Conteúdos

Neste plano de aula para os anos finais do ensino fundamental, abordaremos os bandeirantes paulistas que saíram em suas expedições rumo ao interior do Brasil durante o século XVIII. O objetivo é compreender a expansão e a integração territorial brasileira no contexto da fase final do período colonial, discutindo a criação dos heróis nacionais.

Objetivos

  • Compreender a expansão e a integração territorial brasileira;
  • Debater a violência empregada por bandeirantes;
  • Aprender sobre a fase final do período colonial;
  • Conhecer a formação da identidade sudestina; e
  • Contextualizar a criação de heróis nacionais.

Conteúdos / Objetos do conhecimento:

  • Expansão e integração territorial brasileira;
  • Extermínio e genocídio indígena;
  • Identidade paulista e sudestina; e
  • Violência e formação de heróis nacionais.

Palavras-chave:

Bandeirantismo. Branquitude. Extermínio Indígena. Heróis nacionais. Expansão territorial.

Previsão para aplicação:

      4 a 6 aulas (50 min/aula).

1ª Etapa: Bandeirantismo e a integração territorial brasileira

Relembrando o período colonial brasileiro

O povoamento, a ocupação e a exploração econômica da América pelos portugueses se deram no litoral do Brasil, principalmente tal como já era hábito nas ocupações de Portugal na África. O período colonial, compreendido entre 1530 e 1822, tem algumas características nos campos da política e da economia que devem ser relembradas.

Em primeiro lugar, a colonização portuguesa nas Américas foi um processo violento e expansionista, que teve como resultados imediatos o extermínio de povos indígenas, fruto de guerras, doenças transmissíveis, fome, trabalho e deslocamento forçado. Toda colonização é também cultural, linguística e religiosa. Nesse sentido, o período colonial português também suplantou a organização, a religião e a língua dos povos que já residiam no território, além de escravizar sua mão de obra.

A igreja católica, representada sobretudo pelos jesuítas, foi a grande responsável pela catequização de indígenas no país. A Companhia de Jesus e seu clero foram responsáveis pela conversão de indígenas em cristãos, algo que faziam em grandes batizados coletivos. Também foram responsáveis pelo processo de aldeamento indígena, ou seja, a reorganização de determinados grupos em outros locais e com outra forma de poder, mais controlados e supervisionados pela igreja e, muitas vezes, trazendo grupos étnicos diferentes para essas aldeias. Dessa maneira, tanto a igreja quanto a Coroa mantiveram esses grupos originários sob seu domínio.

A organização econômica desse período, não somente da América dominada pelos portugueses, mas em toda América colonial, respeitava o princípio do Pacto Colonial, ou Exclusivo Metropolitano, no qual o local colonizado somente poderia fazer comércio com seu colonizador, também chamado de metrópole. A metrópole, por sua vez, fazia comércio com outras metrópoles. Dessa maneira, o colonizador poderia ter o domínio dos valores dos produtos vendidos pelas colônias, garantindo sempre o valor mais baixo para si, além de as colônias pagarem multas e grandes valores de impostos para a metrópole.

Também é importante relembrar que a mão de obra do período colonial era quase toda composta por escravizados. No caso dos africanos, imensa maioria situada na costa litorânea, eram convertidos em propriedade pelos fazendeiros e proprietários de terras e produção, e faziam parte do comércio mais lucrativo global, já que podiam garantir a alta demanda quando era o caso e preços ainda mais baixos para a metrópole.

Convencionou-se tratar o período colonial de um ponto de vista econômico, a partir de seus ciclos de produção e exploração, começando pela extração de pau-brasil, depois a produção de cana-de-açúcar, a exploração mineral do ouro e, por último, a produção cafeeira.

A extração do pau-brasil não foi pouco duradoura. Com o objetivo de fornecer pigmentação para tecidos, ocorreu em grande parte da costa brasileira, sobretudo no Sudeste, e foi até o esgotamento das madeiras de mais fácil acesso. Era exportada, sobretudo, para a Europa, e a sua extração era feita por escravizados indígenas.

A partir do século XVI, a produção de açúcar ganhou fôlego durando até meados do século XVII. Concentrada, sobretudo, no Nordeste brasileiro, a cana-de-açúcar tinha ampla produção regional, que era feita, em grande parte, por escravizados africanos. Seu escoamento era para a Europa e seus lucros enriqueceram fazendeiros portugueses e brasileiros, transformando a região na principal parte da colônia, tanto econômica quanto politicamente. Entrou em decadência com o barateamento da produção caribenha.

O ciclo do ouro foi a exploração mineral da região de Minas Gerais e Goiás no século XVIII. Os colonizadores portugueses demoraram mais do que os espanhóis para encontrar ouro e metais preciosos em território brasileiro, apesar de contar com a mão de obra escravizada, tanto indígena quanto africana e negra. Teve como principal meio de exploração a sanha de aventureiros, formando também um grupo de homens livres que não chegavam a ser proprietários, mas foram capazes de deter certos privilégios e acumular certa quantidade financeira. O esgotamento das minas superficiais diminuiu a exploração da região, já que não era mais possível mantê-la sem grandes ferramentas de exploração.

Por último, já no período imperial do Brasil independente, no século XIX, o ciclo do café iniciou-se em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, prolongando-se pelas primeiras décadas do século XX. Em um primeiro momento, o trabalho era feito por escravizados, o que gerou, inclusive, aumento na entrada de africanos no Brasil nesse período, mesmo após as leis que proibiam o tráfico e a escravidão. Em um segundo momento, passou a ser realizado por imigrantes europeus. A produção era destinada, sobretudo, para a Europa e não estava mais vinculada ao Pacto Colonial, já que o Brasil se tornou independente em 1822.

O processo oficial de exploração do interior brasileiro, chamado de entradas para o sertão, teve quatro funções principais ainda durante o período colonial: as expedições para expulsar estrangeiros do território português; a expansão da catequização dos jesuítas sobre os indígenas e a exploração dos recursos naturais dessas regiões; a busca de pastos pelo interior do país; e, por último, o aprisionamento de indígenas e a busca de metais preciosos, tendo sido esses levados adiante pelos bandeirantes. A exploração do território foi fundamental para o projeto colonialista português.

Quem eram os bandeirantes?

A primeira cidade brasileira, e o primeiro local a ter um engenho de açúcar no Brasil, foi a Vila de São Vicente. Apesar disso, não conseguiu fazer parte de forma vultuosa do ciclo protagonizado pelas capitanias nordestinas e, portanto, fora também do tráfico de africanos de forma quantitativa. A entrada para o interior dos habitantes de São Vicente é representada pela futura cidade de São Paulo, no Planalto Paulista, região mais interna da colônia no momento de sua fundação. A capitania de São Vicente e a Vila de São Paulo eram, portanto, regiões muito pobres, de baixa produção e de baixo desenvolvimento em relação aos estados produtores de açúcar.

Os bandeirantes foram os habitantes da Vila de São Paulo e da Capitania de São Vicente, que exploraram, em missões privadas, o interior e o sertão da colônia e do território brasileiro. Sua interiorização ocorreu a partir do século XVI e durou todo o período colonial. As ações exploratórias dos bandeirantes foram colonizadoras e violentas, e tinham três principais funções: o aprisionamento de indígenas para a escravização; a prospecção de minas e exploração de metais preciosos; e o estabelecimento de zonas comerciais que saíam dos olhos da metrópole.

Apartados das principais rotas do tráfico de escravizados africanos, os moradores de São Paulo foram para o interior em busca de indígenas que pudessem cumprir esse papel. Essas expedições também eram conhecidas como bandeiras apresadoras. Normalmente, formava-se um pequeno exército de pessoas, no qual quem ocupava os postos de comando eram membros de uma mesma família ou parentes, sendo também os maiores financiadores, já que as bandeiras eram empreendimentos privados. Formavam o corpo do exército mestiços, entre indígenas e brancos que tinham maior movimentação entre um e outro grupo e que eram aliados do líder, também chamado de armador. Os soldados eram, em sua maioria, indígenas escravizados. As mulheres não participavam das bandeiras e a igreja era representada por um capelão.

Foi graças ao conhecimento apropriado dos indígenas e mestiços pelos bandeirantes que estes puderam adentrar o sertão com maior facilidade, evitando que fossem descobertos. Os bandeirantes aprenderam a se alimentar de folhas, flores e frutos, a caçar, andar descalços, evitar e tratar doenças e ferimentos, e a usar couro e pele como vestimenta. Também sabiam demarcar e abrir picadas e trilhas nas matas, além de usar arco e flecha, algo mais silencioso que uma arma de fogo. Além disso, falavam uma língua que misturava português com línguas indígenas, sobretudo o tupi, chamada de língua geral.

As bandeiras de prospecção, por sua vez, foram as que ingressaram rumo ao sertão em busca de ouro, prata e outros metais preciosos. Muito incentivadas pelo reino de Portugal, essas expedições encontraram as minas de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso, e agora eram menores e com muito menos militarização, visto que a função era outra e suas necessidades eram as técnicas de mineração. É importante pensar que é nesse contexto que começa a surgir uma classe média no país, que não era nem de portugueses e nem de grandes proprietários.

No século XVII, o deslocamento do centro produtivo do país do Nordeste para Minas Gerais e Centro-Oeste foi fundamental para o enriquecimento de uma parcela da população, além de ser responsável pelo intenso êxodo ocorrido, com imenso afluxo de pessoas para esses locais. A região passou a ter consumidores e necessidades novas. As bandeiras comerciais eram, portanto, as expedições que abasteciam esses mercados e, portanto, atuavam por fora da metrópole e do governo geral, favorecendo o desenvolvimento local, tanto econômico quanto político.

Genocídio indígena e destruição do Quilombo dos Palmares

Os bandeirantes paulistas foram um dos principais responsáveis pelo extermínio de grupos étnicos indígenas inteiros. Isso porque, em primeiro lugar, as expedições visavam o seu aprisionamento e a escravização. Até o século XVIII, os indígenas eram a maioria absoluta de escravizados em São Paulo. Os métodos repentinos e violentos de dominação já resultavam em si mesmos em morte e extermínio. Uma das maneiras usadas para dominar indígenas era o ataque a um aldeamento jesuíta ou a um grupo ainda não reorganizado pela igreja.

Os bandeirantes atacavam, obrigando aquele grupo de pessoas a acompanhá-los, usando cadeados e colocando fogo em parte das casas e lavouras. Os capturados eram escravizados para trabalhar na lavoura dos paulistas. Aqueles que resistiam, os mais idosos, doentes e crianças, eram muitas vezes sacrificados ou deixados para morrer. Além da captura violenta, da escravidão e das grandes caminhadas, os indígenas morriam como fruto de doenças virais altamente transmissíveis e do alcoolismo.

Houve muita resistência indígena às invasões dos bandeirantes, e muitas se constituíram como verdadeiras guerras. Muitas vezes, houve aliança com jesuítas; em outras, houve associação de muitos grupos étnicos, e ainda houve alianças e traições feitas com os bandeirantes. Os processos eram dinâmicos, mas de fato a força e brutalidade dos bandeirantes foram muitas vezes mais fortes que a resistência indígena nas regiões pelas quais avançavam. Os principais captores de indígenas foram Anhanguera e Raposo Tavares.

Além do aprisionamento de indígenas, os bandeirantes também foram responsáveis pela destruição e recaptura de escravizados em quilombos, sendo o principal o Quilombo dos Palmares. A figura principal nesse caso foi Domingos Jorge Velho, líder de uma milícia de exploradores que estava há três anos percorrendo o sertão de estados como Piauí, Maranhão e Ceará. Jorge Velho fez fama de destruidor e aniquilador e acabou contratado pelo governador de Pernambuco para exterminar o maior e mais famoso quilombo brasileiro, que já havia resistido a duas investidas.

O Quilombo dos Palmares foi o maior quilombo do Brasil. Chegou a ter 20 mil habitantes em números modestos e ficava localizado entre os estados de Pernambuco e Alagoas. O quilombo prosperou e cresceu durante a invasão holandesa em Pernambuco, momento no qual portugueses e holandeses travaram embates, tornando-se na realidade um grupo de quatro quilombos, que formavam um complexo cujo centro era extremamente bem protegido e abrigava uma liderança central. Os dois líderes mais famosos foram Ganga Zumba e Zumbi, assassinado pela invasão do grupo de Domingos Jorge Velho em 1695.

2ª Etapa: Como nascem os heróis?

Consolidação da imagem dos bandeirantes

A imagem dos bandeirantes enquanto heróis paulistas e nacionais foi construída nas primeiras décadas do século XX, na qual os paulistas predominavam política e economicamente graças ao ciclo do café e à industrialização. As reformas modernizantes e higienistas promovidas no estado, e sobretudo na cidade de São Paulo, contribuíram para a visão de uma cidade veloz, à frente de seu tempo e avançada em relação aos outros locais do Brasil. Os bandeirantes foram alçados a personagens fundamentais na construção da identidade do paulista e também do sudestino brasileiro.

Ao redor dos bandeirantes, construiu-se um mito do homem virtuoso e corajoso que avançou e desbravou as matas, vencendo bestas e animais, além das intempéries do tempo e dos indígenas, vistos como selvagens. Quase como aquele que levava rumo ao sertão os europeus e a civilização. Como se tratava também das primeiras décadas da República, havia um grande movimento intelectual, político e artístico para encontrar a brasilidade, para nos constituir enquanto povo, nação e cidadão.

A escolha de heróis, imagens, símbolos, datas festivas e efemérides deve ser considerada não como uma ação aleatória, ou natural, mas como fruto da escolha política de governantes ou como conquista de um setor da sociedade – marginalizado ou não – que consegue, por meio da pressão popular, fazer sua identidade ser reconhecida. São exemplos disso o “Dia do Trabalhador”, 1º de maio, reconhecido assim pela luta dos trabalhadores, ou a preservação e construção do “Museu da Resistência”, na cidade de São Paulo, fruto do movimento de vítimas da ditadura militar brasileira. A preservação da “Praça do Pelourinho”, em Salvador, é também exemplo de uma memória da escravidão graças ao movimento negro baiano.

Todos esses eventos e patrimônios são exemplos de construção de uma memória que, apesar de se relacionar com a história, não são a mesma coisa. A memória coletiva diz respeito a escolhas de preservação de determinados elementos que constituem um aspecto de simbologia e tradição. Nem sempre eles correspondem à visão da historiografia sobre determinado assunto, e outras vezes não apresentam fontes que repercutem aquela determinada ideia, mas as imagens são construídas e aceitas pela memória coletiva.

No caso dos bandeirantes, a construção do herói veio a calhar justamente quando São Paulo estava em uma crescente econômica formada pelo café e pela industrialização. A ideia de que somente os bandeirantes eram responsáveis pela integração e coesão nacional ganhou força nesse período em que a elite paulista buscava se firmar com alguma tradição em comparação à elite nordestina e mais centenária que a de São Paulo. Uma das maneiras de trazer esse passado é construindo um também passado centenário para si por meio dos patriarcas bandeirantes. No início do século, a visão de que São Paulo era a locomotiva do país, de que carregava o país nas costas, estava totalmente, portanto, ligada à imagem dos sertanistas.

Alguns exemplos dessa memória são: o “Monumento às Bandeiras”, de Vitor Brecheret, localizado no Parque Ibirapuera; o “Monumento Anhanguera”, em frente ao Parque Trianon, feito por Luigi Brizzola; a estátua de Manuel de Borba Gato, de Júlio Guerra, localizada na Avenida Santo Amaro; o próprio prédio do governo estadual, localizado no bairro do Morumbi e chamado de “Palácio dos Bandeirantes” – todas as construções estão localizadas em São Paulo (SP). Além disso, ainda existem inúmeras ruas e rodovias como “Bandeirantes”, “Raposo Tavares” e “Fernão Dias”. Além da construção pública, locais privados – como a rede Bandeirantes de rádio e televisão e outros locais, como colégios, bares, lojas e marcas etc. – também homenageiam os bandeirantes paulistas.

Como vimos, as bandeiras eram compostas somente por homens, mas entre eles havia brancos – muitas vezes chamados de portugueses, mas que nem sempre o eram –, mestiços e indígenas, sendo esses dois últimos os responsáveis por ensinar aos homens do Planalto do Piratininga a andar no meio do mato, a sobreviver às condições da natureza, caçar, usar arco e flecha e pouca roupa. A substituição de escravizados negros por imigrantes após a abolição da escravidão foi uma política de Estado, uma tentativa de embranquecer a população, e o estado de São Paulo foi o local que recebeu o maior afluxo de europeus graças à produção cafeeira. O bandeirante foi também embranquecido no mesmo período.

Nesse sentido, o bandeirante histórico é bem diferente do bandeirante construído pelo Estado e forjado na memória coletiva, representado como homens brancos, bem-vestidos, altos, de armas de fogo e como heróis. No lugar disso, é mais provável que andassem com pouca roupa, descalços, não usassem armas de fogo, ou não usassem sempre, provavelmente eram sujos e mal alimentados, fruto da entrada nos sertões e florestas, além de serem captores de indígenas para a escravização e exploradores de recursos naturais e minerais.

Resistências nos dias de hoje

Em 2020, começou a circular na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 5.296/2020, que propõe a proibição de homenagens em todo território nacional a pessoas que tenham sido proprietárias, traficantes ou captores de escravizados, bem como defensores abertos da escravidão. Esse projeto, no entanto, vem junto a debates e manifestações – tanto no Brasil quanto em outros países – sobre a construção intencional da imagem de herói nacional e, portanto, da identidade do país por meio da manutenção de monumentos e estátuas de colonizadores e escravocratas, além de outros símbolos racistas.

Em Boston (EUA), em 2020, por exemplo, a estátua de Cristóvão Colombo foi decapitada por manifestantes; outra também foi derrubada em Baltimore (EUA) naquele ano. Homenagens ao colonizador também foram atacadas e destruídas em Barranquilla (Colômbia), em 2021, e em La Paz (Bolívia) no mesmo ano. Ainda em 2020, a estátua do jesuíta Padre Antônio Vieira cercado por crianças indígenas foi pichada com a palavra “Descoloniza”, em Lisboa (Portugal). Nas manifestações pela nova constituição chilena, em 2021, diversas estátuas também foram queimadas ou derrubadas e, em seu local, foram muitas vezes fincadas bandeiras mapuches para homenagear as vítimas e não o algoz. No Brasil, em 2021, a estátua do bandeirante Manuel Borba Gato foi incendiada em manifestações.

As ações têm por trás uma ou várias disputas pela construção da memória coletiva em sociedades que são, em si mesmas, diversas. Nesse sentido, monumentos que representam setores que em outros momentos históricos foram os responsáveis pelas ações de opressão e até de extermínio de setores populacionais inteiros não só não representam esses grupos, como, ao contrário, representam a morte deles. Pode ser muito desconfortável que essa memória celebrada por muitos como vitória esteja a todo tempo acessível também para aqueles que têm memórias associadas à dor, como êxodo, exílio, diáspora, morte, repressão e genocídio. É uma consequência da diversidade que exista disputa por uma memória também diversa e que, portanto, não seja única.

3ª Etapa: Filme: “Uma história de amor e fúria” e debate

A animação “Uma história de amor e fúria” é uma alegoria sobre alguns momentos marcantes da história do Brasil, na qual existem dois protagonistas: Janaína e Carlos, representado como um ser imortal. São quatro episódios da história: invasão portuguesa e francesa no litoral paulista e carioca; a balaiada; a luta contra a ditadura militar e um episódio futuro que fala sobre a disputa pela água. O filme foca na história não contada da resistência da população contra a opressão, ao contrário da história oficial, que coloca colonizadores como os protagonistas.

Ficha Técnica:

Direção: Luiz Bolognesi

País: Brasil

Ano: 2013

Duração: 75 minutos

Gênero: Animação

Classificação: 12 anos

Tema gerador do debate: “Meus heróis não viraram estátuas, morreram lutando contra quem virou” – Frase do filme: “Uma história de amor e fúria”.

Para esta atividade sugere-se que, além do filme, sejam selecionadas também reportagens que possam ajudar os estudantes a qualificarem suas opiniões sobre o assunto. Algumas delas podem ser:

CARMO, Márcia. “A polêmica em torno da derrubada de estátuas de Cristóvão Colombo”.

Acesso em: 08 de março de 2024.

 

            MERCHER, Daniela. “Estátua de Borba Gato, símbolo da escravidão em São Paulo, é incendiada por ativistas”.

            Acesso em: 08 de março de 2024.

            SALVADORI, Fausto. “Um problema monumental: Herança de exclusão em São Paulo faz com que apenas 5% dos monumentos homenageiem negros, indígenas e mulheres”.

Acesso em: 08 de março de 2024.

Sugestões para melhor conduzir um debate em sala de aula:

1) Evitar visões maniqueístas e opiniões que expressem algo como “contra ou a favor”. Para isso, a melhor saída é a de municiar os estudantes com materiais diversos, que eles possam selecionar conforme sua construção do conhecimento sobre aquele assunto e argumentação. Assim, é possível realizar um debate qualitativo, que reflita sobre o problema e que não busque apenas avaliar esse ou outro argumento.

2) Evitar divisões da sala em grupos predeterminados, nos moldes de “defesa” e “ataque”. É possível organizar a sala para ler em conjunto e fazer um pré-debate em grupos, mas é importante deixar claro que não há a necessidade de terem acordo entre si e não precisam defender nenhuma posição juntos.

3) Quanto à dinâmica, sugere-se que os estudantes façam uma roda, na qual todos possam olhar para todos, não havendo uma posição de destaque, mesmo que em momentos de fala. É importante organizar o tempo de fala de cada um dos alunos e uma ordem, respeitando a fala de cada uma das pessoas. Não precisa ser uma ordem predeterminada, podendo ser escolhido um instrumento que represente o momento de falar, de forma que todos os estudantes ouçam de forma ativa o colega que está com a palavra.

4) O(a) professor(a) pode pedir para que um ou mais estudantes façam anotações e/ou a ata do debate em questão, socializando com a turma posteriormente.

4ª Etapa: Exercícios

1) (Fuvest-SP) Qual destas definições expressa melhor o que foram as bandeiras?

a) Expedições financiadas pela Coroa que se propunham exclusivamente a descobrir metais e pedras preciosas.

b) Movimento de fundo catequético, liderados pelos jesuítas para a formação de uma nação indígena cristã.

c) Expedições particulares que apresavam os índios e procuravam metais e pedras preciosas.

d) Empresas organizadas com o objetivo de conquistar as áreas litorâneas e ribeirinhas.

e) Incursões de portugueses para atrair tribos indígenas para serem catequizadas pelos jesuítas.

            Gabarito: C.

            Crédito: Brasil Escola

Acesso em: 08 de março de 2024.

2) (Enem – 2015) Iniciou-se em 1903 a introdução de obras de arte com representações de bandeirantes no acervo do Museu Paulista, mediante a aquisição de uma tela que homenageava o sertanista que comandara a destruição do Quilombo de Palmares. Essa aquisição, viabilizada por verba estadual, foi simultânea à emergência de uma interpretação histórica que apontava o fenômeno do sertanismo paulista como o elo decisivo entre a trajetória territorial do Brasil e de São Paulo, concepção essa que se consolidaria entre os historiadores ligados ao Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo ao longo das três primeiras décadas do século XX.

MARINS, P. c. G. Nas matas com pose de reis: a representação de bandeirantes e a tradição da retratística monárquica europeia. Revista do LEB, n. 44, tev. 2007.

A prática governamental descrita no texto, com a escolha dos temas das obras, tinha como propósito a construção de uma memória que

a) afirmava a centralidade de um estado na política do país.

b) resgatava a importância da resistência escrava na história brasileira.

c) evidenciava a importância da produção artística no contexto regional.

d) valorizava a saga histórica do povo na afirmação de uma memória social.

e) destacava a presença do indígena no desbravamento do território colonial.

            Gabarito: A.

            Crédito: Resumov

Acesso em: 08 de março de 2024.

3) (UFU) A atividade bandeirante marcou a atuação dos habitantes da Capitania de São Vicente entre os séculos XVI e XVIII. A esse respeito, assinale a alternativa correta:

a) Buscando capturar o índio para utilizá-lo como mão de obra, ou para descobrir minas de metais e pedras preciosas, o chamado bandeirismo apresador e o prospector foram importantes para a ampliação dos limites geográficos do Brasil colonial.

b) As bandeiras eram empresas organizadas e mantidas pela metrópole, com o objetivo de conquistar e povoar o interior da colônia, assim como garantir, efetivamente, a posse e o domínio do território.

c) As chamadas bandeiras apresadoras tinham uma organização interna militarizada e eram compostas exclusivamente por homens brancos, chefiados por uma autoridade militar da Coroa.

d) O que explicou o impulso do bandeirismo do século XVII foi a assinatura do tratado de fronteiras com a Espanha, que redefiniu a linha de Tordesilhas e abriu as regiões de Mato Grosso até o Rio Grande do Sul, possibilitando a conquista e a exploração portuguesa.

e) Derivado da bandeira de apresamento, o sertanismo de contrato era uma empresa particular, organizada com o objetivo de pesquisar indícios de riquezas minerais, especialmente nas regiões de Mato Grosso e Minas Gerais.

Gabarito: A.

Crédito: Brasil Escola

Acesso em: 08 de março de 2024.

4) O Monumento às Bandeiras está localizado no Parque Ibirapuera, na área da Praça Armando de Salles Oliveira, e representa os bandeirantes que desbravaram o país no período colonial. Pode-se observar portugueses, negros, mamelucos e índios puxando uma canoa de monções. Encomendada pelo governo de São Paulo em 1921, a obra do escultor Victor Brecheret só foi inaugurada durante as comemorações do IV Centenário da cidade de São Paulo, em 1953. A escultura é composta por 240 blocos de granito − com cerca de 50 toneladas cada − tem 12 metros de altura, 50 metros de extensão e 15 metros de largura.

            Crédito: Governo de São Paulo

Acesso em: 08 de março de 2024.

A obra de Victor Brecheret faz referência a figuras marcantes da história do Brasil, os bandeirantes, a fim de:

a) fazer com que o público conheça o nome de pessoas importantes.

b) idealizar tais figuras, garantindo a elas uma ideia heroica.

c) indicar uma ideia de que a miscigenação no Brasil não foi bem-sucedida.

d) trazer à tona um assunto pouco representado nas obras de arte.

e) criticar o caráter violento e escravagista dessas personagens.

            Gabarito: C.

            Crédito: Estratégia Vestibulares

Acesso em: 08 de março de 2024.

5) (IBFC — adaptado) Sobre o processo de colonização do Brasil, o papel da catequese foi fundamental para o sucesso português. Assinale a alternativa que corresponde à ordem religiosa responsável pela conversão dos gentios.

a) Os franciscanos foram os primeiros responsáveis pela catequização nas terras portuguesas.

b) A ordem dos jesuítas, também conhecidos como “soldados de cristo”, foi responsável pelo processo de catequização dos chamados gentios.

c) Não coube às ordens religiosas o papel da catequização.

d) Frei Caneca é reconhecido pela igreja como um símbolo do processo de catequização no Brasil.

e) Os beneditinos enviados para a América por ordem do papa Alexandre VI.

            Gabarito: B.

Crédito: Mundo Educação

Acesso em: 08 de março de 2024.

Materiais Relacionados

  • Sobre os bandeirantes:

            HIGA, Carlos César. “Bandeirantismo” – Site Brasil Escola

            Acesso em: 08 de março de 2024.

            HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos e fronteiras. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. pp. 354.

            MAIA, Patrícia Albano. “Expansão territorial do Brasil Colonial: o bandeirantismo”. In: ODÁLIA, Nilo. CALDEIRA, João Ricardo de Castro Caldeira. História do Estado de São Paulo / A formação da unidade paulista Vol. 1 – Colônia e Império. São Paulo: Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2010. pp. 93-103.

            MONTEIRO, John Manuel. Negros da Terra – Índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. pp. 291.

  • Sobre o genocídio indígena e ataque ao Quilombo dos Palmares

            LOPES, Reinaldo José. “A controversa saga dos bandeirantes: expansão do território brasileiro resultou no genocídio indígena”.

Acesso em: 08 de março de 2024.

            PREVIDELLI, Fábio. “Domingos Jorge Velho: o bandeirante que aniquilou o Quilombo dos Palmares”.

Acesso em: 08 de março de 2024.

            NEVES, Daniel. “Quilombo dos Palmares”.

                        Acesso em: 08 de março de 2024.

  • Sobre a construção do mito dos bandeirantes

            RAIMUNDO, Sílvia Lopes. “Bandeirantismo e identidade nacional”.

                        Acesso em: 08 de março de 2024.

            PALÁCIO, Clarissa e CATELLINO, Guilherme. “Confira sete logradouros de São Paulo que homenageiam figuras históricas problemáticas”.

            Acesso em: 08 de março de 2024.

            VEIGA, Edison. “Como os bandeirantes, cujas homenagens hoje são questionadas, foram alçados a ‘heróis paulistas’”.

            Acesso em: 08 de março de 2024.

  • Sobre os debates e as resistências da atualidade:

            MOURA, Denise. “O que as estátuas de bandeirantes têm a nos dizer?”.

                        Acesso em: 08 de março de 2024.

            NEVES, Deborah. “Apego aos bandeirantes tem fator xenófobo’, diz historiadora sobre estátua de Borba Gato”.

            Acesso em: 08 de março de 2024.

            ZACHARIAS, Brenda. “Entenda quem foram os bandeirantes e por que eles são homenageados em São Paulo”.

            Acesso em: 08 de março de 2024.

            “Domingos Jorge Velho (1641 – 1705)” – Galeria de Racistas

                        Acesso em: 08 de março de 2024.

            “Borba Gato e as disputas pelas identidades e memórias do país” – Centro de estudos sobre justiça de transição.

            Acesso em: 08 de março de 2024.

Plano de aula elaborado pela profª Mayra Mattar Moraes. 

Coordenação Pedagógica: prof.ª dr.ª Aline Bitencourt Monge.

Revisão textual: professora Daniela Leite Nunes.

Crédito da imagem: Pixabay

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