpita a crença na superioridade intrínseca dos gregos frente aos demais povos. […] Aristóteles relacionava “a superioridade racial” ao direito a escravizar os outros povos. Sobre todos aqueles que tinham “disposição natural para escravidão”. Parece que no pensamento de John Locke […], tinha grande importância uma concepção similar das diferenças raciais. Não cabe dúvida de que Locke, tinha interesses pessoais nas colônias norte-americanos escravistas, era o que hoje denominaríamos de racista, o mesmo que o grande filósofo do século XVIII, David Hume. Bastante discutido se isso repercutia ou não sobre a sua filosofia, mas os argumentos de Harry Bracken e Noam Chomsky defendendo essas teses eram resultados muito plausíveis. Para as ideias políticas de Locke resulta imprescindível a desqualificação dos indígenas da América do Norte, pois as terras que habitavam os nativos tinham que ser convertidas em desertos para a instalação dos ingleses e outros colonizadores. A existência de semelhante tipo de colonização era necessária para justificar a teoria de eleger entre aceitar o contrato social, com todas as suas evidentes desigualdades, ou de não o aceitar. Locke negou justificar a escravidão de pessoas de uma mesma nacionalidade, e chama de mera “servidão” o legado escravista deste tipo. Ao seu juízo, e para maioria dos pensadores de sua época, a escravidão estava justificada unicamente para os prisioneiros capturados no transcurso de uma guerra justa, em substituição da morte, que do contrário, infligiria merecidamente. Os ataques perpetrados pela Europa Cristã contra os gentis africanos e os norte-americanos, por exemplo, eram consideradas “guerras justas”. Pela simples razão de que estes não defendiam as suas propriedades, senão simplesmente umas “terras baldias”. Locke tinha a curiosa ideia, por ser conveniente para ele, de que africanos e norte-americanos não praticavam a arte da agricultura e, segundo ele, o único título que dá direito a posse da terra é seu cultivo. Semelhante teoria permitia aos europeus fazer escravos os negros. Aliás, a própria existência de grandes quantidades confirmava a crença que eram “escravos por natureza” em sentido aristotélico. […] Em resumo, não cabe dúvida alguma de que Locke e a maioria dos pensadores da língua inglesa, como David Hume e Benjamin Franklin eram racistas: são porta-vozes da opinião popular que olhava a cor escura da pele um signo de inferioridade moral e mental. No caso de Hume, o racismo chega a superar a tradição religiosa convencional, que converte em pioneira da teoria que afirma a existência de uma criação […] A importância do racismo na sociedade europeia a partir de 1700 fica demonstrada pelo feito que essa teoria “poligenética” das origens do homem seguiu fomentando até o começo do século XIX, incluso traz o ressurgimento do cristianismo. Na França do século XVIII, o racismo não era tão ostensivo. Porém, o esquema de Aristóteles — e o pseudo Platão, baseado num determinismo climático e topográfico, que tanto influenciou o século XVI a obra de Jean Bodin, foi ressuscitado no século XVIII por Montesquieu. Montesquieu se fez famosíssimo em 1721 graças as suas cartas persas. Por uma parte, utilizava nelas os distinguidos persas para efetuar uma crítica satírica de Europa, mas, por outra, estabelecia a imagem da Europa como continente científico e “progressista”. E tal privilégio se explicava a partir do benéfico e moderado do seu clima. […] Em seu Contrato Social, publicado em 1762, Rousseau atacava violentamente toda possível justificação da escravidão. Mas, por outra parte, seguia a escola do determinismo climático, convencido de que as virtudes e as capacidades políticas de um povo, depende do clima e da geografia. Como bom eurocêntrico, demonstra pouquíssimo interesse pelo Egito e pela China. Esta mesma característica será assim mesmo visível posteriormente nos românticos, cujas preferências vão quase indefectivelmente pelas terras brumosas escarpadas do norte da Europa, considerado como o autêntico santuário das virtudes humanas.” (BERNAL, 2003, p. 201)

Black Athena (crédito: reprodução)

Exemplos de Racismo na Filosofia

“Os negros da África não possuem, por natureza, nenhum sentimento que se eleve acima do ridículo. O senhor Hume desafia qualquer um a citar um único exemplo em que um negro tenha mostrado talentos, e afirma: dentre os milhões de pretos que foram deportados de seus países, não obstante muitos deles terem sido postos em liberdade, não se encontrou um único sequer que apresentasse algo grandioso na arte ou na ciência, ou em qualquer outra aptidão; já́ entre os brancos, constantemente arrojam-se aqueles que, saídos da plebe mais baixa, adquirem no mundo certo prestígio, por força de dons excelentes. Tão essencial é a diferença entre essas duas raças humanas, que parece ser tão grande em relação às capacidades mentais quanto à diferença de cores. A religião do fetiche, tão difundida entre eles, talvez seja uma espécie de idolatria, que se aprofunda tanto no ridículo quanto parece possível à natureza humana. A pluma de um pássaro, o chifre de uma vaca, uma concha, ou qualquer outra coisa ordinária, tão logo seja consagrada por algumas palavras, tornam-se objeto de adoração e invocação nos esconjuros. Os negros são muito vaidosos, mas à sua própria maneira, e tão matraqueadores, que se deve dispersá-los a pauladas.” (KANT, 1993, p. 75).

“A principal característica dos negros é que sua consciência ainda não atingiu a intuição de qualquer objetividade fixa, como Deus, como leis, pelas quais o homem se encontraria com a própria vontade, e onde ele teria uma ideia geral de sua essência […] O negro representa, como já foi dito, o homem natural, selvagem e indomável. Devemos nos livrar de toda reverência, de toda moralidade e de tudo o que chamamos sentimento, para realmente compreendê-lo. Neles, nada evoca a ideia do caráter humano[…]. A carência de valor dos homens chega a ser inacreditável. A tirania não é considerada uma injustiça, e comer carne humana é considerado algo comum e permitido […] Entre os negros, os sentimentos morais são totalmente fracos – ou, para ser mais exato, inexistentes.” (HEGEL, 1999, p. 83)

3ª Etapa: Atividades

1. Procurem no dicionário os termos desconhecidos dos textos filosóficos e sociológicos e anotem no caderno (disponibilizar o roteiro da atividade, bem como a entrega da tarefa feita pelos/as alunos/as na plataforma Google Classroom).

2. Respondam:
A. Quais são os Direitos Naturais para John Locke?
B. O que é a helenomanía para Martin Bernal?
C. Qual é a crítica de Martin Bernal a John Locke? Explique.

● Disponibilizar o roteiro da atividade, bem como a entrega da tarefa feita pelos/as alunos/as na plataforma Google Classroom.

3. Assista ao vídeo e disserte no caderno a relação do texto com o debate sobre a demarcação das terras indígenas. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=IL9z5k24xI8 .
● Disponibilizar o roteiro da atividade, bem como a entrega da tarefa feita pelos/as alunos/as na plataforma Google Classroom.

4. Promover uma “roda de conversa” a respeito das leituras e dos vídeos assistidos, com a problemática “Seria possível pensar nas teorias contratualistas como modelos que geram as condições de genocídio dos povos indígenas no Brasil ou em toda América?”, ou ainda, “Seria possível pensar na relação dos textos de Martin Bernal com a fala da Senadora Soraya e da indígena Sônia Guajajara? Quais são as relações?”. Tal debate pode ser realizado em uma aula ao vivo online através da plataforma Jitsi Meet, os/as alunos/as podem contribuir com o debate por meio do chat (escrita) disponibilizado na plataforma ou da habilitação de seus microfones (áudio).

Plano de aula elaborado pelo Prof. Mestre Fabiano Bitencourt Monge
Adaptação para o ensino remoto elaborada pela Prof.ª Dr.ª Nathalie Lousan

Materiais Relacionados

1. BERNAL, Martin. Black Athena: The Afrosiatic Roots of Classical Civilization. New Brunswick: Rutgers University Press, 2003.
2. COTRIM, G.; FERNANDES, M. Fundamentos da Filosofia. São Paulo: Saraiva, 2016.
3. HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Filosofia da História. Brasília: Ed. UnB, 1999.
4. LOCKE, John. Dois tratados sobre o governo. Tradução Julio Fischer. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
5. LOCKE, John. Ensaio acerca do entendimento humano. Tradução Eduardo Abranches de Soveral. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2009.
6. KANT, Immanuel. Observações sobre o sentimento do belo e do sublime. São Paulo: Papirus, 1993.
7. NOGUERA, Renato. O Ensino de Filosofia e a Lei 10.639. Rio de Janeiro: editora Pallas, 2011.
8. Experiência docente: atendimento domiciliar – Professor Fabiano Bitencourt Monge.
9. John Locke – LIBERALISMO POLÍTICO – Prof. Anderson.

Para aprofundamento na obra de Martin Bernal:
10. Minicurso Black Athena de Martin Bernal, Sessão 1.
Observação: Iniciar no minuto 14.
11. Minicurso Black Athena de Martin Bernal, Sessão 2.
Observação: Iniciar no minuto 32.

12. Sônia Guajajara desmonta preconceito indígena de senadora do PSL.

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