Conteúdos

Este plano de aula propõe uma sequência didática de leitura, interpretação e criação literária a partir de poemas de Manoel de Barros. A proposta visa desenvolver nos/as estudantes uma postura leitora sensível, capaz de perceber a poesia como forma de olhar o mundo. Por meio de atividades de leitura compartilhada, análise da linguagem, reescrita criativa e reflexão filosófica, os/as estudantes exploram recursos expressivos como metáfora, imagens poéticas, deslocamento do olhar, crítica social e relação com a natureza.

Objetivos

  • Analisar poemas de Manoel de Barros, identificando temas, imagens, recursos expressivos e críticas implícitas.
  • Reconhecer características do estilo poético de Manoel de Barros.
  • Refletir sobre a perspectiva poética como forma de perceber o mundo.
  • Refletir sobre a ideia de “mudança de ponto de vista” em textos poéticos.
  • Produzir textos poéticos inspirados no estilo do autor.
  • Exercitar a criatividade por meio da produção de versos inspirados no autor.

Conteúdos/Objetos do conhecimento:

  • Poesia e linguagem poética.
  • Metáforas e imagens poéticas.
  • Ponto de vista e deslocamento do olhar.
  • Estilo de Manoel de Barros.
  • Produção de poemas.

Palavras-chave:

Poema. Manoel de Barros; Metáfora; Olhar poético; Natureza; Criação literária.

Previsão para aplicação:

3 aulas (50 min).

1ª Etapa: Levantando os conhecimentos

Comece levantando os conhecimentos prévios da turma sobre o escritor Manoel de Barros e suas obras.

Apresente quem foi Manoel de Barros, fale sobre sua vida e obra (com imagens, trechos curtos e conversa livre.

Manoel de Barros é um dos autores mais importantes da literatura brasileira contemporânea. Sua sensibilidade poética convida o leitor a perceber o mundo para além da obviedade. Seus textos valorizam o ínfimo, a natureza, o olhar infantil, a percepção sensorial e a liberdade imaginativa.

Em resumo:

  • escritor conhecido como “o poeta das infâncias”, “menino do mato”;
  • relação com o Pantanal e com a natureza;
  • valorização de seres pequenos e esquecidos;
  • linguagem inventiva;
  • perspectiva de ‘desver o mundo’;
  • valorização do olhar infantil e da liberdade;
  • estilo que carrega simplicidade e erudição;
  • relação íntima com a língua portuguesa;
  • originalidade de elaboração da linguagem;
  • uso de metáforas inusitadas;
  • crítica à sociedade do consumo;
  • valorização das coisas que não podem ser compradas.

Leia trechos diversos de poemas de Manoel de Barros para que os/as estudantes possam conhecer, refletir e ampliar o repertório literário. Algumas sugestões a seguir – os próprios títulos dos livros podem ser usados como reflexão com a turma.

2ª Etapa: Leitura e análise textual

Pergunte: “Se você pudesse ver o mundo pelos olhos de outro ser, qual seria? E por quê?”; “Como seria ver o mundo pelos olhos das aves ou dos insetos?”

Compartilhamento oral.

Apresente o poema ‘Borboletas’, de Manoel de Barros, fazendo leitura em voz alta à turma.

Borboletas

Manoel de Barros

Borboletas me convidaram a elas.
O privilégio insetal de ser uma borboleta me atraiu.
Por certo eu iria ter uma visão diferente dos homens e das coisas.
Eu imaginava que o mundo visto de uma borboleta seria, com certeza,
um mundo livre aos poemas.
Daquele ponto de vista:
Vi que as árvores são mais competentes em auroras do que os homens.
Vi que as tardes são mais aproveitadas pelas garças do que pelos homens.
Vi que as águas têm mais qualidade para a paz do que os homens.
Vi que as andorinhas sabem mais das chuvas do que os cientistas.
Poderia narrar muitas coisas ainda que pude ver do ponto de vista de
uma borboleta.
Ali até o meu fascínio era azul

Peça para que os/as estudantes falem sobre suas impressões e sentimentos sobre o poema lido. Leia cada verso, pausadamente, e estimule comentários:

  • sensações e imagens criadas;
  • metáforas percebidas;
  • relação entre homem e natureza;
  • crítica social;
  • simbolismo da cor azul;
  • o que revela o ponto de vista da borboleta.

Faça uma análise da linguagem escrita usada no poema, coletivamente.

Possíveis questões para conversa:

  • Poderia narrar muitas coisas ainda que pude ver do ponto de vista de
    uma borboleta
    ” – Quem narra o poema?
  • O que significa “o privilégio insetal”?
  • Por que olhar “como borboleta” muda tudo?
  • Como a mudança de ponto de vista transforma a percepção do mundo?
  • Quais metáforas e imagens chamaram mais a sua atenção?
  • Que críticas aos humanos aparecem no texto?
  • O que simboliza o “fascínio azul”?

Como esse poema se relaciona com outros temas de Manoel de Barros (natureza, crítica social, olhar poético, invenção de palavras)?

A proposta aqui é oportunizar experiências de leitura literária, favorecendo a formação de leitores críticos, sensíveis e criativos. O poema “Borboletas” permite trabalhar temas como metamorfose, ponto de vista, crítica social, simplicidade, invenção de linguagem e sensibilidade ecológica, conectando literatura e mundo real.

3ª Etapa: Reescrita de versos

Organize a turma em duplas e proponha uma reescrita criativa à maneira de Manoel de Barros. Para isso releia o trecho do poema:

Vi que as árvores são mais competentes em auroras do que os homens.
Vi que as tardes são mais aproveitadas pelas garças do que pelos homens.
Vi que as águas têm mais qualidade para a paz do que os homens.
Vi que as andorinhas sabem mais das chuvas do que os cientistas
.”

Cada dupla deverá usar esse trecho como inspiração e criar um verso sob outro ponto de vista, por exemplo:

  • “As pedras sabem mais dos silêncios do que os homens.”
  • “Os rios entendem mais de partidas do que as pessoas.”

Ao final, peça para que compartilhem as criações em voz alta com a turma. Podem, também, escrever as frases em tiras de papel e colar em um painel com todas as frases criadas pela turma e expor na sala de aula ou em outro espaço da escola.

4ª Etapa: Leitura e análise da linguagem

Leia mais um poema de Manoel de Barros:

A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou – eu não aceito.

Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas,
que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.

Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas
.”

Após a leitura, faça uma análise do texto, coletivamente, e provoque reflexões sobre cada trecho.

  • Qual o significado da “incompletude”?
  • Que crítica social aparece no poema?
  • De que forma “ser Outros” dialoga com o poema “Borboletas”?
  • O que a borboleta simboliza enquanto transformação?

Questione a ideia de incompletude do homem. “Não aceito ser um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio… mas eu preciso ser Outros” – o que falta / de que outra forma ele gostaria de viver? Destacar:

  • incompletude humana;
  • crítica ao homem funcional/robotizado;
  • necessidade de ser “Outros”;
  • borboleta como metamorfose; transformação interior.

Relembre que Manoel de Barros muitas vezes assume a beleza da inutilidade e faz crítica ao mundo do capital. Somente o inútil é sagrado; todo o resto é ferramenta, é descartável.

5ª Etapa: Finalização

Finalize com perguntas para retomar as ideias e avaliar as aprendizagens:

  • O que Manoel de Barros nos ensina sobre olhar o mundo?
  • O que mudou no meu olhar depois dessas leituras?
  • O que é poesia para mim agora?

Materiais Relacionados

Documentário: Manoel de Barros – Paixão pela palavra (2008).

Só Dez Por Cento é Mentira – Manoel de Barros – desbiografia oficial.

Obras de Manoel de Barros:

Poemas concebidos sem pecado (1937), Face imóvel (1942), Poesias (1956), Compêndio para uso dos pássaros (1961), Gramática expositiva do chão (1969), Matéria de poesia (1974), Arranjos para assobio (1982), Livro de pré-coisas (1985), O guardador de águas (1989), Gramática expositiva do chão (Poesia quase toda) (1990), Concerto a céu aberto para solos de ave (1991), O livro das ignorãças (1993), Livro sobre nada (1996), Retrato do artista quando coisa (1998), Exercícios de ser criança (1999), Ensaios fotográficos (2000), O fazedor de amanhecer (2001), Poeminhas pescados numa fala de João (2001), Tratado geral das grandezas do ínfimo (2001), Cantigas por um passarinho à toa (2003), Memórias inventadas: a infância (2003), Para encontrar o azul eu uso pássaros (2003), Poemas rupestres (2004) e Memórias inventadas: A segunda infância (2006), Memórias inventadas: A terceira infância (2008), Menino do mato (2010) e Escritos em verbal de ave (2011).

Bom trabalho!

Plano de aula elaborado pela Professora Renata Helene Ferreira Campos.

Coordenação Pedagógica: Prof.ª Dr.ª Aline Bitencourt Monge.

 Crédito da imagem: Liliboas- Getty Images

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