Conteúdos

– Introdução à teoria de Weber e conceitos gerais;
– Teoria política;
– Obra “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”.

Objetivos

– Compreender a teoria de Max Weber, um dos principais escritores da sociologia clássica.

1ª Etapa: Sobre o autor e seu contexto

Para começar, é importante que o(a) professor(a) apresente o autor e faça um breve histórico de seu contexto. É aconselhável levar imagens do mesmo e da época da Revolução Industrial, a fim de retratar a nova organização social. Seguem elementos para embasar a aula:

Karl Emil Maximilian Weber, conhecido como Max Weber, nasceu em Erturt, Alemanha, em 21 de abril de 1864. Em 1869, Weber muda-se para Berlim com sua família e em 1882 matricula-se na Faculdade de Direito de Heidelberg, continuando seus estudos mais tarde em Göttingen e Berlim, em ambas se dedicou simultaneamente à economia, história, filosofia e ao direito, além de sua formação secundária em línguas, história e literatura clássica. Weber só pode se dedicar aos estudos porque era de uma família rica, seu pai foi um influente advogado e político. Em 1888, concluiu seus estudos e começou a trabalhar nos tribunais e na universidade em Berlim. Seis anos depois, torna-se professor de economia na Universidade de Freiburg, transferindo-se para Heidelberg dois anos mais tarde. Após a morte de seu pai, Weber passar por profunda depressão e se afasta do trabalho por um longo período. Em 1903, consegue retornar ao trabalho como coeditor do Arquivo de Ciências Sociais. Nessa mesma revista, em 1904, publica a primeira parte de “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”. A segunda parte é publicada em 1905, após a viagem do autor para os Estados Unidos. Atua na Primeira Guerra Mundial em posto de capitão, encarregado de organizar e administrar hospitais militares em Heidelberg. Após o fim do conflito, Weber foi conselheiro do Tratado de Versalhes, intentando amenizar os prejuízos da Alemanha. Foi, também, um dos responsáveis pela elaboração da Constituição da República de Weimar. Faleceu na cidade de Munique em 14 de junho de 1920, em consequência da “gripe espanhola”. A segunda edição do livro “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, revisado e ampliado pelo próprio autor, foi publicada em 1920, pouco depois de sua morte. Em 1925, o livro “Economia e Sociedade”, resultado de anos de trabalho de Weber, foi publicado pela primeira vez.

Para compreender esse autor, é importante entender o contexto histórico em que viveu. A Europa, no final do século XVIII e início do século XIX, vivia a Revolução Industrial, processo que transformou profundamente aspectos sociais, econômicos e culturais da sociedade europeia. A grande indústria possibilitava a fabricação de grandes quantidades de produtos, cuja produção não estava mais interligada à demanda, mas a um conjunto de medidas que criavam necessidades e mercados para o escoamento em larga escala desses produtos. A luz elétrica contribuiu para um alargamento dos dias, resultando em grandes mudanças de hábitos. O trem representava a agilidade das transformações dessa sociedade e contribuía para um maior intercâmbio cultural e de mercadorias entre as cidades.

A Revolução Industrial ampliou as cidades e estabeleceu uma nova relação entre as pessoas – a de patrão e empregado. A exploração da mão de obra daqueles que não tinham condições de abrir sua própria fábrica ou concorrer com os preços da grande indústria, criou miséria e desumanização. Com o passar do tempo, a mecanização e ampliação dos pastos e a consequente evasão da população para as cidades – em busca do sonho de melhores condições de vida – baratearam a mão de obra e resultaram em uma grande massa de trabalhadores marginalizados e empobrecidos. A falta de regulamentação dessa nova forma de trabalho fez com que homens, mulheres e crianças fossem expostos a jornadas de 15/18 horas por dia, há registros de óbito por exaustão. O ritmo do trabalho não era mais delineado pela vontade humana e sim pela máquina – ininterrupto e regular, trazendo consigo a disciplina fabril e o trabalho noturno. Ao mesmo tempo, a ideia de progresso e liberdade era amplamente difundida a partir das Revoluções Francesa (1789) e Americana (1776).

É nesse contexto que surgem grandes estudos sobre a sociedade a partir de autores como Auguste Comte, Karl Marx, Max Weber, Émile Durkheim, entre outros. O debate político, cultural, filosófico e econômico da época era amplo e intenso. Cada pensador criou teorias que tentaram explicar o novo funcionamento da sociedade, propondo alternativas para as crises que já se apresentavam na época. O conjunto dessas teorias tornou-se a base da sociologia moderna, sendo reconhecido, atualmente, como sociologia clássica. Quem cunhou a palavra “sociologia” foi Auguste Comte, consolidando-a como a “ciência da sociedade” e trazendo-a para o hall das universidades mais importantes da Europa naquele momento.

2ª Etapa: Introdução à teoria de Weber, conceitos gerais

Para explicar a teoria de Weber é fundamental que o(a) professor(a) já tenha realizado ao menos uma aula sobre Auguste Comte, Émile Durkheim e a sociologia positivista. Tal aula deverá ser interligada com a sociologia compreensiva de Weber. O ponto central da perspectiva weberiana pode ser entendido como o reconhecimento de que a realidade humana não possui um sentido intrínseco e único, dado de modo natural e definitivo, independente das ações humanas. Para ele, os sujeitos se posicionaram diante da realidade, conferindo-lhe sentido.

Ao assumir essa perspectiva, Weber procura excluir das ciências sociais qualquer proposição que busque definir a lógica da história, a dimensão estrutural determinante da sociedade ou o sentido último das ações individuais, pois, todas essas definições, supõem a existência de uma realidade atemporal, naturalmente dada subjacente e determinante dos fenômenos empíricos.

Sendo assim, diferindo da sociologia positivista de Augusto Comte e Émile Durkheim, que analisam a ordem social como algo inerente e exterior aos indivíduos, Weber funda a sociologia compreensiva, cuja análise social parte da ação e motivação dos indivíduos para entender a construção da ordem social (nesse momento o(a) professor(a) poderá desenhar na lousa dois indivíduos, cada um dentro de um círculo; no primeiro, será escrito “sociologia positivista” e serão desenhadas setas de fora para dentro – do círculo para o indivíduo; no segundo, será escrito “sociologia compreensiva” e serão desenhadas setas de dentro do indivíduo para o círculo).

Na sociologia positivista temos as estruturas modelando o comportamento dos homens e mulheres, criando a ordem social a partir de uma ideia de progresso, de fora para dentro (fatos sociais). Na sociologia compreensiva, a ordem social é construída por todos os indivíduos, de dentro para fora (ação social). De maneira simplista, a “ação social” é o indivíduo construindo o mundo, enquanto o “fato social” é o mundo construindo o indivíduo.

Weber tem como objeto da sociologia compreensiva o sentido da ação humana em realidades empíricas concretas, a partir de indivíduos racionais, historicamente localizados, agindo segundo os valores mais diversificados e contraditórios, construindo, de modo mais ou menos consciente, tudo que seria culturalmente significativo. A questão da racionalidade é muito presente em Weber, para ele, o que difere as modernas sociedades ocidentais das outras é a razão, presente, sobretudo, na nova lógica econômica, social e política. Os indivíduos deixaram de explicar o mundo por meio da religião e desenvolveram a ciência racional, autônoma e desencantada (no sentido de que não se apoia em mitos, fatos misteriosos, encantados e não humanos). Essa separação entre religião e ciência fez a sociedade ocidental criar formas diferentes de pensar e agir. Nesse momento, o homem e a mulher modernos rompem com a ideia de um mundo que está dado por Deus ou qualquer outro ser encantado, sustentado por verdades absolutas, regras de conduta e julgamentos morais que orientam a vida dos indivíduos. É preciso agora construir o mundo, as regras, calcular ações e fazer escolhas. A racionalidade passa a estar presente nas ações do homem e da mulher comum.

Conhecer um fenômeno social seria, portanto, compreender o conteúdo simbólico das ações que o configuram. Sendo assim, nenhum fenômeno seria definido por sua essência ou substância fixas. A motivação de um grupo para determinada ação pode ser diferente da motivação de outros grupos, ainda que o resultado seja o mesmo. A partir da formulação de regras para a análise sociológica, Weber criou o “tipo ideal”, instrumento para a análise de sujeitos e situações concretas, a partir de conceitos claramente definidos. Ao comparar fenômenos sociais, o (a) pesquisador (a) deve analisar aspectos semelhantes dos fenômenos e criar um modelo reduzido, o tipo ideal, que não existe na realidade, mas que traz características essenciais que permitem entender o fenômeno social mais complexo. Por exemplo, para estudar a cidade, Weber estudou os diversos tipos de cidades, chegando às características essenciais delas (tipo ideal). Além disso, estudou o capitalismo em suas diferentes formas e, por meio de um tipo ideal (que carregava as características essenciais desse modelo), ele pôde compreender a diferenciação entre o capitalismo moderno e outros conceitos.

Sobre a religião, Weber trata a questão em uma ótica diferente da formulada por Karl Marx, que entendia a economia como estrutura principal e a religião, assim como o Estado e a política, como pilares dessa estrutura principal. Para Weber, não há relação causal entre as coisas, logo, não seria possível que as religiões fossem produto do sistema econômico capitalista. A sociologia deveria, portanto, buscar o caráter intrínseco e permanente das crenças religiosas, partindo dos indivíduos e não apenas as situações temporárias e externas da história e da política.

3ª Etapa: Teoria de Weber

Para o aprofundamento na teoria de Weber é importante que o(a) professor(a) escreva na lousa seus principais tópicos e faça uma discussão mais profunda com os estudantes. Pergunte o que sabem de cada tópico, o que imaginam e tente dar exemplos atuais em suas explicações, assim, o conteúdo ficará mais envolvente e dinâmico. Seguem os tópicos a serem discutidos:

Ação Social:

A ação social é uma conduta humana com significado subjetivo, podendo ser pública ou privada, considera o comportamento dos outros e é por eles afetada, ou seja, a ação social é aquela que leva em conta as ações e reações dos indivíduos. Por exemplo, o ato de escrever: escrever uma carta pode ser uma ação social quando se tem a intenção de que ela seja lida por outra pessoa. Contudo, quando um poeta escreve uma poesia somente para expressar as suas sensações e depois a guarda na gaveta, não pode ser considerada uma ação social.

Para Weber, a função do sociólogo é tentar compreender as ações sociais e seus sentidos; compreendê-las é conseguir entender o porquê estão sendo realizadas. Sendo assim, o autor criou formas de caracterização das ações sociais:

– Racional visando fins: ação que visa um fim racionalmente avaliado a partir de uma expectativa de comportamento de objetos e de outros sujeitos. Por exemplo, quando um engenheiro projeta um prédio, ele traça objetivos concretos para atingir seu objetivo – o prédio construído – e depende, para a realização dessa tarefa, que os objetos (materiais de construção) e funcionários ajam de acordo com a expectativa (projeto).

– Racional visando valores: determinado por valores éticos, estéticos, religiosos, entre outros. Sem visar algum resultado específico e sim os méritos desse valor. Por exemplo, as pessoas que fazem caridade esperando atingir a salvação divina.

– Afetiva: ação passional, determinada por sentimentos. Por exemplo, alguém mata outra pessoa por inveja, paixão ou medo.

– Tradicional: determinada por costumes e tradições. Por exemplo, pessoas de determinada cultura comem um tipo específico de comida; ou usam determinados tipos de roupas; ou fazem algum ritual tradicional.

Uma ação social pode ter uma ou mais dessas características juntas. É muito difícil encontrar uma ação com característica exclusiva.

– Dominação, poder e legitimação:

Para Weber, dominação é quando o poder é exercido e legitimado por meio de tradições e costumes, leis e regras estabelecidas e aceitas por todos ou de forma carismática. Ter poder sobre o outro é ter a capacidade de influenciar o seu comportamento, fazendo-o obedecer às ordens, às vezes, até irracionais. A crença dos dominados, em relação ao dominador, legitima a dominação.

Os três tipos de Dominação, segundo Weber:

– Tradicional: a legitimação ocorre por meio do respeito, tradição, admiração, sentimento. A figura do líder mantém a dominação e estabelece regras que são compreendidas por todos como tradicionais e invioláveis. Esse tipo de dominação é estável e se apoia na honra e na lealdade. Exemplos: a dominação patriarcal (tipo mais puro dessa dominação), rei/súdito etc.

– Carismática: a dominação é sustentada por afeto ao líder. A influência é possível devido às qualidades pessoais, tais como faculdades mágicas, revelações, heroísmo e poder intelectual ou de oratória. O carisma do líder promove confiança e faz com que as pessoas o respeitem e o sigam. Esse tipo de dominação se assenta em crenças e é extremamente personificada, podendo ser facilmente perdida. Configura-se como uma forma instável de dominação. Exemplos: heróis das revoluções (Gandhi; Tiradentes); líderes populistas (Lula, Fidel Castro, Adolf Hitler).

– Legal: tem como base regras, estatutos e leis, ou seja, base jurídico-legal. Nesse tipo não importa a pessoa, a autoridade está no cargo ocupado e, portanto, não existe uma relação de sentimento. A autoridade é consentida legalmente. Tal dominação surgiu com a consolidação do sistema capitalista, que realizou a transição de uma sociedade baseada em tradições para uma sociedade racional. Exemplo: contribuinte e Estado; polícia e cidadão; capitalista e trabalhador.

4ª Etapa: A ética protestante e o espírito do capitalismo

Esse é o livro mais importante de Max Weber e sobre o qual o autor se debruçou por muitos anos. É aconselhável que o(a) professor(a) leve o livro para a aula e mostre aos alunos. Serão selecionadas algumas partes para leitura, mesmo assim, é importante que o(a) professor(a) tenha um resumo em mente para dialogar com a turma. Abaixo segue uma resenha do livro que pode embasar a discussão:

Uma vez indicado o papel que as crenças religiosas teriam exercido na gênese do espírito capitalista, Weber propõe-se a investigar quais elementos dessas crenças atuaram no sentido indicado e procura definir o que entende por “espírito do capitalismo”. Esse é entendido por Weber como constituído fundamentalmente por uma ética peculiar, como a encontrada no colono americano Benjamin Franklin, um dos líderes da independência dos Estados Unidos. Para ele, “tempo é dinheiro”.

O livro de Weber busca, através da análise da velha teologia protestante e da nova sociologia alemã, compreender o capitalismo não como sistema econômico ou modo de produção, mas sim o capitalismo como espírito, cultura e conduta de vida. Weber procurou sociologicamente uma relação histórica entre o protestantismo e o capitalismo, dentro de um fenômeno observado na passagem do século XIX para o XX, onde se via uma maior participação dos protestantes na propriedade do capital e nos postos de direção na economia moderna.

O livro é constituído em duas partes. A primeira, intitulada “O Problema”, divide-se em três capítulos e é onde o autor faz um levantamento geral de toda a estrutura social da época, analisa o tradicionalismo e o capitalismo ascendente, já problematizando e questionando a influência da religião nos ramos culturais, econômicos e morais e, por fim, analisa Lutero e o nascimento do luteranismo com a Reforma Protestante. A segunda parte, intitulada “A Ideia de Profissão do protestantismo Ascético”, divide-se em mais dois capítulos, nos quais Weber faz primeiramente uma pesquisa das crenças religiosas e seus efeitos específicos, analisando quatro correntes (calvinismo, pietismo, metodismo e seitas anabatistas e batistas).

No primeiro capítulo da primeira parte, o autor, assim como o nome do capítulo sugere, faz uma estratificação social, mostrando a acentuada inclinação específica para o racionalismo econômico, no protestantismo, e o inverso entre os católicos. Além de outra estratificação dentro de cada religião, quanto às camadas sociais e suas relações com a economia, que também é feita por regiões.

Weber começa o segundo capítulo com máximas de Benjamin Franklin, tentando demonstrar o “espírito” do capitalismo expresso nas falas e que remetem ao ethos (segundo Weber: determinado estilo de vida regido por normas e ética). Para Weber, esse ethos esteve presente na Europa Ocidental e na América do Norte, onde o capitalismo cresceu e se desenvolveu. O autor afirma que o capitalismo existiu em outras regiões do planeta, mas não se desenvolveu pela carência do ethos. Somente nessas duas regiões verificou-se a existência desse “estilo de vida” e, em alguns desses lugares, até mesmo antes do surgimento do capitalismo. Ainda sobre as máximas, Weber declara que a moral de Franklin está justamente na habilidade da profissão, que como causa, traz o ganho de dinheiro.

A cobiça também aparece nesse capítulo e, sobre ela, o autor afirma que quem a possuía não era de forma alguma os representantes do “espírito” capitalista. A ânsia por dinheiro e a falta de escrúpulos dessa busca é tida como lamentável, porém inevitável no homem pré-capitalista, que ainda não obtinha o conhecimento da valorização racional do capital ou a organização capitalista racional do trabalho.

Para Weber, um dos maiores entraves para o desenvolvimento capitalista foi o tradicionalismo, pois nesse modelo os indivíduos queriam ganhar somente o necessário para viver como estavam habituados, ou seja, não existia a criação de novas necessidades e o trabalho árduo para conquistá-las. Um exemplo citado no texto é: se o trabalhador ganha por hora e seu salário sobe com o passar do tempo, não significa que receberá mais e sim que precisará trabalhar menos para ganhar o mesmo salário. O tradicionalismo, portanto, foi um grande entrave ao “espírito” capitalista nascente, mas não por muito tempo. Discretamente, essa situação começa a mudar e homens e mulheres passam a buscar a sensação de dever profissional cumprido. As formas capitalistas nos negócios passaram, pouco a pouco, a ser legitimadas, aceitando, sobre tudo, que o comércio e a indústria eram necessários.

Nesse capítulo, Weber trata de uma questão importante, o racionalismo econômico. Para o autor, “o desenvolvimento do ‘espírito capitalista’ seria mais fácil de compreender como fenômeno parcial no desenvolvimento do racionalismo como um todo e deveria ser inferido da posição de princípio referente aos problemas últimos da vida.” (WEBER, 2004, p. 67). O racionalismo pertenceria então, ao novo capitalista, aquele que não se contenta em ganhar somente “o necessário”, mas que procura obter lucro para reinvestir nos negócios, garantindo o sucesso econômico. É um novo indivíduo, ganha seu dinheiro de forma legítima, não rouba ou trapaceia e não perde tempo com o gozo. Para Weber, o protestantismo só irá se aproximar desse novo “espírito” capitalista na medida em que desempenhar a concepção de vida puramente racional.

No terceiro e último capítulo da primeira parte, Weber tratará de Lutero e de sua filosofia. Um dos principais pontos é: Weber afirma que Lutero rejeitaria uma disposição mental como a de Benjamin Franklin ou esse “espírito” capitalista, porém, um dos maiores feitos da Reforma Protestante é o fato dela ter introduzido um conceito totalmente novo: o cumprimento dos deveres intramundanos como a única via de agradar a Deus. Esse conceito dava ênfase moral e prêmio religioso para o trabalho profissional, mas, mesmo que contrastante com o catolicismo, ainda ficava no campo do tradicionalismo e, assim como Weber afirma, se aprofundou com o passar do tempo. Outro conceito que demonstra o tradicionalismo de Lutero ao interpretar a Bíblia é o de “destinação”: o indivíduo deve permanecer onde Deus o colocou e manter sua ambição dentro dos limites dessa posição, não almejando nada superior. Fica claro aqui que a legitimação do lucro e, sobretudo do sucesso profissional, não veio de Lutero e sim dos desdobramentos do protestantismo.

Uma manifestação bastante importante do protestantismo foi o calvinismo, que trouxe uma relação entre vida religiosa e ação terrena totalmente diversa do catolicismo e do luteranismo. Claro que nenhuma comunidade religiosa estava em busca do “espírito” capitalista e nem ele é produto da Reforma. O real eixo do calvinismo, assim como do luteranismo e em diversas correntes religiosas, era unicamente a salvação da alma.

O primeiro capítulo da segunda parte é o mais longo do livro. Nele, Weber discorre sobre quatro manifestações religiosas (calvinismo, pietismo, metodismo e seitas anabatistas e batistas) que ele julga como sendo as principais fontes, juntas ou separadas, para todas as outras que surgiram dentro do protestantismo. Weber afirma que importa “rastrear aqueles estímulos psicológicos criados pela fé religiosa e pela prática de um viver religioso que davam a direção da conduta de vida e mantinham o indivíduo ligado nela”. (WEBER, 2004, p. 89). A partir disso, o autor discorre sobre cada uma das quatro correntes, sublinhando os pontos mais importantes, as visões sobre a Bíblia e a conduta moral, cultural e profissional de cada uma, assim como a relação dos seguidores dessas religiões com Deus.

No capítulo final dessa parte e, também, do livro, o autor discorre sobre o puritanismo inglês, nascido do calvinismo, e um dos seus principais representantes, Richard Baxter. O autor acredita que essa corrente oferece a fundamentação mais coerente da ideia de vocação profissional para o estudo. Nela, só serve a ação, pois são condenadas a perda de tempo com a sociabilidade, o luxo e até o sono – o mais grave de todos os pecados. Cada hora perdida é trabalho subtraído ao serviço da glória de Deus e é justamente esse trabalho, duro, profissional e racional, que salva a alma e leva à Deus. A sua ausência significa “ausência de graça divina”. O trabalho é essencial até para os ricos, pois o que importa é o “ato” e não o dinheiro. Além disso, não é qualquer trabalho que é bem visto para Deus, trabalhos temporários são precários e deixam o homem com mais tempo livre para “vagabundear”.  Porém, aqui o autor faz uma ressalva: mudar de profissão ou ter mais do que uma não seria algo condenável. O trabalho, portanto, se orienta em termos morais, para o bem da coletividade. A capacidade de dar lucro é o “termômetro” que demonstra se o trabalho está sendo realizado de forma divina ou contestável. Um homem ou mulher jamais podem escolher a forma menos lucrativa, ou abandonar-se ao ócio. Também é condenável trabalhar pensando em descanso futuro, pois, quanto mais posses, maior a responsabilidade de conservá-las e multiplica-las.

A junção (de dois fenômenos que se ajudaram; não um sobre o outro ou um criando o outro) da nascente “espírito” capitalista e o protestantismo fez ambos se desenvolverem. O protestantismo (contra o gozo descontraído e o consumo de luxo; a favor do enriquecimento, do lucro e do uso racional das posses) alavancou o capitalismo quando a valorização e o investimento do capital foram tornados “divinos”. Weber destaca ainda que o protestantismo punha à disposição trabalhadores eficientes e comprometidos com o trabalho e que tinham ampla aceitação da divisão desigual de bens por obra divina. O protestantismo produziu o estímulo psicológico que faltava para o pleno desenvolvimento capitalista. Segundo Weber:

A valorização religiosa do trabalho profissional mundano, sem descanso, continuado, sistemático, como o meio ascético simplesmente supremo e a um só tempo, comprovação o mais segura e visível da regeneração de um ser humano e da autenticidade de sua fé, tinha que ser, no fim das contas, a alavanca mais poderosa que se pode imaginar da expansão dessa concepção de vida que aqui temos chamado de “espírito” do capitalismo. (WEBER, 2004, p. 157).

No último capítulo, ele retoma a tese principal e conclui que os objetivos da ética protestante, em um determinado momento, contribuíram para o desenvolvimento do capitalismo. Trata-se, portanto, de dois fenômenos distintos que se entrecruzaram em um determinado momento histórico e não necessariamente permaneceram unidos. Não há, portanto, uma relação de causa e efeito entre a ética protestante e o espírito do capitalismo, como à primeira vista possa parecer, mas uma interpenetração de conexões de sentido. A doutrina da predestinação, contribuiu para a legitimação do capitalismo moderno, mas de forma alguma Weber refere-se a ela como sua causa.

Para Weber, o “capitalismo” só pode ser apreendido em seu sentido significativo. Dessa maneira, seu desenvolvimento não parte necessariamente de uma base material determinada, mas de vários processos simbólicos, a exemplo do racionalismo, do desencantamento religioso, da secularização e da racionalização. Nesse sentido, tais aspectos podem coexistir de forma simultânea sem pertencerem à uma origem ou determinação comum. Ao partirmos para uma interpretação baseada na captação de conexões de sentido, torna-se impossível o estabelecimento de relações causais. Com sólidos conhecimentos acerca do desenrolar histórico, o autor empenha-se em apresentar clara e detalhadamente as circunstâncias e características do objeto estudado, levando-nos a compreender as várias linhas religiosas do protestantismo, bem como descobrir sua real relação com o capitalismo, além de mostrar, na conclusão, os seguintes passos desse processo que ocorre com a forte racionalização econômica e para onde isso possivelmente irá nos levar.

Todo o texto é construído sobre uma forma de questionamento e análise dos fatos e da época estudada, não superficialmente, mas justamente aprofundando o problema, analisando todo o processo, argumentando, demonstrando. Esse tipo de texto deixa o leitor ansioso para chegar à conclusão, porque é somente nela que o autor responde todas as perguntas que foram deixadas ao longo do texto. Porém, durante a leitura, é possível ir traçando ligações de sentido. Os exemplos citados amplamente nos auxiliam na compreensão do estudo e nos possibilitam analisar e confrontar várias posições já discutidas anteriormente sobre o tema.

5ª Etapa: Atividade em grupo

Suponhamos que as teorias sejam óculos que vestimos para “enxergarmos a realidade”. Agora que compreendemos melhor a teoria de Weber, podemos usá-la (como óculos) para tentar entender aspectos curiosos da nossa sociedade. Separe a sala em grupos (pode ser de 4/6 pessoas) e selecione um tema gerador para cada grupo – pode ser qualquer um, desde que represente uma ação social como descrita por Weber. A partir desses temas, peça para que os estudantes o pesquisem a fundo, levando em consideração os caminhos trilhados pelo autor na construção da teoria sobre “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”. Por exemplo, elencaram como tema o “futebol” (ou esportes em geral). Peça aos estudantes que o classifiquem dentro das ações sociais, pesquisem seu histórico, seu impacto na sociedade, verifiquem se há algum tipo de dominação, construindo uma crítica social sobre o jogo embasada na teoria de Weber. Não será uma tarefa fácil, mas pode ser um bom exercício para incentivar a análise e a crítica social. Faça uma aula de apresentação e discussão sobre os resultados das pesquisas.

6ª Etapa: Bibliografia

PIERUCCI, Antônio Flávio. Secularização em Max Weber, Da contemporânea serventia de voltarmos a acessar – aquele velho sentido. IN.: Revista Brasileira de Ciências Sociais, Vol.13, Nº 37, São Paulo, 1998, p.43 – 73.

WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo: Livraria Pioneira Editora, 1967.

WEBER, Max. Ensaios de Sociologia. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1963.

Materiais Relacionados

1 – Para entender melhor sobre o tema, é preciso que o(a) professor(a) esteja bem informado(a) sobre o contexto do autor e suas principais publicações. Para tanto, nesse plano de aula há referências importantes.

2 – O(A) professor(a) poderá indicar aos estudantes, ou até mesmo exibir em sala de aula, o filme “Tempos Modernos”, de Charlie Chaplin, que, apesar de retratar o período da Grande Depressão (1929), traz os problemas gerados pela grande indústria. É possível fazer, a partir do filme, relações com a teoria de Max Weber. A racionalidade humana, um dos principais conceitos da teoria weberiana, está presente no relógio, na organização da fábrica, na divisão de tarefas e na linha de produção. Indicamos a cena em que Carlitos (protagonista) é cobaia para testar a “máquina de alimentar”, objeto que demonstra o esforço da sociedade ocidental em criar mecanismos para conseguir mais dinheiro a partir da criação de máquinas e novos processos de produção. O relógio em cima da mesa do dono da fábrica, registrando o quanto ele ganhou, remete ao conselho de Benjamin Franklin, “tempo é dinheiro”, utilizado por Weber em “A Ética”.

3 – Ao final da aula teórica, sugere-se uma pesquisa em grupo. Sendo assim, é importante que a aula seja dividida em dias diferentes para que os estudantes tenham tempo de pesquisar os temas propostos e tragam um trabalho para ser apresentado à classe. O tempo de apresentação também é importante, recomenda-se duas aulas para realizar um debate sobre os resultados.

4 – É muito importante que o(a) professor(a) use a lousa para escrever os tópicos da teoria weberiana e definir os conceitos fundamentais.

 

Arquivos anexados

  1. Plano de aula – Max Weber

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Professora Malú Morales
Professora Malú Morales
2 anos atrás

Excelente material! Obrigada!

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